sexta-feira, 20 de setembro de 2019

ESTELIONATO USANDO GEMAS



Nos últimos anos, tornou-se comum no Brasil um golpe em que estelionatários oferecem um lote de esmeraldas brutas.  Eles apresentam as esmeraldas acompanhadas de um laudo de avaliação em papel  timbrado, com assinatura, carimbo, etc., dando a aparência de um documento muito confiável.  Além disso, as pedras estão em uma embalagem que permite ver o conteúdo, mas que está fechada e lacrada, o que aumenta a impressão de ser um negócio sério.

        Essas pedras são de fato esmeraldas e costumam ser oferecidas para venda, pagamento de dívida ou garantia de empréstimo.

        Se elas são realmente esmeraldas e têm um laudo de avaliação, qual é o problema?  O problema é que a avaliação é irreal, muito acima do verdadeiro valor da mercadoria. Atraída por isso, a pessoa que recebe a oferta fica muito tentada a aceitá-la. Talvez nem saiba o que fará com as esmeraldas, mas acredita poder vendê-las por valor bem abaixo do que consta no documento de avaliação e ainda assim ter um bom lucro. Ou aceita a oferta porque a proposta é um meio de receber o pagamento de uma dívida antiga da qual não vê perspectiva de quitação.

        Feita a transação, o comprador das gemas procura vendê-las e aí descobre que elas valem muito menos do que lhe fizeram crer.  Pior: o laudo de avaliação informa que se o lacre da embalagem for rompido, a avaliação ficará sem efeito e nisso o estelionatário está certo.  Quem viola o lacre pode introduzir na embalagem qualquer coisa de valor inferior e o avaliador não pode ser responsabilizado pelo que acontecer dali em diante com a mercadoria que avaliou. Se a pessoa que comprou as esmeraldas desejar, mesmo assim, nova avaliação, vai ter que pagar por ela  e ficará sabendo que as esmeraldas realmente valem muito menos do que ele pagou.

        Esse golpe, como eu disse, vem acontecendo há vários anos e já fui procurado por muitas pessoas que desejavam vender esmeraldas assim adquiridas.  Nos últimos meses, porém, os estelionatários mudaram seu modo de agir.  O golpe das esmeraldas já devia estar muito conhecido e passaram então a oferecer quartzo incolor (cristal de rocha), um mineral extremamente comum, como se fosse diamante.  Não vi ainda nenhum laudo com essa falsa identificação, mas já fui procurado por umas dez pessoas pedindo que confirmasse se as pedras que têm são realmente diamantes. Para complicar as coisas, existem na internet vários testes que se afirma serem capazes de identificar o diamante. São testes principalmente de resistência ao fogo, que não funcionam.

        Além de ter alguma semelhança com o diamante, o quartzo incolor recebe, no mercado internacional, muitas denominações comerciais ou populares em que aparece a palavra diamante. No meu Dicionário de Mineralogia e Gemologia, registro quase trinta desses nomes. Ex.: diamante Arkansas, diamante Baffa, diamante de Herkimer, diamante Quebec, etc.  Isso só contribui para facilitar as fraudes.

        Uma das pessoas que me procuraram foi um homem acompanhado da esposa, ambos aparentando muita preocupação e ansiedade. As pedras que tinham já haviam sido examinadas por outra pessoa, que disse não serem diamantes, e tinham realmente a aparência de quartzo. Eles queriam nova identificação e que ela fosse feita na hora, na frente deles. Entendi sua preocupação e concordei. Quando lhes mostrei que não eram diamantes, a mulher olhou para o marido sem dizer nada, mas deixando claro que já esperava por aquele resultado.  Eles agradeceram, o homem disse que estava sem dinheiro e sem cheques, mas que me pagaria depois.  E nunca mais voltou.

Não sei que negócio ele havia feito, mas um colega meu recebeu para identificação dez cristais de quartzo que seu cliente havia recebido como se fossem diamantes, em pagamento de um caminhão...

      Vender cristal de rocha como se fosse diamante custa menos, é um golpe mais simples, mas exige muito mais poder de convencimento.

Quem receber uma proposta como essas, deve lembrar que:

1. O Código Civil (art. 313) estabelece que “o credor não é obrigado a receber prestação diversa da que lhe é devida, ainda que mais valiosa". Portanto, não está obrigado a receber pedras preciosas como pagamento de divida em dinheiro, ainda que sejam de valor muito maior.

2. Nenhum mineral risca um diamante, a não ser outro diamante, mas é muito fácil quebrar essa pedra com um martelo.   

3. Se o suposto diamante for riscado por topázio, rubi ou safira, certamente não é diamante.

4. Lembrar também que o maior diamante encontrado até hoje (há mais de cem anos) pesava apenas 621 gramas. Os diamantes brutos pesam, em sua grande maioria, menos de 1,5 quilate (300 miligramas)  e a grande maioria dos diamantes lapidados  pesa menos de um quilate, ou seja, 200 miligramas. (Circula na internet uma fake news informando que foi apreendido um diamante de 2,5 toneladas!)  O tamanho da(s) pedra(s), portanto, é uma boa característica a levar em conta para saber se pode ser ou não um diamante.  

