quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

DEIXOU-NOS UM GRANDE DEFENSOR DAS GEMAS BRASILEIRAS

            Faleceu, dia 1º de fevereiro, aos 95 anos, no Rio de Janeiro, o joalheiro Jules Roger Sauer. Francês da região da Alsácia, ele foi o fundador, em 1941, da Lapidação Amsterdam Ltda., hoje Joalheria Amsterdam Sauer.

                          Foto: Ana Branco, Agência OGlobo

Houve, porém, uma gema brasileira que Sauer tornou particularmente conhecida e respeitada: a esmeralda. Sauer foi responsável pela valorização e popularização das gemas brasileiras no mercado internacional. Até então, o que se valorizava mesmo era o diamante, uma gema sempre importante; a esmeralda e o rubi, que o Brasil não produzia, e a safira, que nosso país produzia muito pouco (se é que produzia).  As dezenas de outras gemas que o Brasil colocava no mercado – topázio, opala, água-marinha, turmalinas, granadas, ametista, etc. – eram genericamente consideradas apenas pedras brasileiras, uma subcategoria. Sauer começou a divulgar e valorizar essas pedras preciosas menos prestigiadas e hoje o reconhecimento da nossa riqueza gemológica é um fato.

Houve, porém, uma gema brasileira que Sauer tornou particularmente conhecida e respeitada: a esmeralda. 
Contou ele, em um de seus livros (O Mundo das Esmeraldas), que em 10 de julho de 1963, quando estava em férias com a família, um garimpeiro que trabalhava para ele informou haver encontrada uma pedra verde no pequeno povoado chamado Salininha, perto da cidade de Pilão Arcado, na Bahia. Os garimpeiros não acreditavam que fossem esmeraldas e quando a descoberta foi divulgada, especialistas confirmaram que não eram.



     

  .
A cor verde da esmeralda normalmente é devida à presença de cromo, e os cristais descobertos em Salininha eram exatamente como a esmeralda, mas com cor verde produzia por vanádio.  E foi este detalhe o único argumento apresentado para considerar a nova gema simplesmente um berilo verde (a esmeralda, como a água-marinha, é uma variedade de berilo).
Inconformado, Sauer encaminhou a gema ao Gemological Institute of America (GIA) para análise e, em 9 de agosto de 1983, o GIA emitiu o laudo Nº 20.259, atestando que se tratava de Natural Emerald, a valiosa gema que era aqui procurada desde os tempos do bandeirante Fernão Dias Paes, o Caçador de Esmeraldas.
Com isso, o mercado internacional não teve como deixar de reconhecer a autenticidade da nossa pedra preciosa.

De origem judia, no início da 2ª Guerra Mundial Jules Sauer fugiu de bicicleta da Bélgica, onde morava, pedalou sozinho 1.500 km ate à Espanha, onde foi preso por não ter documentos. Fugiu da prisão e foi para Portugal onde embarcou em um navio para o Rio aonde chegou com 18 anos. (Coincidentemente, Hans Stern, fundador da famosa rede brasileira de joalherias H. Stern, chegou ao Brasil na mesma época e com 17 anos.)
Aqui, sobreviveu inicialmente dando aulas de francês, até conseguir um emprego na empresa de pedras preciosas do irmão de um aluno, em Minas Gerais. Jules aprendeu rapidamente as técnicas de lapidação e em pouco tempo, alcançou sua independência.
Embrenhou-se Brasil adentro como comprador e vendedor de pedras. Pouco menos de dois anos após deixar a Bélgica, já era dono da própria empresa (instalada numa zona de baixo meretrício de Belo Horizonte !).
Além dos vários livros que escreveu, Sauer criou o Museu Amsterdam Sauer, com seu acervo de mais de três mil peças, incluindo a maior alexandrita bruta conhecida (24,48 kg).
Considerado uma das maiores autoridades em alta joalheria do mundo, Jules Sauer era, desde 2004, membro do Círculo de Honra do Gemological Institute of America (GIA), a mais importante instituição gemológica do mundo. Era também Cidadão Honorário de Belo Horizonte, Teófilo Otoni e Governador Valadares (MG), São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1959, conquistou pela primeira vez Diamond International Awards, a consagração máxima da joalheria internacional, com o anel Constellation.
Ele deixa dois filhos, Daniel, que tive o prazer de conhecer em reuniões da Comissão Técnica de Gemas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e que é diretor da empresa fundada pelo pai, e Débora.  


