sexta-feira, 19 de maio de 2017

DESTAQUES DA EXPOSOL 2017


            O município de Soledade (RS) realiza, todos os anos, no início de maio, a Exposol – Feira Internacional de Joias, Gemas e Minerais.  Segundo seus organizadores, é a maior feira do gênero na América Latina.
Teófilo Otoni (MG) realiza feira semelhante, a FIPP – Feira Internacional de Pedras Preciosas, no mês de agosto (a próxima será de 16 a 20 daquele mês) e, segundo os mineiros é a maior feira de joias, gemas e minerais do Cone Sul, destacando que o evento se realiza na fonte, ou seja, na própria região produtora do material exposto.
Pouco importa saber qual das duas feiras é a maior, pois ambas são muito importantes e atraem expositores de vários países. E é normal que sejam os dois maiores eventos desse setor já que Minas Gerais e o Rio Grande do Sul são os principais produtores de gemas do Brasil, destacando-se Minas Gerais pela grande variedade das pedras preciosas e o Rio Grande do Sul, pelo grande volume comercializado, embora este estado produza basicamente apenas ágata, ametista e citrino.


Participaram da Exposol 2017  65 expositores, 31 de Soledade, dezesseis de outros municípios gaúchos, dezesseis de Minas Gerais e dois do Peru.
Os expositores trouxeram, como sempre, lindas peças de minerais brutos, gemas, joias, bijuterias e objetos decorativos feitos com minerais e rochas. Meu interesse maior sempre é pelos minerais no estado bruto, mas é impossível deixar de admirar os outros produtos, comercialmente mais importantes por terem maior valor agregado.
Apesar da crise financeira da qual só agora o país está saindo, os organizadores da Exposol mostraram-se muito satisfeitos com os resultados do evento, tanto em número de visitantes quanto no volume de negócios realizados.
Vejam a seguir algumas das peças em exposição que mais me chamaram a atenção.



 O quadro acima foi feito com chapas polidas de ágata e tem iluminação na parte posterior É produzido pela RDF Pedras, mede aproximadamente 25 x 50 cm. Estava à venda por 400,00.
Sou bastante exigente com relação a animais feitos com pedras, mas esta peça linda mostra uma drusa de cristal de rocha em cristais pequenos e, sobre ela, beija-flores feitos com diversos minerais.  É um produto da Style Art, mede 35 x 35 cm e estava à venda por R$ 1.800,00. 



 Falando ainda sobre objetos decorativos, gostei muito da luminária abaixo, da Brazil Plus (Soledade). Ela é foi feita com chapas de 10 cm x 10 cm de aragonita bandada, de cores marrom-clara e bege. A peça mede 30 cm x 30 cm x 120 cm e custa R$ 3.720,00


  
A mesma Brazil Plus exibiu também esta mesa, feita com rocha (provavelmente calcário), rica em fósseis de cafalópodes. A mesa tem forma poliédrica, com 14 lados, mede cerca de um metro e foi importada do Marrocos. Preço: R$ 5.950,00.



A Lodi Pedras Preciosas, da família Lodi, uma das maiores empresa do ramo em Soledade, dividiu-se em duas que vieram se somar a outras três, criadas por descendentes dos primeiros empresários da família. Assim, existem hoje e estavam presentes na Exposol, a HL Minerais, a Dijhal Gemas, a MR Lodi Stone, a MV Lodi Pedras e a V. Lodi Cristais.
A HL Minerais exibiu um fantástico lote de ágatas de cores naturais, com cerca de 1,20 m de comprimento, procedentes de um garimpo daquela região.  O lote compreende cinco peças. O preço de cada uma é US$ 10.000 e inclui o suporte metálico giratório em que a peça é exibida, mas, a empresa só estava aceitando propostas de compra do lote todo.



 A Collection of Stones, de Corinto (MG), pôs à venda o curioso quartzo véu de noiva (foto abaixo). São cristais de quartzo incolor de 10-12 cm, revestidos por microcristais brancos do mesmo mineral. 