5. Na dúvida, deve-se procurar um gemólogo ou empresa que disponha de um laboratório gemológico. Isso, é claro, antes de fechar o negócio.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

BIJUTERIA DE NIÓBIO?



              Com a posse do presidente Jair Bolsonaro, o nióbio, que já era frequentemente  citado na mídia e redes sociais -  infelizmente muitas vezes envolto em notícias falsas ou apenas parcialmente verdadeiras -, está, mais do que nunca, em evidência. O presidente  está convencido de que esse metal não tem recebido a atenção que merece e que isso tem que mudar. 


             A repercussão de suas falas sobre o assunto atingiu grande intensidade quando, alguns meses atrás, ele sugeriu que o nosso nióbio fosse usado como bijuteria. O comentário, à primeira vista, estapafúrdio, principalmente para quem conhece o metal e tem pelo menos um razoável conhecimento do mercado de joias e bijuterias, não é, todavia, tão despropositado como pode parecer.

Minerais opacos e de brilho metálico são pouco usados para adorno pessoal, mas a hematita e a marcassita, por exemplo, são bem conhecidas nesse segmento da indústria.  A principal razão, porém pela qual o uso de nióbio em bijuterias é viável é que o próprio presidente o viu ser assim empregado no Japão. Ele contou inclusive ter adquirido uma peça feita com o famoso metal, mais precisamente com a liga ferro-nióbio, que é o produto que o Brasil exporta e que se vê na foto abaixo (obtida na internet, sem citação de fonte). Essa liga, formada por 66% de nióbio e 30% de ferro, sofre oxidação superficial, adquirindo cores vistosas, bem semelhantes às que exibe a calcopirita (sulfeto de ferro e cobre).

                            
Outro aspecto a considerar é que objetos de adorno pessoal são muito valorizados quando feitos com materiais raros e valiosos, mas também quando neles são empregados materiais exóticos e originais.  E o nióbio não só é um metal muito “exótico”, como também “está na moda”. 

Além disso, Bolsonaro, ao falar sobre o nióbio brasileiro, vem se referindo sempre às reservas existentes na Amazônia, região que, por sua vez,  está igualmente “na moda”.


Gosto não se discute; portanto, se alguém acha bonito usar como adorno pessoal uma peça feita com ferro-nióbio, que vá em frente. Se, além disso, apoia o governo de Jair Bolsonaro, tem aí mais uma forte  razão para fazer isso. 

sexta-feira, 28 de junho de 2019

GEMAS MILIONÃRIAS

  

    Há gemas que são vendidas por preços astronômicos, seja em leilões, seja em transações privadas.    
       Em  04.04.2017, por exemplo, o diamante rosa Pink Star, de 59,60 ct (11,92 gramas),  foi vendido em Hong Kong por US$ 71,2 milhões, o maior preço pago por uma pedra preciosa em toda a história dos leilões, pelo menos até àquela data.

Um rubi de Myanmar, chamado Rubi do Amanhecer, de 25,59 ct (5,06 gramas), foi leiloado pela Sotheby's em 12.05.2015, pela quantia de US$ 30,3 milhões, o maior valor pago por uma loja Cartier até então.  

A esmeralda abaixo, de 18 ct, foi vendida por seis milhões de dólares na Christie's.



Esse diamante em forma de coração, de 92 ct, cor D (a melhor possível) e sem qualquer impureza, chamado La Légende, foi vendido em Genebra por US$ 14,99 milhões, um “recorde mundial”, segundo a Christie’s.




O maior diamante incolor encontrado em Angola (em fevereiro de 2016), com 404 quilates e 7 cm, foi vendido por 16 milhões de dólares.
Os diamantes abaixo, conhecidos como Apollo e Artemis (irmãos gêmeos na mitologia grega), foram vendidos por um total de US$ 57 milhões, também pela Sotheby's. Adquiriu-os um comprador anônimo, que mudou seus nomes para Lembrança das Folhas do Outono" (o azul) e Sonho de Folhas de Outono.




Exemplos como esses a agente vê várias vezes por ano na mídia, com relativo destaque. 

Diante dessas aquisições, que muitos não hesitariam em tachar de absurdas, é válido perguntar: está certo pagar tanto dinheiro por uma gema?

Antes de responder, precisamos lembrar que essas compras milionárias ocorrem também com outros objetos, não apenas com joias e gemas. Há quadros de pintores famosos que atingem cifras astronômicas nos leilões. Em maio 2019, por exemplo, um Monet foi arrematado por quase 500 milhões de reais. O vestido usado por Marylin Monroe na festa em que cantou Parabéns a Você a John Kennedy foi a leilão com lance inicial equivalente a R$ 9,6 milhões. E vejam só: o saco com fecho éclair usado por Neil Armstrong para carregar as primeiras amostras de rocha trazidas da Lua foi a leilão avaliado em 4 milhões de euros.

              Mas, voltando à questão anterior: vale a pena pagar tanto por um objeto, seja ele uma gema raríssima por sua qualidade e tamanho?  O que leva uma pessoa a gastar tanto dinheiro numa transação dessas?