Fontes consultadas (acessadas em 12.02.2017):
http://oglobo.globo.com/ela/gente/morre-jules-sauer-fundador-da-joalheria-amsterdam-sauer-20856064

sábado, 11 de fevereiro de 2017

UM DIA MUITO ESPECIAL

Ontem, dia 10 de fevereiro de 2017, este blog ultrapassou 100.000 visualizações. 
Obrigado a todos - especialmente aos nossos 106 seguidores - pelo interesse. 

domingo, 22 de janeiro de 2017

CAMINHOS QUE SE CRUZAM

            Em 1996, quando decidi vender 90% da minha coleção de minerai, recebi várias propostas, e acabei vendendo-a para a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), de Canoas (RS). Sua proposta era a única que atendia os dois requisitos que estabeleci (além do preço): não desmembrar a coleção e mantê-la acessível ao público.  A coleção não ficou tão acessível quanto eu desejava, mas, em compensação, foi belamente exposta, em expositores originais e bonitos, e com uma cerimônia de inauguração muito gratificante para mim.
Nas negociações, representou a Ulbra o geólogo Paulo César Pereira das Neves (foto acima), que eu até então não conhecia e que se tornou, a partir dali, meu amigo. Paulo Neves era professor da Ulbra, dedicando-se à Palinologia (estudo dos pólens), área em que fez seu mestrado e seu doutorado. Os minerais não eram objeto de seu trabalho profissional, mas, surpreso com a diversidade de espécies da coleção que a sua universidade adquirira (muitas bem raras), passou a se interessar por eles. Publicou dois livros sobre o assunto (ambos já reeditados, um com quatro edições) e escrevemos juntos um artigo, publicado na revista Southern  Brazilian Journal oF Chemistry,
sobre os minerais raros da Coleção Pércio de Moraes Branco. Hoje, a Mineralogia é sua principal atividade na Ulbra.
Antes de me tornar amigo de Paulo Neves, conheci, por correspondência, o estudante de Geologia Daniel Atêncio, de São Paulo. Isso foi no início da década de 80 do século passado. Lembro muito bem de suas cartas, escritas a mão, numa época em que os computadores ainda não faziam parte da nossa rotina pessoal nem profissional. Anos depois, vim a conhecê-lo pessoalmente e, é claro, nos tornamos amigos também.
Ao contrário de Paulo Neves, o Daniel desde estudante (na USP) se dedicou aos minerais, inicialmente como colecionador e depois, como professor de Mineralogia da universidade pela qual se graduou em 1982. Ele dedicou-se tanto à Mineralogia que se tornou um importante pesquisador nesta área. Ninguém, no Brasil, descobriu mais espécies minerais novas do que ele: nada menos de 32 minerais (por enquanto...). Tem inúmeros trabalhos de Mineralogia publicados, entre eles um livro (Type Mineralogy of Brazil). E é o representante no Brasil da Commission on New Minerals Names / Commission on New Minerals, Nomenclature and Classification, da Intenational Mineralogical Association.
O mundo dá voltas, e esses dois amigos, Paulo e Daniel, acabaram se conhecendo e começaram a trabalhar juntos. E como trabalharam!  Eles começaram e vêm desenvolvendo um projeto muito ambicioso, ligado ao pós-doutorado de Paulo: cadastrar todos os minerais encontrados no Brasil. Não apenas os de interesse econômico, não apenas as mais de cem pedras preciosas do nosso país ou os minerais metálicos, mas todos eles! Com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), eles vêm organizando a Enciclopédia dos Minerais do Brasil, da qual acaba de sair o quarto volume (Carbonatos, Nitratos, Sulfatos, Cromatos, Molibdatos, Volframatos e Combinações Orgânicas). Serão sete volumes, publicados um por ano, de modo que a obra estará concluída apenas em 2020.

O Paulo e o Daniel descrevem, para cada mineral, suas características físicas e químicas, origem do nome, status, localidade-tipo, repositório(s) da amostra-tipo e os locais onde ocorrem no Brasil, estes reunidos por estado, citando sempre a bibliografia em que a ocorrência é mencionada. Pode-se, por aí, avaliar o que de trabalho vem exigindo esse projeto, digno de nossa admiração.

Os volumes já publicados estão à venda, ao preço de R$ 50,00 cada um, e podem ser solicitados por e-mail a Paulo Neves (nevespc@yahoo.com.br ). O primeiro traz os elementos nativos e os halogenetos; o segundo, sulfetos e sulfossais e o terceiro, óxidos e hidróxidos. O próximo será sobre fosfatos, arsenatos e vanadatos. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

JOIA É UM BEM SUPÉRFLUO?