 A mesma empresa estava vendendo as drusas de ametista abaixo, medindo 30 a 40 cm. A cor da gema não é muito boa, mas as peças se destacam pelo tamanho dos cristais, por volta de 8 cm. 



A Bagatini Pedras, de Soledade, expôs uma boa coleção de minerais e rochas, mas ela não estava à venda. É uma iniciativa merecedora de elogios exibir materiais apenas pelo seu valor didático, sem fins lucrativos. Todas as peças da coleção estavam devidamente identificadas, mas mostrei a eles que nove delas continham erros na grafia do nome, tipo raulita, em vez de howlita; rodocrozita (em vez de rodocrosita), crisopásio (em vez de crisoprásio), etc.
A foto abaixo mostra um grande bloco de sodalita e a coleção de minerais e rochas ao fundo.
           


           Geodos de ametista, é claro estão sempre presentes, grandes e belos.



           Do mesmo  modo, sempre presentes estão os geodos de citrino. Os três da foto abaixo, da HL Minerais,  são, na verdade, uma peça única.




        Uma peça bem original é este globo terrestre, em que os países são representados por diferentes minerais.


      Uma informação importante mas que nem sempre os  comerciantes de gemas e minerais para coleção sabem dar é o local de onde eles foram extraídos.  Quando perguntei isso na Exposol, sempre me responderam, mas em mais de uma oportunidade senti insegurança do expositor ao dar a informação.  Isso acontece muito também no setor de rochas ornamentais. É muito comum, aqui em Porto Alegre, por exemplo, citarem o estado do Espírito Santo como origem de muitos mármores e granitos, simplesmente porque é lá que eles os compram. Cachoeiro do Itapemirim (ES) é importante centro de beneficiamento e venda dessas rochas, mas muitas delas, embora ali industrializadas, provêm de outros municípios e estados.
            Isso, porém, não tira o brilho do belo evento que é a Exposol. Visitá-la é sempre uma grande oportunidade de se maravilhar com as lindas peças lá expostas, sem pagar nada, e tendo à disposição dezenas de estandes para fazer compras.

            Em 2018, de 3 a 6 de maio, lá estaremos de novo. 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

OUTRO ÍCONE DA JOALHERIA BRASILEIRA

     Quando terminei de escrever sobre Jules Sauer, me dei conta de que precisava falar também sobre outro ícone da joalheria brasileira, Hans Stern. Ele foi o fundador da H. Stern, uma rede de 280 joalherias espalhadas por 32 países e que emprega quase 3.000 pessoas.
A vida de Hans Stern assemelhou-se em muitos aspectos à vida de Jules Sauer.  Ambos vieram da Europa para o Brasil muito jovens (Hans com 17 anos, Sauer com 18), no início da II Guerra Mundial. Eram de origem judia, ambos começaram a vida profissional aqui em atividade não ligada diretamente às pedras preciosas (Sauer deu aulas de francês e Stern começou trabalhando como datilógrafo) e, o mais importante de tudo, os dois deram enorme impulso ao conhecimento e consumo de pedras preciosas brasileiras, numa época em que elas eram consideradas gemas de segunda categoria.
O primeiro emprego de Hans Stern foi numa empresa que lapidava e importava predras preciosas (chamada Cristab). Ele logo se encantou com a beleza daquela mercadoria e começou a viajar por todo o país, inclusive a cavalo, conhecendo garimpeiros e comprando gemas diversas.
Em 1945, fundou no Rio de Janeiro, uma pequena loja: era o início da H. Stern, que desde o início teve este nome.


Brincos Harmony, criados para a H. Sten pela estilista
Diane von Furstenberg, com rubi, rubelita, berilo, citrino, 
quartzo rosa e diamante.