              É óbvio que quem faz isso tem muuuuuito dinheiro, bem mais do que eu, por exemplo. É óbvio também que pessoas assim já possuem tudo ou praticamente tudo que o dinheiro pode comprar.  Então, é lícito supor que elas, como se diz popularmente, não sabem mais o que fazer com o dinheiro.

Pode, porém, se tratar de uma pessoa que compra não apenas por ter dinheiro demais, mas sim por ter gosto refinado, sabendo avaliar a importância de uma tela famosa ou de uma joia  sem igual.  Não é, portanto, pura ostentação. Mas, mesmo neste caso, será válido pagar tanto?

      Isso tudo nos traz facilmente à lembrança outra questão: com tanta gente morrendo de fome no mundo,  não é antiético é imoral fazer isso?  Muitos responderão que ninguém sozinho poderá acabar com a fome no mundo.  Mas, convenhamos que com alguns milhões de dólares dá para ajudar um bocado de gente.

Outra questão a ser levantada: o que uma pessoa que compra uma raridade dessas faz com a preciosa aquisição?  Se for uma joia, talvez se arisque a usá-la em uma festa ou cerimônia importante,  onde se sinta segura. Em casa, não acredito que faça isso.

Sendo de outra natureza o objeto, como o saco de amostras de rochas de  Armstrong, provavelmente o rico e feliz proprietário se limite a olhar  e admirar (com frequência?) sua preciosa raridade, mostrando-a a alguns poucos e privilegiados amigos.

Quanto a mim, posso dizer que, se tivesse milhões de dólares sobrando, compraria, sim, peças raras e muito caras, sobretudo minerais no estado bruto. Mas, não para meu deleite pessoal, não para minha coleção particular, e sim para um grande, rico e belo museu acessível a todas as pessoas.

 Fotos obtidas na internet, sem registro de créditos.

quarta-feira, 13 de março de 2019

UM TRABALHO DE VINTE ANOS É CONCLUÍDO


             
Durante muito tempo, tive vontade de pôr no papel histórias vividas em meu trabalho de geólogo. A Geologia nos põe em contato com gente simples do interior mas também pode nos pôr ao lado de gente brilhante em grandes centros urbanos. Isso, aliado ao fato de haver trabalhado em vários estados do Brasil me trouxe experiências muito ricas que eu tinha vontade de compartilhar com colegas e com pessoas da minha família, que sabiam das minhas muitas viagens mas pouco sabiam do que nelas acontecia.
              Por volta de 2008, comecei finalmente a escrever essas histórias, com a intenção de um dia reuni-las em um livro. Inicialmente a ideia era contar apenas casos curiosos, engraçados, intrigantes ou trágicos vividos em trabalho de campo (principalmente na Bahia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Amazônia). Depois, inclui histórias igualmente interessantes vividas no asfalto, em cidades como Salvador, Rio de Janeiro e Porto Alegre e outras, menores, mas também em cidades de outros países, como Estados Unidos, Argélia (no deserto do Saara), Chile, Portugal e Itália. Por fim, decidi incluir experiências profissionais que foram importantes e muito gratificantes para mim, relacionadas com o trabalho com pedras preciosas, com o Museu de Geologia da CPRM e como colecionador de minerais, por exemplo, além de algumas viagens de geoturismo por vários países (incluindo visita a praias e vulcões do Havaí) e participação em congressos de Geologia.
          Esse trabalho teve incontáveis interrupções, algumas bastante longas, pois frequentemente aparecia alguma atividade mais importante ou que exigia atenção mais imediata. Em 2018, porém, consegui me dedicar mais a esse projeto, e em dezembro ele foi concluído. 



         O livro terminou de ser impresso dia 19 de fevereiro e ficou com 443 páginas de leitura fácil e agradável, com muitas dezenas de histórias. Seu título é AS PEDRAS DO MEU CAMINHO - Venturas e desventuras de um geólogo brasileiro.
          Os amigos que desejarem adquiri-lo (R$ 30,00 + R$ 9,00 de despesas de correio) devem fazer depósito na conta corrente 16207-8 do Banco do Brasil (001), agência 4899-2, CPF 089 670 320-72. Feito isso, remeter comprovante do depósito e endereço para remessa pelo e-mail bbjornal59@gmail.com ou por WhatsApp (51 99281-2314).  
          O livro pode ser comprado também da Oficina de Textos (ofitexto.com.br) ou na loja de minerais Talismã de Cristal, na Rua Gen. Câmara, 353, em Porto Alegre.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

O ÔNIX E O JADE

    Anos atrás, a TV Globo exibiu uma novela que tinha entre as personagens uma mulher chamada Jade. A novela (ou a personagem pelo menos) fez tanto sucesso que, a partir daí, muitos pais deram o nome de Jade a sua filha. Acontece que jade, a pedra preciosa é o jade, não a jade.  O sucesso da novela criou essa confusão e hoje muita gente se surpreende quando ouve alguém se referir ä pedra preciosa como o jade.
    Outra confusão desse tipo pode estar ocorrendo agora. A constante presença nos noticiários do ministro Onyx Lorenzoni pode estar levando muita gente a chamar outra pedra preciosa, o ônix, de onix.   
    Atenção aí, gente!