     Muita gente provavelmente responderia à pergunta acima de modo afirmativo. Afinal, ninguém morre por não ter numa joia ou por perder uma joia que tinha. Mas, analisando o caso mais profundamente, vê-seque a resposta não é tão simples assim.
A criação de uma joia envolve, em termos bem resumidos, o trabalho do designer que a desenha no papel, do profissional que executa aquele projeto e por fim do joalheiro que vai vender a joia pronta.
Se ela inclui uma pedra preciosa, o que é normal, deve-se considerar o trabalho do garimpeiro que extraiu a pedra e as despesas que ele teve com equipamento e material de consumo. Se a gema foi produzida por uma empresa, há, além dessas despesas, também gastos com mão de obra, salários, impostos, taxas, etc.
Mas, a pedra preciosa não vai diretamente da mina ou garimpo para as mãos de quem cria ou produz a joia. Ela precisa ser lapidada. E, com o trabalho do lapidador, vêm também custos de material de consumo, equipamento, impostos, talvez aluguel, etc.
Além da lapidação, muitas gemas passam por processos de tratamento para melhorar ou modificar alguma propriedade física (geralmente a cor). E isso requer mais tecnologia, mão de obra, equipamento, material de consumo, impostos, etc.
O joalheiro que vai vender a joia pronta terá também suas despesas com impostos, salários dos vendedores, manutenção do espaço físico da loja, propaganda, etc. Se for um profissional consciente e realmente preocupado com a qualidade do produto que vende, talvez contrate um gemólogo para assegurar-se de que a pedra que está vendendo é realmente o que o fornecedor de gemas lhe disse ser.
Este gemólogo, por sua vez, não nasceu sabendo Gemologia; ele fez pelo menos um curso em alguma escola ou com algum gemólogo experiente.
Se eu fosse economista, provavelmente veria várias outras ramificações dessa cadeia produtiva, mas acho que isso é suficiente para mostrar o quanto de conhecimento, trabalho, material e outras despesas há por trás da beleza de uma joia. Ou seja, o quanto de renda e absorção de mão de obra ela proporciona.

Pense nisso quando olhar uma joia numa vitrine. Pense nisso quando o preço da joia lhe parecer muito alto. E pense nisso também quando ganhar uma joia de presente.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A GEOLOGIA E A ARQUEOLOGIA


Por diversas vezes, tanto em conversas pessoais quanto na mídia, vi pessoas confundirem Geologia com Arqueologia, atribuindo atividades de uma à outra. São áreas da ciência bem distintas, mas o fato de ambas lidarem com materiais antigos pode levar quem não as conhece a essa confusão.
Segundo a Wikipédia, a Arqueologia estuda as culturas e os modos de vida do passado a partir da análise de vestígios materiais. É uma ciência social que estuda as sociedades já extintas, desde o surgimento da espécie humana (transição do Australopitecos para o Homo habilis) até o presente. Alguns arqueólogos definem a Arqueologia como a reconstrução da vida dos povos antigos.
A Geologia estuda a  Terra, sua composição, estrutura, propriedades físicas, história e os processos que lhe dão forma. Ela não estuda sociedades, povos ou culturas.
Vê-se então que a Arqueologia trabalha com o ser humano, com as civilizações. A Geologia dedica-se às rochas, minerais e fósseis. Assim, a primeira trabalha com maternais que têm séculos ou milhares de anos de idade; a Geologia, com materiais que têm milhões ou bilhões de anos de idade (a Terra formou-se há 4,54 bilhões de anos).
A datação radiométrica desses materiais utiliza, por isso, métodos semelhantes, mas com elementos químicos diferentes. Enquanto a Arqueologia trabalha com um isótopo instável do carbono (o carbono 14), próprio para materiais de pouca idade (alguns milhares de anos), a Geologia usa isótopos instáveis de rubídio, potássio, samário ou, para as rochas mais antigas, de urânio, que permitem datar materiais com  milhões ou bilhões de anos.
Ambas se relacionam com outras ciências, como é natural. A Arqueologia se relaciona, por exemplo, com a História, Geografia e a Física. A Geologia tem ligações com a Química, Física e Biologia, mas principalmente com a Geografia e a Astronomia.
Um exemplo de interação entre Geologia e Arqueologia ocorreu no Rio Grande do Sul. O geólogo Carlos Henrique Nowatzki, da Unisinos, pesquisou e descobriu de onde foram extraídos os blocos de arenito usados na construção, pelos jesuítas, da igreja de São Miguel, no município de Santo Ângelo (RS), importante atração turística do estado. Eles têm hoje sua procedência bem estabelecida graças à Geologia.
A Geologia procura descobrir depósitos minerais de valor econômico (jazidas), para extração de minerais metálicos, material para a construção civil, pedras preciosas, metais nobres, etc. Procura também petróleo e recursos hídricos (Hidrogeologia). Já a Arqueologia busca materiais de valor histórico, museológico e cultural, não de valor comercial ou industrial. Uma exceção: houve uma época em que as múmias eram tão abundantes no Egito que foram vendidas toneladas delas aos Estados Unidos, para uso como combustível em locomotivas.
O Brasil conta hoje com quatorze cursos de graduação em Arqueologia, todos relativamente novos. A Geologia tem cursos de graduação mais numerosos, em torno de trinta.
Se uma obra civil, como abertura de túnel, barragem, estrada ou mesmo de uma mina revela a existência de um sítio arqueológico, ela deve ser paralisada até que o local seja estudado por arqueólogos. Só em casos excepcionais esses achados arqueológicos são suficientemente importantes para justificar a anulação de obras de grande porte, mas estudar, fotografar e amostrar o sitio arqueológico são coisas que podem e devem ser feitas antes que ele seja destruído pela obra civil em andamento. Um exemplo dramático disso é a cidade de Roma, cujo metrô tem uma extensão total relativamente pequena porque em qualquer local que se faça uma escavação não é difícil encontrar um sítio arqueológico.
A Arqueologia passou a ser vista com interesse e tornou-se uma ciência popular graças aos filmes de Indiana Jones, em que o herói, representado por Harrison Ford, é um professor de arqueologia. A Geologia tem forte apelo popular em filmes, livros e outras mídias que tratam de terremotos, vulcões, pedras preciosas, metais nobres e dinossauros, sendo estes os personagens principais do filme Parque Jurássico, por exemplo.
Em alguns aspectos, Geologia e Arqueologia se assemelham bastante. Ambas envolvem trabalhos de prospecção, escavação e análises do material recolhido. Não basta ao arqueólogo recolher um pedaço de cerâmica para conhecer a história local; é preciso ver de que tipo de objeto ele fazia parte e em que tipo de ambiente provavelmente era usado, entre outras coisas, para só depois mandar a amostra para datação. De modo semelhante, não basta ao geólogo coletar uma amostra de rocha e mandar fazer uma análise química, mineralógica ou geocronológica, para saber sua composição e idade. É preciso examinar todo o afloramento de onde ela foi extraída, ver sua estrutura, relação com outras rochas do local (se existirem), medir a direção e mergulho das camadas, veios, foliações ou fraturas, etc. 