Hans não se conformava com o fato de classificarem nossas gemas como pedras semipreciosas, e ficou famosa uma frase sua: Não existe pedra semipreciosa, como não existe mulher semigrávida. De fato, embora a denominação pedra preciosa seja correta, o mesmo não se dá com pedra semipreciosa, por várias razões. A principal é que nunca houve consenso sobre quais pedras seriam consideradas preciosas. Normalmente, eram assim classificados o rubi, a safira, a esmeralda e o diamante. Alguns autores, porém, incluíam também a opala preciosa e o crisoberilo, por exemplo. E outros, a pérola. Além disso, a distinção era inútil e, para o Brasil, muito prejudicial.
Vários autores e gemólogos de renome têm a mesma opinião: Robert Webster, Walter Schumann, Joel Arem, Erich Merget e, é claro, nosso tão estimado Jules Sauer.
O preço não é critério válido para a separação: esmeralda, rubi, safira e diamante são usualmente gemas caras, mas a turmalina Paraíba tem preço médio maior que o do rubi e o da safira e a alexandrita e a opala-negra têm preço médio igual ao da esmeralda, por exemplo.
Coerente com esses posicionamentos, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) recomenda evitar sempre o uso da palavra semipreciosa, substituindo-a por preciosa, salvo exigência comercial ou legal (NBR 10.630).   
Assim como devemos a Jules Sauer o reconhecimento internacional da esmeralda brasileira, devemos a Hans Stern essa atitude importante na valorização das nossas gemas.


                     Anel Sunrise, em ouro, ametista e um 
                     pequeno diamante na lateral da peça. 

Considerar pedra preciosa gemas como água-marinha, turmalinas e topázio imperial não foi difícil. Mas, considerar assim gemas relativamente baratas como ametista, citrino e ágata foi resultado do empenho de gemólogos como os citados.  Hans Stern, entretanto, foi bem além.
     Eu achava – e acredito que outros gemólogos experientes também - que incluir o quartzo incolor (cristal de rocha) entre as pedras preciosas era o que hoje se chama de forçar a barra. Afinal o
quartzo é a espécie mineral mais comum do planeta, e o cristal de rocha é a mais comum de suas muitas variedades. Então, lapidar e colocar cristal de rocha em uma joia era algo difícil de conceber.  Pois a H. Stern fez não uma joia, mas toda uma coleção com cristal de rocha!  Com uma inteligente campanha de marketing, apresentaram a coleção como joias leves, adequadas à estação (era verão).  Para mim então ficou consagrado definitivamente que qualquer mineral com beleza suficiente para justificar sua lapidação podia ser chamado de pedra preciosa.  E assim deve ser: há gemas caras e baratas, como há calçados, roupas, bebidas, etc. de preços bem variados.

                      Gargantilha Nature, com turmalina verde e diamante.

            Por fim outro reconhecimento que devemos e Jules Sauer e a Hans Stern. Ambos souberam transmitir aos filhos o amor pelas empresas que criaram, e são eles que hoje dão continuidade às notáveis obras de seus pais.  Nos anos 90, Hans convidou dois de seus filhos a participar da direção da empresa, mas continuou indo lá, todas as manhãs, dirigindo ele mesmo seu Fusca e sem seguranças.
Raramente dava entrevistas e não gostava de posar para fotografias. Ele nasceu quase cego e só começou a enxergar com o olho direito aos dois anos de idade. Gostava de ler, ouvir música clássica e tocar órgão.
Hans Stern colecionava selos e, é claro, pedras preciosas, e deixou uma grande coleção de turmalinas, sua pedra preferida.
A exemplo de Jules Sauer – as coincidências parecem não ter fim... – criou um museu na sede de sua empresa, em Ipanema, no Rio, onde são exibidas mais de mil turmalinas lapidadas.
Stern nasceu em Essen, na Alemanha, e faleceu no Rio de janeiro, em 2007, no mês em que completou 85 anos.

PARA MAIS INFORMAÇÕES:

Fotos: Pedro Rubens, revista Veja.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

DEIXOU-NOS UM GRANDE DEFENSOR DAS GEMAS BRASILEIRAS

            Faleceu, dia 1º de fevereiro, aos 95 anos, no Rio de Janeiro, o joalheiro Jules Roger Sauer. Francês da região da Alsácia, ele foi o fundador, em 1941, da Lapidação Amsterdam Ltda., hoje Joalheria Amsterdam Sauer.