sábado, 2 de fevereiro de 2019

A FOSSILIZAÇÃO E A VALE


 Uma das primeiras coisas que se aprende ao estudar Paleontologia é que a condição primordial para que um animal ou planta fossilize é o rapido recobrimento.  Se o ser vivo morre e logo e recoberto por argila ou outro sedimento, ficando isolado do contato com o ar, não ocorre sua decomposição. Decompõem-se, sim, as partes moles, como os músculos, mas ficam preservadas as partes duras: garras, dentes e ossos. Se estas ficarem soterradas, com o tempo se tornarão parte de uma rocha sedimentar, podendo nela ficar preservadas como fósseis por muitos milhões de anos.
  Esse conhecimento fica envolto em muita tristeza quando se constata que se trata exatamente do processo que estamos presenciando em Brumadinho. Dos muitos corpos ainda não resgatados, provavelmente alguns pelo menos nunca serão encontrados. Fossilizarão e sabe-se lá quando serão descobertos. Se um dia o forem.
 Acredito que muitas pessoas que lerem isso não gostarão do que escrevi, principalmente os que têm parentes ou amigos soterrados na lama de Brumadinho. Eu as entendo e quero que saibam que pensei bastante se devia escrever esse texto.  Acabei fazendo-o porque ele nos leva a ver com dura clareza a finitude humana, mesmo eu crendo que a vida continua além da morte física.
 Já trabalhei em mina e sei da enorme importância que tëm o minério de ferro e a Vale para o Brasil. Mas ela nunca será maior que o respeito que se deve ao ser humano e, neste caso em particular, sobretudo àqueles que contribuem para que a Vale continue a ser a importante mineradora que é.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

150.000 VISUALIZAÇÕES

    Dia 15 de novembro, este blog ultrapassou 150.000 visualizações.
     Obrigado aos nossos seguidores. 

sábado, 27 de outubro de 2018

DEZ COISAS QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE PEDRAS PRECIOSAS



1. Brilhante não é uma pedra preciosa

              Embora muita gente fale em anel de brilhante, essa palavra não é nome de uma pedra preciosa e sim de um estilo de lapidação. Como esse tipo de lapidação é o que melhor ressalta a beleza do diamante, ele é o mais usado para essa gema e, com isso, muitos fazem a confusão entre diamante e brilhante.
              Há diamantes que não são lapidados na forma de brilhante, assim como há gemas que não são diamante e recebem lapidação brilhante.
              Portanto, se a pedra do seu anel, brincos ou outra joia for um diamante, diga que você tem um anel ou brinco de diamante, não de brilhante. 
Abaixo, figura mostrando como é um brilhante visto de perfil (abaixo) e de cima.



3. Rubi e safira são um mesmo mineral

              O rubi e a safira são variedades de um mesmo mineral chamado coríndon. Rubi é o coríndon de cor vermelha; safira é o coríndon com qualquer outra cor.
A safira azul-escuro a púrpura é a mais valiosa, mas existem outras, com cores como   rosa, dourada e até incolor (leucossafira).

3. Esmeralda e água-marinha também são um mesmo mineral

              A esmeralda e a água-marinha também são variedades de um mesmo mineral, neste caso o berilo. Mas, aqui as diferenças vão além da cor: a esmeralda (verde) é bem mais valiosa que a água-marinha (azul-claro a esverdeada). Além disso, embora seja fácil obter uma água-marinha bem límpida, sem defeitos (os gemólogos chamam os defeitos de inclusões), a esmeralda invariavelmente é cheia de fissuras onde podem se alojar outras substâncias. Apenas em pedras muito pequenas se deve esperar uma grande pureza.
             
4. A cor é o que mais valoriza uma gema lapidada

              Do valor de uma gema lapidada, 50% devem-se à cor. Ela é a propriedade que mais importa na avaliação de uma pedra preciosa. Em segundo lugar vem a pureza (30%) e depois a qualidade da lapidação (20%).
              Mesmo no caso de diamantes incolores (como é a imensa maioria deles) a cor é fundamental porque aquilo que para um leigo parece incolor, pode estar longe de sê-lo. Os avaliadores de diamante conseguem definir cinco categorias de cor do aparentemente incolor ao absolutamente incolor.

5. O significado de quilate

              Quando se fala de gemas, a palavra quilate nada tem a ver com qualidade. Ela é uma unidade de peso, que equivalente a 200 miligramas. Assim, uma pedra preciosa de 5 quilates pesa um grama.
              A confusão é fácil de entender porque quando se fala em ouro, aí, sim, quilate tem a ver com a composição. As ligas de ouro podem ter 58,33% deste metal (ouro 14 K), 75% de ouro (ouro 18 K, ou ouro 750) ou 100% de ouro (ouro 24 K, ou ouro 1.000, que é o ouro puro). 
              Ouro 18 K é o mais usado em joias; ouro 24 K é o que se comercializa em barras e lingotes. 