Simplificando, então, podemos dizer que as duas ciências têm semelhanças, mas a Geologia trabalha com materiais muito mais antigos que a Arqueologia e nos quais não esteve envolvida ação humana.

domingo, 25 de setembro de 2016

MISTÉRIOS DO NOSSO UNIVERSO

             A Geologia oferece a nós, geólogos, fascinantes mistérios e desafios, e o universo, como era de se esperar, mostra-nos mistérios muito mais numerosos e mais misteriosos. Estes, porém, felizmente não cabe a nós decifrar; já temos suficientes interrogações à nossa volta. Como, porém, nossa amada Terra está imersa nesse universo, é bom saber um pouco sobre as dúvidas que fazem parte do trabalho de físicos, astrofísicos e astrônomos.
            Para mim, o primeiro e maior desses mistérios é a origem do universo. A teoria mais aceita é a do Big Bang, criada no final da década de 1920 pelo belga Georges Lemaître, um padre católico que era astrônomo, cosmólogo e físico. Ele a chamou de Hipótese do Átomo Primordial (o nome Big Bang foi dado por outro astrônomo, o britânico Fred Hoyle, em 1949).
            Segundo essa teoria, tudo o que chamamos de universo estava originalmente concentrado em um pequeníssimo ponto. Vocês conseguem imaginar isso? Eu não, mesmo que esse tudo fosse apenas energia e não matéria. Mas, a descoberta da chamada radiação cósmica de fundo, em 1964, veio dar grande suporte a essa teoria.
Houve então, entre 13,3 e 13,9 bilhões de anos atrás, uma súbita expansão (não explosão) daquele ponto inicial (o átomo primordial de Lemaître), dando início à formação do universo que conhecemos hoje. O que provocou essa súbita expansão? Não se sabe. Deus, talvez.
É preciso, porém, esclarecer que a teoria do Big Bang explica o início de tudo, mas não diz como se chegou àquela condição inicial. O que havia antes do Big Bang?  Dizem os cientistas que foi só com o inicio do universo que surgiu o tempo. Antes, não havia tempo, portanto não existiu um período antes do Big Bang.  Conseguem imaginar isso?  Eu também não.
No comecinho da grande expansão, havia apenas subpartículas atômicas (neutrinos, mésons, bósons e outras), viajando à velocidade da luz. Não havia ainda matéria. Foi o físico britânico Peter Higgs, em 1964, quem previu que deveria haver um bóson o qual, a partir de determinado instante, deu massa a outras subpartículas, como os quarks, ao entrar em contato com elas. A existência desse bóson foi comprovada, mas só muito recentemente, em 2012.
Aprendi, décadas atrás, que a velocidade da expansão do universo era decrescente, o que parecia óbvio: a grande expansão deveria estar perdendo força cada vez mais, e assim seguiria até tudo parar de se mover. Aí, pela ação gravitacional, os corpos celestes passariam a se atrair e se voltaria à condição inicial, quando ocorreu o Big Bang. Acontece, porém, que hoje se sabe que isso não é verdade. O que está havendo é uma velocidade de expansão cada vez maior!  Vocês conseguem entender nisso? Eu não. Mas não sou só eu: os cientistas também não sabem ainda por que isso acontece.
A explicação talvez esteja na chamada energia escura. Toda a matéria visível no universo conhecido (a soma de satélites, planetas, estrelas, seres vivos, etc.) mais a energia que se pode perceber representam apenas 4% da massa do universo! Ou seja, os outros 96%, a chamada matéria escura ou energia escura, a gente não vê e não percebe! Isso é ou não é, uma coisa assustadora?!  E não é preocupante que se busque em um mistério a explicação para outro?
A expansão cada vez mais rápida do universo visível era, para mim, uma coisa angustiante. Não tenho nenhuma culpa ou responsabilidade sobre isso, mas um universo em expansão cada vez mais acelerada não cabia na minha limitada compreensão e me deixava muito inquieto. Felizmente, fiquei sabendo, dias atrás, de uma teoria que me deixou mais tranquilo. Roger Penrose, importante físico da Universidade de Oxford, acha que o universo vai continuar se expandindo até que suas partículas percam massa. Surgirá então uma espécie de vácuo, em que o tempo irá parar e o universo morrerá, para se transformar em outro universo, por meio de novo Big Bang. Isso seria uma resposta à minha angustiante dúvida. Só que poucos cientistas acreditam nisso...
Falei aqui em universo que conhecemos e em universo visível. Pois saibam que os cientistas admitem também que existam outros universos além deste! A expansão a partir do Big Bang não teria sido uniforme; algumas porções do espaço teriam se expandido também, mas em outros momentos, diz Marcelo Gleiser, outro físico renomado. Haveria então outros universos, além do nosso, separados por espaços gigantescos, acrescenta ele.

            Isso tudo é mistério demais para este pobre geólogo. E olhem que eu nem falei nos possíveis habitantes desses outros mundos...

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A ESMERALDA E NÓS

As fraturas da esmeralda surgem durante sua formação. Por mais numerosas que sejam, não impedem que ela seja lapidada e, assim, brilhe com todo o seu esplendor.

       
Foto encontrada na internet,
sem autoria.

     A vida também nos causa fraturas, ferimentos. Mas, se soubermos conviver com isso, eles cicatrizarão e não impedirão que também sejamos lapidados e assim mostremos todo nosso brilho.