                          Foto: Ana Branco, Agência OGlobo

Houve, porém, uma gema brasileira que Sauer tornou particularmente conhecida e respeitada: a esmeralda. Sauer foi responsável pela valorização e popularização das gemas brasileiras no mercado internacional. Até então, o que se valorizava mesmo era o diamante, uma gema sempre importante; a esmeralda e o rubi, que o Brasil não produzia, e a safira, que nosso país produzia muito pouco (se é que produzia).  As dezenas de outras gemas que o Brasil colocava no mercado – topázio, opala, água-marinha, turmalinas, granadas, ametista, etc. – eram genericamente consideradas apenas pedras brasileiras, uma subcategoria. Sauer começou a divulgar e valorizar essas pedras preciosas menos prestigiadas e hoje o reconhecimento da nossa riqueza gemológica é um fato.

Houve, porém, uma gema brasileira que Sauer tornou particularmente conhecida e respeitada: a esmeralda. 
Contou ele, em um de seus livros (O Mundo das Esmeraldas), que em 10 de julho de 1963, quando estava em férias com a família, um garimpeiro que trabalhava para ele informou haver encontrada uma pedra verde no pequeno povoado chamado Salininha, perto da cidade de Pilão Arcado, na Bahia. Os garimpeiros não acreditavam que fossem esmeraldas e quando a descoberta foi divulgada, especialistas confirmaram que não eram.



     

  .
A cor verde da esmeralda normalmente é devida à presença de cromo, e os cristais descobertos em Salininha eram exatamente como a esmeralda, mas com cor verde produzia por vanádio.  E foi este detalhe o único argumento apresentado para considerar a nova gema simplesmente um berilo verde (a esmeralda, como a água-marinha, é uma variedade de berilo).
Inconformado, Sauer encaminhou a gema ao Gemological Institute of America (GIA) para análise e, em 9 de agosto de 1983, o GIA emitiu o laudo Nº 20.259, atestando que se tratava de Natural Emerald, a valiosa gema que era aqui procurada desde os tempos do bandeirante Fernão Dias Paes, o Caçador de Esmeraldas.
Com isso, o mercado internacional não teve como deixar de reconhecer a autenticidade da nossa pedra preciosa.

De origem judia, no início da 2ª Guerra Mundial Jules Sauer fugiu de bicicleta da Bélgica, onde morava, pedalou sozinho 1.500 km ate à Espanha, onde foi preso por não ter documentos. Fugiu da prisão e foi para Portugal onde embarcou em um navio para o Rio aonde chegou com 18 anos. (Coincidentemente, Hans Stern, fundador da famosa rede brasileira de joalherias H. Stern, chegou ao Brasil na mesma época e com 17 anos.)
Aqui, sobreviveu inicialmente dando aulas de francês, até conseguir um emprego na empresa de pedras preciosas do irmão de um aluno, em Minas Gerais. Jules aprendeu rapidamente as técnicas de lapidação e em pouco tempo, alcançou sua independência.
Embrenhou-se Brasil adentro como comprador e vendedor de pedras. Pouco menos de dois anos após deixar a Bélgica, já era dono da própria empresa (instalada numa zona de baixo meretrício de Belo Horizonte !).
Além dos vários livros que escreveu, Sauer criou o Museu Amsterdam Sauer, com seu acervo de mais de três mil peças, incluindo a maior alexandrita bruta conhecida (24,48 kg).
Considerado uma das maiores autoridades em alta joalheria do mundo, Jules Sauer era, desde 2004, membro do Círculo de Honra do Gemological Institute of America (GIA), a mais importante instituição gemológica do mundo. Era também Cidadão Honorário de Belo Horizonte, Teófilo Otoni e Governador Valadares (MG), São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1959, conquistou pela primeira vez Diamond International Awards, a consagração máxima da joalheria internacional, com o anel Constellation.
Ele deixa dois filhos, Daniel, que tive o prazer de conhecer em reuniões da Comissão Técnica de Gemas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e que é diretor da empresa fundada pelo pai, e Débora.  