6. O significado de dureza

              Muita gente pensa que substância dura é aquela difícil de quebrar. Isso não está errado, mas quando se trata de pedras preciosas ou qualquer outro mineral, dureza é a resistência que a pedra oferece quando se tenta riscá-la, não quebrá-la. 
              Um exemplo clássico é o diamante, que é a substância mais dura que se conhecer. Ele só pode ser riscado por outro diamante, mas é muito fácil de ser quebrado.
              O oposto ocorre com o jade, que não tem dureza muito alta (6,5 a 7,0 numa escala de 1 a 10), mas é muito difícil de quebrar.

7. Não existe pedra semipreciosa

              Embora ainda seja comum no Brasil se ouvir falar em pedra semipreciosa, esqueça esse nome. As pedras usadas para adorno pessoal são pedras preciosas, não importa se são caras ou baratas.
Não há e nunca houve uma distinção clara entre quais seriam as pedras preciosas e quais as semipreciosas. Esqueça então essa pretensa diferença. Se seu anel é de ametista, topázio, turmalina, citrino, sodalita, rodocrosita, lápis-lazúli ou água-marinha, por exemplo, não tenha receio de dizer que ele é feito com pedra preciosa.

8. Gema sintética é diferente de gema artificial

              Tanto a gema sintética quanto a artificial são produzidas em laboratório. Elas não são, portanto, naturais. Mas, há uma diferença entre as duas. A sintética é uma pedra preciosa que existe também na natureza, enquanto a artificial não existe ou ainda não foi encontrada. Esmeralda, espinélio, rubi, ametista entre outras são gemas que podem ser sintéticas; mas a zircônia cúbica é uma gema artificial.
              Como existe zircônia que é natural mas não é cúbica, o correto é dizer sempre zircônia cúbica (pode-se usar a abreviatura inglesa CZ) e não apenas zircônia.

9.  O Brasil tem a maior diversidade de gemas do planeta

        O Brasil é uma das nove províncias gemológicas do mundo, ou seja uma das regiões excepcionalmente rica em gemas. A província brasileira destaca-se não apenas pela grande produção, mas principalmente pela enorme diversidade. Há mais de cem gemas já encontradas no Brasil.
              Isso explica por que gemas como ametista, citrino, ágata, quartzo rosa entre outras são baratas aqui.

10. O cristal de rocha

              Cristal de rocha é uma denominação infeliz mas consagrada que designa o quartzo incolor. Ele é assim chamado também em outros idiomas, como francês, italiano e inglês.
A denominação é imprópria porque todos os minerais formam cristais e rocha é uma associação de minerais em proporções definidas. Portanto, cristal de rocha é algo como fruta de árvore, expressão ambígua que não define nada.
Use, se quiser, o nome cristal de rocha, mas, dê preferência a quartzo incolor. E jamais use apenas a palavra cristal para se referir a essa gema.


Fonte: BRANCO, Pércio de Moraes. Dicionário de MIneralogia e Gemologia.
2 ed. rev. ampl. São Paulo, Oficina de Textos, 2014. 608p. il.

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O PROJETO ARGÉLIA

O Brasil é um grande exportador de pedras  preciosas, mas nunca se ouve falar que nosso país tenha exportado tecnologia nessa área. Em julho deste ano, porém, foi concluído um bem sucedido projeto de transferência de tecnologia do Brasil para a Argélia, do qual tive a satisfação de participar.
 No início da década de 1980, o governo argelino decidiu promover o aproveitamento das suas pedras preciosas e buscou cooperação técnica de países com experiência no ramo. Vários governos foram consultados e todos pediram alguma contrapartida na forma, por exemplo, de importação de bens ou de serviços. O Brasil foi o único que se dispôs a dar o treinamento desejado sem nada pedir em troca, pois estava em vigor uma política de aproximação com os países africanos.
 Já no ano seguinte, firmou-se um "acordo de cooperação científica, tecnológica e técnica, para transferência de conhecimento para produção de gemas lapidadas, joias e artesanato mineral". O projeto, porém, demorou a iniciar e só em 2010 começou a sair do papel.   
 O Brasil forneceu os técnicos; os argelinos, os equipamentos e espaço físico para as aulas, além de hospedagem e alimentação dos professores, e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), as passagens aéreas. A execução do projeto ficou com a Associação Brasileira dos Pequenos e Médios Produtores de Gemas, Joias e Similares, Mineradores e Garimpeiros (Abragem), de Brasília, e sua condução, com a Agência Brasileira de Cooperação (ABC).
 O projeto ofereceu treinamento em Gemologia, lapidação facetada, artesanato mineral, ourivesaria artesanal, design de joias e criação de uma cooperativa mineral.

 Em abril de 2010, fui convidado a dar o treinamento em Gemologia e no mês seguinte viajei a Tamanrasset, a sede do projeto, cidade situada a 2.000 km da capital (Argel), em pleno deserto do Saara. Na mesma viagem, estavam o coordenador brasileiro do Projeto, o embaixador brasileiro na Argélia e alguns dos professores. Em Tamanrasset, foi então solenemente inaugurada a escola do projeto, mas mais três anos se passaram até seu início efetivo. 

                            Almoço após a inauguração da escola.