terça-feira, 12 de julho de 2016

MINERAIS RADIOATIVOS DENTRO DE CASA


            Em setembro de 1987, o Brasil foi palco do maior acidente com substâncias radioativas registrado no país e o maior do mundo fora de usinas nucleares. Em Goiânia (GO), uma clínica de radioterapia abandonou sem qualquer cuidado equipamento contendo césio 137, substância altamente radioativa. O equipamento foi recolhido por catadores de lixo reciclável para aproveitar o chumbo que continha. Com isso, o césio foi liberado e se espalhou pelo ambiente, levado pelos próprios catadores.
O homem que retirou o material o levou para a casa e o distribuiu a vizinhos e amigos porque achava muito interessante o modo como ele brilhava no escuro, com uma cor azul. Sua filha não só espalhou o césio 137 pelo corpo como chegou a ingeri-lo. Resultado: um mês depois quatro pessoas morreram em virtude da radiação. Outras mais viriam a morrer nos meses seguintes.
Em janeiro do ano seguinte, o jornalista Sérgio Danilo, talvez alertado pelo acidente de Goiânia, quis saber se uma amostra de material radioativo que tinha em casa havia dez anos podia ser perigosa. Ele tinha 44 anos de idade e 22 de jornalismo. Trabalhava na Gazeta Mercantil e era bem conhecido no meio geológico por ser o editor do setor mineral daquele jornal.
Submetido a exames, descobriu-se que Sérgio Danilo estava irremediavelmente contaminado pela radiação em quarenta diferentes partes do corpo, restando-lhe apenas dois anos de vida. Fora vítima do que ele próprio chamou de desinformação mineral.
Quando eu era estudante de Geologia, aprendi que no manuseio de minerais radioativos deve-se ter cuidado para não permitir que partículas dele fiquem retidas sob as unhas. O que não me ensinaram e fui aprender por iniciativa própria muitos anos depois é que o risco de contaminação depende da intensidade da radiação e do tempo em que o corpo fica a ela exposto. Também tive que ir atrás de informações sobre qual é a intensidade máxima de radiação suportada sem danos pelo corpo humano.
Por isso tudo, em outubro de 1988 decidi fazer uma varredura na minha coleção de minerais para ver se algum deles emitia radioatividade perigosa. Munido de um cintilômetro, aparelho que mede a radiação, aproximei-o do meu acervo mineral e descobri que dois minerais, uma columbita e uma autunita, faziam o aparelho disparar acelerados bips-bips. A columbita não me assustou muito, mas a autunita (fosfato hidratado de urânio e cálcio), sim. O aparelho mostrou que ela emitia radiação altíssima, em torno de 10.000 cps (choques por segundo).
Quando minha mulher soube do que eu descobrira, não quis saber de conversa: pediu que eu desse um fim à autunita imediatamente.
Eu sabia do risco que ele representava, mas não queria me desfazer de uma importante peça da coleção. Coloquei-a então numa lata de conserva e a levei para minha sala na empresa em que eu trabalhava.  A lata, eu sabia bem, não me protegia, mas era um recurso temporário até decidir o que fazer com a autunita.
Não demorei a me dar conta de que eu estava agora mais vulnerável que antes, pois passei a ficar várias horas por dia a menos de um metro de distância da fonte radioativa. Não era, pois uma solução inteligente.
O que fazer então? Eu não queria perder minha autunita nem mantê-la escondida, mas tampouco queria correr risco de ser contaminado por ela. Fiz então um teste: medi a radiação encostando o cintilômetro nela (o que dava os já citados 10.000 cps), e a seguir fiz várias outras medidas afastando o cintilômetro 10 cm cada vez. Vi então que a 10 cm da autunita a radiação já caía para metade. E a distâncias maiores as quedas na intensidade eram também aceleradas. 