Fontes consultadas (acessadas em 12.02.2017):
http://oglobo.globo.com/ela/gente/morre-jules-sauer-fundador-da-joalheria-amsterdam-sauer-20856064

sábado, 11 de fevereiro de 2017

UM DIA MUITO ESPECIAL

Ontem, dia 10 de fevereiro de 2017, este blog ultrapassou 100.000 visualizações. 
Obrigado a todos - especialmente aos nossos 106 seguidores - pelo interesse. 

domingo, 22 de janeiro de 2017

CAMINHOS QUE SE CRUZAM

            Em 1996, quando decidi vender 90% da minha coleção de minerai, recebi várias propostas, e acabei vendendo-a para a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), de Canoas (RS). Sua proposta era a única que atendia os dois requisitos que estabeleci (além do preço): não desmembrar a coleção e mantê-la acessível ao público.  A coleção não ficou tão acessível quanto eu desejava, mas, em compensação, foi belamente exposta, em expositores originais e bonitos, e com uma cerimônia de inauguração muito gratificante para mim.
Nas negociações, representou a Ulbra o geólogo Paulo César Pereira das Neves (foto acima), que eu até então não conhecia e que se tornou, a partir dali, meu amigo. Paulo Neves era professor da Ulbra, dedicando-se à Palinologia (estudo dos pólens), área em que fez seu mestrado e seu doutorado. Os minerais não eram objeto de seu trabalho profissional, mas, surpreso com a diversidade de espécies da coleção que a sua universidade adquirira (muitas bem raras), passou a se interessar por eles. Publicou dois livros sobre o assunto (ambos já reeditados, um com quatro edições) e escrevemos juntos um artigo, publicado na revista Southern  Brazilian Journal oF Chemistry,
sobre os minerais raros da Coleção Pércio de Moraes Branco. Hoje, a Mineralogia é sua principal atividade na Ulbra.
Antes de me tornar amigo de Paulo Neves, conheci, por correspondência, o estudante de Geologia Daniel Atêncio, de São Paulo. Isso foi no início da década de 80 do século passado. Lembro muito bem de suas cartas, escritas a mão, numa época em que os computadores ainda não faziam parte da nossa rotina pessoal nem profissional. Anos depois, vim a conhecê-lo pessoalmente e, é claro, nos tornamos amigos também.
Ao contrário de Paulo Neves, o Daniel desde estudante (na USP) se dedicou aos minerais, inicialmente como colecionador e depois, como professor de Mineralogia da universidade pela qual se graduou em 1982. Ele dedicou-se tanto à Mineralogia que se tornou um importante pesquisador nesta área. Ninguém, no Brasil, descobriu mais espécies minerais novas do que ele: nada menos de 32 minerais (por enquanto...). Tem inúmeros trabalhos de Mineralogia publicados, entre eles um livro (Type Mineralogy of Brazil). E é o representante no Brasil da Commission on New Minerals Names / Commission on New Minerals, Nomenclature and Classification, da Intenational Mineralogical Association.
O mundo dá voltas, e esses dois amigos, Paulo e Daniel, acabaram se conhecendo e começaram a trabalhar juntos. E como trabalharam!  Eles começaram e vêm desenvolvendo um projeto muito ambicioso, ligado ao pós-doutorado de Paulo: cadastrar todos os minerais encontrados no Brasil. Não apenas os de interesse econômico, não apenas as mais de cem pedras preciosas do nosso país ou os minerais metálicos, mas todos eles! Com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), eles vêm organizando a Enciclopédia dos Minerais do Brasil, da qual acaba de sair o quarto volume (Carbonatos, Nitratos, Sulfatos, Cromatos, Molibdatos, Volframatos e Combinações Orgânicas). Serão sete volumes, publicados um por ano, de modo que a obra estará concluída apenas em 2020.