 Decidiu-se que o primeiro curso seria o de Gemologia, e para isso embarquei novamente para a Argélia no dia 12.11.2013. Meu curso lá foi dividido em duas partes, "Introdução ao Conhecimento das Pedras Preciosas" e "Identificação de Gemas Lapidadas, com duração total de treze dias.
 Um dos alunos era professor e já tinha livros publicados. Um dia, criou-se entre nós um certo mal-estar porque divergimos com relação ao processo de formação da pérola. Mas, para minha surpresa, no último dia do curso ele me pediu que redigisse o prefácio de sua nova obra, "L’Art de Transformer les Métaux Nobres en Bijoux et Pieces d’Art". 

                                                  Meus alunos

 O curso teve outros momentos marcantes. Um foi quando um aluno que raramente falava, após ficar alguns minutos ao microscópio olhando inclusões de uma gema lapidada, afastou os olhos do aparelho e exclamou, em francês, falando consigo mesmo: "Quantas maravilhas Alá colocou no mundo para nós!"
 Outro aconteceu durante as primeiras aulas. Ao falar sobre o diamante nos meus cursos, costumo mostrar uma foto de uma linda mulher usando um biquíni totalmente revestido com aquela gema. É apenas uma curiosidade para mostrar um uso exótico daquela pedra preciosa. Na Argélia, fiquei em dúvida se mostrava ou não a foto, considerando que os costumes lá são bastante diferentes e que as mulheres argelinas mostram quase nada do corpo. Como seria uma simples curiosidade e exibida por apenas alguns segundos, resolvi deixar.
 Os alunos haviam me pedido autorização para copiar minha apresentação em seus pen drives. Por isso, não estranhei muito quando, minutos antes de retomar a aula sobre diamantes, um dos alunos mais jovens foi mexer no data show, sem nada me falar. Recomecei a aula e quando projetei a foto da mulher de biquíni apareceu apenas o biquíni, em sua posição real. O aluno removera da foto todo o corpo da mulher.
 Entendi que havia ferido a suscetibilidade daquele jovem e pedi desculpas a todos, mas vários deles me disseram para não dar importância ao fato, pois aquilo era o sentimento daquele aluno apenas.

 

                             
                                               O Saara
   

 Um aspecto positivo do Projeto envolveu as mulheres. A tradição argelina não vê com bons olhos mulheres trabalhando com metal, e o curso de Gemologia só teve homens inscritos. Mas, nas demais atividades o Projeto Argélia mudou um pouco essa tradição.
 Outra mudança foi introduzida pelo treinamento em cooperativismo. A Argélia não tinha, até então, nenhuma cooperativa nos moldes como nós conhecemos, apenas, minicooperativas familiares. O Projeto levou conhecimentos sobre essa modalidade de produção e, com isso, acabou sendo criada  a primeira cooperativa do país.
 Nas duas viagens, conheci praticamente nada sobre as gemas argelinas, apenas vi alguma coisa que levaram para a sede do curso. A informação que recebi foi que o governo daquele país não tem interesse em divulgar essas informações, mas parece que há uma significativa variedade de pedras preciosas na região sul do país.  


 

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

ANTROPÔNIMOS PRECIOSOS


              Antropônimos, para quem não sabe, são os nomes dados a pessoas (João, Maria, etc.).
É bem sabido que os brasileiros são campeões na criação desses nomes, não só combinando os nomes dos pais, como também reproduzindo (geralmente mal) nomes de pessoas famosas.  A fama de Michael Jackson fez surgir centenas ou milhares de brasileiros com o nome Máicon, quando deveria ser Michael ou, pelo menos, Máicol. Achar um nome para o filho combinando os nomes dos pais geralmente dá maus resultados, mas nem sempre. Tenho uma sobrinha chamada Juliana porque seus pais são o Júlio e a Ana. E uma prima tem o belo nome Anileda, que é o nome de sua avó Adelina de trás para diante.  
Mas, quero aqui falar é dos antropônimos que são nomes de pedras preciosas ou outras gemas. Não conheço pessoalmente nenhuma mulher chamada Esmeralda, mas em obras de ficção já encontrei mais de uma, assim como já encontrei mulheres chamadas Ágata. E aos que lembraram agora de Agatha Christie lembro que ágata em inglês é agate, não agatha.
Ainda falando de nomes femininos, conheci uma Pérola, filha de uma amiga de infância.
Se as gemas dão nomes às pessoas, o inverso também pode ocorrer. Larimar é uma gema até hoje só encontrada na República Dominicana e que recebeu este nome porque tem a cor azul, como pode ser a cor do mar, e porque a filha de um de seus descobridores se chamava Larissa.
Não encontrei ainda nenhuma mulher chamada Ametista, Opala ou Safira, mas não duvido que elas existem.
Embora menos numerosos, também há antropônimos masculinos que são nomes de gemas, como Rubi, um amigo do meu tempo de estudante; Ivory (marfim em inglês), nome de um conhecido que trabalhava com um parente meu e Ônix, nome de um político gaúcho (Ônix Lorenzoni). Mas, o mais significativo e mais importante para mim é Heliodoro. Este era o nome do meu pai, falecido em 1967, quando eu havia concluído apenas o primeiro semestre do curso de Geologia e ainda não sabia que existia uma pedra preciosa com seu nome.