Concluí, assim, que eu podia manter o mineral na minha coleção, mas sem ficar perto dele por muito tempo.

Se você tem minerais radioativos, é bom saber qual a intensidade da radiação que eles estão emitindo. E deixá-los pelo menos uns metros longe de você.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

OS MINERAIS E A ÁGUA


Há  minerais que morrem de sede,  outros que morrem afogados e outros ainda que morrem afogados, renascem e voltam a morrer.  Vejam por quê.
      Muitas espécies minerais contêm água na composição química. Entre eles, destacam-se os minerais do grande grupo das zeólitas. São dezenas de minerais hidratados, que podem perder essa água, mas recuperá-la de novo sem maiores alterações. Isso, aliás, tem importantes implicações, tornando-os muito úteis na agricultura e em variados setores da indústria.
      Há, porém uma zeólita que tem comportamento diferenciado. Trata-se da laumontita. Esta quando se desidrata simplesmente se esboroa toda. Seus cristais prismáticos viram uma farinha e não há como reverter esse processo. Por isso, é difícil encontrar laumontita bem cristalizada. Ela pode ser assim vista em pedreiras e minas, mas só onde há material recém-desmontado.
      Menos frágil, mas muito mais nobre que a laumontita é a opala, uma pedra preciosa. Ela também contém água e, se for mantida em ambientes de temperatura elevadas, pode perdê-la e se quebrar.
Mas, se há minerais que morrem por falta d’água, há também os que  morrem  por excesso dela.  Halita, carnallita e silvita, por exemplo. São minerais higroscópicos e, se deixados em atmosfera úmida, vão se dissolvendo, até virar um líquido. Halita é o nome mineralógico do sal que usamos nos alimentos, e quem cozinha sabe que ele se dissolve em ambiente húmido.
Por fim, há minerais que são sazonais, como certas frutas: formam-se no verão, desaparecem no inverno ou na estação chuvosa, voltando a se formar no verão seguinte.
A sinjarita ocorre no leito seco de um rio intermitente de Sinjar, no Iraque (daí o nome). Ela forma-se em sedimentos recentes por evaporação lenta de água subterrânea saturada em Ca2+ e Cl-. Mas, como é altamente higroscópica, pode desaparecer na estação chuvosa, reaparecendo na estação seca seguinte.
A hidrocloroborita foi descoberta na China e descrita em 1965. Em 1966, foi divulgada uma segunda ocorrência na localidade de Salar Carcote, em Antofagasta (Chile), onde os cristais foram encontrados em uma camada contínua e irregular com cerca de 15 cm de espessura. Os autores que a estudaram, ao procurarem novamente o mineral em outra ocasião, mas na mesma localidade, não o acharam. Verificaram então que o nível freático (nível da água subterrânea) estava alguns decímetros apenas abaixo da camada que continha o mineral, em cota superior à da época em que o mesmo havia sido descrito inicialmente. Com isso, concluíram que a hidrocloroborita é um mineral sazonal, que se dissolve nas estações úmidas, voltando a cristalizar em estações secas.
A antarticita, descoberta em Terra de Vitória, na Antártica, constitui uma forma mais hidratada de sinjarita, que funde a 30 oC e, por isso, é destruída nas estações secas, se a temperatura atingir aquele valor. Formas menos hidratadas que a antarticita e mais hidratadas que a sinjarita foram obtidas sinteticamente, mas ainda não foram encontradas na natureza.