O Paulo e o Daniel descrevem, para cada mineral, suas características físicas e químicas, origem do nome, status, localidade-tipo, repositório(s) da amostra-tipo e os locais onde ocorrem no Brasil, estes reunidos por estado, citando sempre a bibliografia em que a ocorrência é mencionada. Pode-se, por aí, avaliar o que de trabalho vem exigindo esse projeto, digno de nossa admiração.

Os volumes já publicados estão à venda, ao preço de R$ 50,00 cada um, e podem ser solicitados por e-mail a Paulo Neves (nevespc@yahoo.com.br ). O primeiro traz os elementos nativos e os halogenetos; o segundo, sulfetos e sulfossais e o terceiro, óxidos e hidróxidos. O próximo será sobre fosfatos, arsenatos e vanadatos. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

JOIA É UM BEM SUPÉRFLUO?

     Muita gente provavelmente responderia à pergunta acima de modo afirmativo. Afinal, ninguém morre por não ter numa joia ou por perder uma joia que tinha. Mas, analisando o caso mais profundamente, vê-seque a resposta não é tão simples assim.
A criação de uma joia envolve, em termos bem resumidos, o trabalho do designer que a desenha no papel, do profissional que executa aquele projeto e por fim do joalheiro que vai vender a joia pronta.
Se ela inclui uma pedra preciosa, o que é normal, deve-se considerar o trabalho do garimpeiro que extraiu a pedra e as despesas que ele teve com equipamento e material de consumo. Se a gema foi produzida por uma empresa, há, além dessas despesas, também gastos com mão de obra, salários, impostos, taxas, etc.
Mas, a pedra preciosa não vai diretamente da mina ou garimpo para as mãos de quem cria ou produz a joia. Ela precisa ser lapidada. E, com o trabalho do lapidador, vêm também custos de material de consumo, equipamento, impostos, talvez aluguel, etc.
Além da lapidação, muitas gemas passam por processos de tratamento para melhorar ou modificar alguma propriedade física (geralmente a cor). E isso requer mais tecnologia, mão de obra, equipamento, material de consumo, impostos, etc.
O joalheiro que vai vender a joia pronta terá também suas despesas com impostos, salários dos vendedores, manutenção do espaço físico da loja, propaganda, etc. Se for um profissional consciente e realmente preocupado com a qualidade do produto que vende, talvez contrate um gemólogo para assegurar-se de que a pedra que está vendendo é realmente o que o fornecedor de gemas lhe disse ser.
Este gemólogo, por sua vez, não nasceu sabendo Gemologia; ele fez pelo menos um curso em alguma escola ou com algum gemólogo experiente.
Se eu fosse economista, provavelmente veria várias outras ramificações dessa cadeia produtiva, mas acho que isso é suficiente para mostrar o quanto de conhecimento, trabalho, material e outras despesas há por trás da beleza de uma joia. Ou seja, o quanto de renda e absorção de mão de obra ela proporciona.

Pense nisso quando olhar uma joia numa vitrine. Pense nisso quando o preço da joia lhe parecer muito alto. E pense nisso também quando ganhar uma joia de presente.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