Heliodoro (que significa presente do Sol) é a variedade amarela do mineral chamado berilo (a verde é a esmeralda e a azul é a água-marinha). Não pude dar ao meu pai um cristal de heliodoro de presente, mas fiz isso, de modo simbólico, em 2010. Naquele ano, por sugestão minha, fizemos um grande encontro da família Moraes Branco em Lagoa Vermelha (RS), onde ela se instalou em 1860 e onde sempre teve, desde então, pelo menos alguns representantes. Nesse encontro, que foi chamado de I Revoada da Família Moraes Branco dei a cada ramo da família presente uma chapa de ágata polida com os dizeres I Revoada da Família Moraes Branco – EU COMPARECI – Lagoa Vermelha, 31.10.2010. Em homenagem a meu pai, mandei gravar, em outra ágata, bem maior, as palavras HELIODORO MORAES BRANCO – MUITO PRESENTE! e nela colei um cristal de heliodoro com 5 cm de comprimento. 


Por fim, é preciso lembrar um equívoco que se generalizou por influência da televisão. A TV Globo exibiu uma novela em que uma das personagens chamava-se Jade. Isso levou muitos pais brasileiros a assim batizarem uma filha. Mas, jade, meus amigos, é nome masculino, não feminino.  A moda pegou e agora acho difícil que algum menino brasileiro venha a ser batizado como Jade, embora eu tenha conhecido, uns quarenta anos atrás, um Jades.
Antônio Houaiss informa, em seu dicionário, que existe o sinônimo jada, que eu nunca vi ser usado. Uma opção para os pais que querem chamar a filha de Jade poderia ser Jadeíta, que é o nome do mais valioso dos dois tipos de jade (o outro é a nefrita).

segunda-feira, 14 de maio de 2018

KILAUEA, O "MEU" VULCÃO


 Houve uma época da minha vida em que eu ansiava por ver um  vulcão. Eu não conhecia nenhum e queria ter esse prazer.  Mas, não me bastava conhecer qualquer vulcão. Eu queria um que estivesse em erupção!
 Isso naturalmente me impunha pelo menos quatro sérias dificuldades. Primeira: o Brasil não tem vulcões. Segunda: seria preciso esperar que um vulcão não muito distante entrasse em erupção. Terceira: eu precisaria me deslocar logo para lá, antes que ele se aquietasse. Quarta: eu precisaria  descobrir como chegar até ao local, ficando a um distância segura do vulcão. Era, portanto, uma missão impossível.
 Um dia, descobri o livro "Turismo de Aventura em Vulcões", de Rosaly Lopes. Pronto, pensei, agora eu saberei como ver um vulcão em atividade.
 Rosaly Lopes é uma vulcanóloga brasileira que trabalha na Nasa e que identificou 71 vulcões ativos na superficie de Io, satélite de Júpiter. Ela conhece a fundo os vulcões da Terra e seu livro é um primoroso roteiro sobre essas atrações (para ela e para mim, pelo menos) geológicas.
 Comecei a ler o livro com muita atenção e quando cheguei ao capítulo sobre os vulcões do Havaí constatei que não precisava prosseguir a leitura. Eu achara o "meu" vulcão e ele se chamava Kilauea.
 O Kilauea está hoje nos noticiários, porque sua lava destruiu, desde o início de maio, dezenas de casas e obrigou alguns milhares de pessoas a abandonar suas moradias. Descrito desse modo ele parece ser um horror, mas não é bem assim, tanto que, embora sua atividade tenha aumentado muito desde o início de maio, o Parque Nacional dos Vulcões, onde ele se encontra, só foi fechado no dia 10.  Normalmente, ele tem uma atividade pouco intensa, que permite seja visitado sem preocupação. Como os demais vulcões havaianos, o Kilauea tem baixo indice de explosividade, o que significa que suas erupções não são aqueles acontecimentos catastróficos comumente ligados a esse fenômeno geológico. Esse, aliás, foi um dos motivos que me fizeram eleger o Kilauea o meu vulcão. Para dar uma ideia, eu o visitei com minha mulher e a familia do meu filho, incluindo dois netos ainda crianças.  Outro motivo foi que o Kilauea, informou-me Rosaly Lopes, está em erupção continua desde 1987!  Uau!  Isso era incrível! Jamais eu imaginara que um vulcão pudesse permanecer ativo por tanto tempo ininterrruptamente. Isso significava que eu poderia ir lá sem pressa  que ele estaria à minha espera, pelo menos borbulhando.  E assim foi. Por fim, como eu já disse, aquele vulcão se situa num parque nacional, indício seguro de que eu teria pelo menos boas condições de acesso. 
 Como acontece com muitos vulcões, as sucessivas erupções do Kilaueua foram formando um cone vulcânico cada vez mais alto, até que uma delas fez ruir toda aquela estrutura. Assim, o que era um cone tornou-se uma caldeira, que mede 4,0 x 3,2 km por 120 m apenas de altura. O maior jornal  de Porto Alegre informou recentemente que ele mede 1.274 m de altura, mas é um equívoco; esta é sua altitude, ou seja sua localização acima do nível do mar.  