Outro interessante mineral sazonal é a acetamida, uma amida cristalina derivada do ácido acético Ela foi descoberta em rejeitos de uma mina de carvão da antiga União Soviética, onde se forma durante estações secas em áreas enriquecidas em amônia e isoladas do contato com oxigênio e luz solar. Se exposta ao sol, o mineral volatiliza-se em apenas algumas horas.

segunda-feira, 21 de março de 2016

CLASSIFICAÇÃO DAS SUBSTÂNCIAS GEMOLÓGICAS

          As pedras preciosas compreendem um grande e diversificado grupo de minerais, com mais de cem tipos diferentes apenas no Brasil. Elas fazem parte de um grupo maior, o das gemas, onde são as mais importantes e a grande maioria (quase 90%).  O grupo das gemas, por sua vez, pertence a um grupo ainda maior, que inclui também os metais preciosos e as pedras ornamentais, e que são as substâncias gemológicas.  
           O amplo universo dessas substâncias gemológicas, resumido na tabela vista no final, é, portanto, muito variado, o que contribui para que denominações inadequadas sejam frequentemente usadas.
Sua diversidade está não apenas na origem e composição dessas substâncias, mas também no seu uso.
         Antes de mostrar esses muitos tipos, convém estabelecer o que é uma substância gemológica: é uma substância geralmente natural e inorgânica, utilizada para adorno pessoal ou com fins decorativos.  Poder-se-ia usar como sinônimo material gemológico, mas é preferível não fazê-lo porque alguns autores incluem sob essa denominação apenas os minerais usados para adorno pessoal.
            Quanto à origem, as substâncias gemológicas podem ser divididas em três grupos, já citados:

a)      Gemas (as mais numerosas e mais importantes).
b)      Metais nobres.
c)      Pedras ornamentais.

Gemas
Gema é uma substância gemológica geralmente natural e inorgânica que, por sua raridade, beleza e durabilidade, é usada como adorno pessoal. Minerais de grande beleza, mas que não suportam lapidação ou montagem para uso como adorno pessoal são minerais para coleção, minerais de valor museológico, mas não gemas.
Normalmente a gema é submetida a um processo chamado lapidação, a fim de obter a forma que mais ressalte sua beleza, bem como o máximo de brilho. Assim, uma gema pode ser bruta (no estado natural) ou lapidada. Alguns autores, porém, só consideram gema aquela que sofreu lapidação.
Como foi dito atrás, as gemas são as substâncias gemológicas mais importantes e mais numerosas. Dentre as naturais, 87% aproximadamente são minerais; cerca de 10% são gemas orgânicas e 3% são rochas.
Além das gemas naturais, isto é, aquelas encontradas na natureza e que são divididas em minerais e orgânicas, há mais sete tipos, as gemas artificiais, sintéticas, reconstituídas, tratadas, realçadas, revestidas e compostas.
A pérola cultivada é uma gema orgânica, mas constitui categoria à parte, pois não se enquadra nem na categoria natural nem sintética. Ela é produzida por um processo natural, mas que foi induzido por ação humana.
Gema sintética é aquela produzida em laboratório, mas que existe também na natureza.
Gema artificial é aquela produzida em laboratório, mas sem similar conhecido na natureza.
Gema reconstituída é aquela também produzida em laboratório, por meio da aglomeração ou fusão parcial de fragmentos muito pequenos de uma gema natural.
Gema tratada é o nome dado à gema em que a cor ou outra propriedade foi modificada para lhe dar mais valor. Com relação à cor, o tratamento pode ser para melhorar a cor natural, obter outra cor ou colorir gemas incolores.
Gema realçada é a que teve uma de suas propriedades (geralmente a cor) melhorada artificialmente.
Gema revestida é a denominação dada à gema lapidada sobre cuja superfície se fez depositar uma fina camada, colorida ou não, da mesma substância ou de outro material.  O processo é usado, por exemplo, para esmeraldas.
Chama-se de gema composta aquela formada por duas ou mais partes unidas por cimento ou qualquer outro método artificial. Os componentes podem ser substâncias inorgânicas naturais, sintéticas, ou produtos químicos artificiais. Assim pode-se ter gema sobre gema, gema sobre vidro, gema sobre gema com vidro intercalado, etc.

Metais nobres
Metais nobres é denominação quem se dá ao ouro, à prata e alguns dos metais do grupo da platina (platina, ródio e paládio). São usados como adorno pessoal, sozinhos ou com gemas.
O ouro usado em joias não é ouro puro, mas sim uma liga com 75% ou menos de ouro e 25% ou mais de outros metais (prata, cobre, ferro entre outros), dependendo da cor desejada. 
O ródio normalmente é usado apenas para revestir outro metal.

Pedras ornamentais
As pedras ornamentais são rochas - menos frequentemente minerais - usadas para decoração de interiores ou acabamentos arquitetônicos. Dividem-se em minerais decorativos e rochas ornamentais.
Os minerais decorativos são aqueles utilizados para decoração de interiores (como vasos, cinzeiros, mesas, pesos de papel, estatuetas e incontáveis outras aplicações). Alguns deles são usados também como gema, ou seja, para adorno pessoal. Ex.: sodalita, quartzo rosa, prata, malaquita, lápis-lazúli e ágata.
As rochas ornamentais são representadas principalmente pelos mármores e granitos. O que se chama de granito no comércio e na indústria desses materiais pode ser realmente granito, mas muitas vezes são outras rochas silicáticas, como granodiorito, riolito, tonalito, sienito, etc. Do mesmo modo, o termo mármore pode designar, nesses setores, também calcário, mármore dolomítico e dolomito, todas elas rochas carbonáticas.
Rochas ornamentais são usadas em acabamentos arquitetônicos, cortadas em lajotas, frisos e blocos, regulares ou não, para pisos, colunas, paredes, escadarias, monumentos, etc. como revestimento ou não.
Muitos geólogos talvez não aprovem a denominação pedra ornamental, mas, como ela inclui tanto minerais quanto rochas, é válido chamar assim.  Além disso, em Gemologia o uso da palavra pedra é muito comum.
Como se pode ver, nessa ampla classificação das substâncias gemológicas não aparece nenhuma vez a denominação pedra semipreciosa. A distinção pedra preciosa / semipreciosa é confusa, arbitrária e sem fundamento cientifico ou econômico. Como já está consagrada a denominação pedra preciosa, admite-se seu emprego para designar as gemas em geral, com exceção da pérola cultivada e das gemas orgânicas. Mas, pedra semipreciosa é denominação a abandonar, o que, aliás, já aconteceu na maioria dos países.

CLASSIFICAÇÃO DAS SUBSTÂNCIAS GEMOLÓGICAS


SUBSTÂNCIA

USO
EXEMPLOS TÍPICOS
Gemas
Gemas Naturais
Minerais
Adorno


pessoal
Esmeralda, diamante, tumalinas, granadas, safira, ametista, rubi, etc.
Orgânicas
Coral, âmbar, pérola,
marfim, etc.

Pérolas Cultivadas
Pérolas Biwa, Mabe,
South Sea,  e Taiti,
Gemas Sintéticas
Esmeralda sintética, rubi sintético, diamante sintético, etc.
Gemas Artificiais
Zircônia cúbica, YAG, GGG, fabulita..
Gemas Reconstituídas
Turquesa reconstituída, lápis-lazúli reconstituído, âmbar reconstituído.
Gemas Tratadas
Topázio irradiado, citrino obtido por tratamento de ametista, etc.
Gemas Realçadas
Esmeralda tratada com óleos

Gemas Revestidas

Esmeralda revestida
Gemas Compostas
Gema + gema, gema + vidro, etc.

Metais nobres

Ouro
Ouro 18 K (Ouro 750 ), Ouro 14 K
Prata
Prata 950 (Prata 95), 
Prata 900 (Prata 90)
Grupo da platina
Platina, paládio e ródio.
Pedras ornamentais
Minerais
Decorativos
Decoração
de interiores
Ágata, sodalita, quartzo rosa, prata, malaquita, alabastro, etc.
Rochas ornamentais
Acabamentos arquitetônicos

Mármores, granitos, ardósias, quartzitos, etc.