                           O Kilauea de dia, ao anoitecer e à noite. 
 

 O Kilauea não foi  o único motivo que me levou ao Havaí.  Houve outros e um deles é que, ora bolas, ele está no Havaí, com suas lindas praias, suas ondas enormes, sua música, seus luaus e sua história. A distância é muito grande, é verdade. Miami, a capital dos Estados Unidos mais próxima do Brasil, fica a mais de nove horas de voo de Porto Alegre, onde eu moro. Mas, é preciso ir ao outro lado dos Estados Unidos, lá na costa Oeste. E lá ainda pegar um avião até Honolulu, a capital do Havaí, trecho que dá mais umas cinco horas de voo.  Aí, você terá chegado ao Havaí, mas não aos vulcões ativos do arquipélago. É que eles estão não na ilha de Oahu, onde fica a capital, e sim na Big Island, a meia hora de voo dali. Mas, valeu a pena! Ah, valeu, sim. Não só pelo Kilauea (não deu tempo de visitar o Mauna Loa e o Mauna Kea, outros dois vulcões da Big Island), mas porque aproveitamos para visitar também outros locais maravilhosos, como a praia de Papakolea, com sua incrível areia verde, devida não à presença de quartzo, como em praticamente todas as praias do mundo, mas de olivina, um mineral muito diferente.
 Portanto, se você quer ver um vulcão em atividade, aprender muito sobre essa força da natureza e ainda curtir belas paisagens, vá ao Havaí.  E traga de lá pelo menos um CD de Israel Kamakawiwo-ole.

sábado, 5 de maio de 2018

PSEUDOFÓSSEIS NO ARENITO BOTUCATU


              Uma rocha muito comum no sul do Brasil e muito usada na construção civil é aquela chamada no comércio e na indústria de pedra grés. Trata-se de um arenito, rocha formada pela deposição de areia que, com o passar do tempo, teve seus grãos compactados e unidos por um cimento natural, formando a rocha que hoje usamos.
              Esse arenito foi estudado e descrito a primeira vez na região de Botucatu, em São Paulo, e por isso é chamado pelos geólogos de Formação Botucatu ou, mais especificamente, Arenito Botucatu.
              Como dissemos, a formação dessa rocha começou com a deposição de areia.  Esse processo se deu em um ambiente tipicamente desértico - arenoso, árido, quente e com raros seres vivos.  Por isso, não é rocha em que se espere encontrar fósseis. Apesar disso, algumas décadas atrás, uma grande pedreira da região metropolitana de Porto Alegre, de donde se extraiam lajotas e blocos de arenito Botucatu, foi interditada porque alguém informou às autoridades que aquela atividade estava destruindo grande quantidade de fósseis de plantas. 



                Algumas dessas posíveis folhas eram enormes, como mostra a foto abaixo, que me foi gentilmente enviada por minha colega geóloga Andréa Sander.




                O assunto mereceu reportagens no jornal Zero Hora e se estabeleceu uma polêmica no meio geológico.  O tipo de rocha portadora dos possíveis fósseis não era favorável à existência deles, mas as feições tinham muito jeito de folhas fossilizadas. A polêmica foi maior ainda porque a interdição da pedreira cortou a fonte de renda de várias famílias que dela dependiam.
              Eu estava no grupo dos que tinham dúvida:  fósseis no Arenito Botucatu era novidade, mas aquelas feições nele encontradas eram intrigantes. As fotos acima mostram o que alguns julgavam ser fósseis, mas não mostram uma feição que vi mais de uma vez e que me deixava particularmente intrigado. Ela tinha forma de flor, mostrando possíveis pétalas ou algo semelhante, com disposição radial.  É uma figura parecida com a que se vê no lado direito da primeira foto, mas com uma aparência de flor mais definida
              Um dia, ao chegar ao trabalho, após o almoço, vi que uma planta, igual à da foto abaixo,  existente no estacionamento da empresa em que eu trabalhava, projetava, ao sol do meio-dia, uma sombra muito semelhante àquelas feições em forma de flor. Aquilo me deixou surpreso e mais intrigado. Uma planta daquelas comprimida verticalmente pela deposição da areia poderia muito bem deixar uma impressão daquele tipo se a areia viesse a se tornar um arenito.



                Contrários à crença de que seriam fósseis estavam alguns geólogos que conheciam o assunto melhor que eu e que afirmavam ser aquilo consequência da dissolução de cristais de gipsita (sulfato de cálcio hidratado).  A gipsita se forma facilmente em ambiente desértico (um exemplo são as belas rosas-do-deserto), e é bastante solúvel em água. Assim, embora as chuvas fossem raras no Deserto de Botucatu, podiam ocorrer e então dissolver os cristais de sulfato, deixando as tais figuras.
              A polêmica continuou, outras reportagens foram publicadas, mas a pedreira foi reaberta, pois prevaleceu a explicação que atribuía o fenômeno aos cristais de gipsita. Tratava-se, portanto, de pseudofósseis, como os dendritos existentes nos basaltos, que já descrevi neste blog.