A GEOLOGIA E A ARQUEOLOGIA


Por diversas vezes, tanto em conversas pessoais quanto na mídia, vi pessoas confundirem Geologia com Arqueologia, atribuindo atividades de uma à outra. São áreas da ciência bem distintas, mas o fato de ambas lidarem com materiais antigos pode levar quem não as conhece a essa confusão.
Segundo a Wikipédia, a Arqueologia estuda as culturas e os modos de vida do passado a partir da análise de vestígios materiais. É uma ciência social que estuda as sociedades já extintas, desde o surgimento da espécie humana (transição do Australopitecos para o Homo habilis) até o presente. Alguns arqueólogos definem a Arqueologia como a reconstrução da vida dos povos antigos.
A Geologia estuda a  Terra, sua composição, estrutura, propriedades físicas, história e os processos que lhe dão forma. Ela não estuda sociedades, povos ou culturas.
Vê-se então que a Arqueologia trabalha com o ser humano, com as civilizações. A Geologia dedica-se às rochas, minerais e fósseis. Assim, a primeira trabalha com maternais que têm séculos ou milhares de anos de idade; a Geologia, com materiais que têm milhões ou bilhões de anos de idade (a Terra formou-se há 4,54 bilhões de anos).
A datação radiométrica desses materiais utiliza, por isso, métodos semelhantes, mas com elementos químicos diferentes. Enquanto a Arqueologia trabalha com um isótopo instável do carbono (o carbono 14), próprio para materiais de pouca idade (alguns milhares de anos), a Geologia usa isótopos instáveis de rubídio, potássio, samário ou, para as rochas mais antigas, de urânio, que permitem datar materiais com  milhões ou bilhões de anos.
Ambas se relacionam com outras ciências, como é natural. A Arqueologia se relaciona, por exemplo, com a História, Geografia e a Física. A Geologia tem ligações com a Química, Física e Biologia, mas principalmente com a Geografia e a Astronomia.
Um exemplo de interação entre Geologia e Arqueologia ocorreu no Rio Grande do Sul. O geólogo Carlos Henrique Nowatzki, da Unisinos, pesquisou e descobriu de onde foram extraídos os blocos de arenito usados na construção, pelos jesuítas, da igreja de São Miguel, no município de Santo Ângelo (RS), importante atração turística do estado. Eles têm hoje sua procedência bem estabelecida graças à Geologia.
A Geologia procura descobrir depósitos minerais de valor econômico (jazidas), para extração de minerais metálicos, material para a construção civil, pedras preciosas, metais nobres, etc. Procura também petróleo e recursos hídricos (Hidrogeologia). Já a Arqueologia busca materiais de valor histórico, museológico e cultural, não de valor comercial ou industrial. Uma exceção: houve uma época em que as múmias eram tão abundantes no Egito que foram vendidas toneladas delas aos Estados Unidos, para uso como combustível em locomotivas.
O Brasil conta hoje com quatorze cursos de graduação em Arqueologia, todos relativamente novos. A Geologia tem cursos de graduação mais numerosos, em torno de trinta.
Se uma obra civil, como abertura de túnel, barragem, estrada ou mesmo de uma mina revela a existência de um sítio arqueológico, ela deve ser paralisada até que o local seja estudado por arqueólogos. Só em casos excepcionais esses achados arqueológicos são suficientemente importantes para justificar a anulação de obras de grande porte, mas estudar, fotografar e amostrar o sitio arqueológico são coisas que podem e devem ser feitas antes que ele seja destruído pela obra civil em andamento. Um exemplo dramático disso é a cidade de Roma, cujo metrô tem uma extensão total relativamente pequena porque em qualquer local que se faça uma escavação não é difícil encontrar um sítio arqueológico.
A Arqueologia passou a ser vista com interesse e tornou-se uma ciência popular graças aos filmes de Indiana Jones, em que o herói, representado por Harrison Ford, é um professor de arqueologia. A Geologia tem forte apelo popular em filmes, livros e outras mídias que tratam de terremotos, vulcões, pedras preciosas, metais nobres e dinossauros, sendo estes os personagens principais do filme Parque Jurássico, por exemplo.
Em alguns aspectos, Geologia e Arqueologia se assemelham bastante. Ambas envolvem trabalhos de prospecção, escavação e análises do material recolhido. Não basta ao arqueólogo recolher um pedaço de cerâmica para conhecer a história local; é preciso ver de que tipo de objeto ele fazia parte e em que tipo de ambiente provavelmente era usado, entre outras coisas, para só depois mandar a amostra para datação. De modo semelhante, não basta ao geólogo coletar uma amostra de rocha e mandar fazer uma análise química, mineralógica ou geocronológica, para saber sua composição e idade. É preciso examinar todo o afloramento de onde ela foi extraída, ver sua estrutura, relação com outras rochas do local (se existirem), medir a direção e mergulho das camadas, veios, foliações ou fraturas, etc. 

Simplificando, então, podemos dizer que as duas ciências têm semelhanças, mas a Geologia trabalha com materiais muito mais antigos que a Arqueologia e nos quais não esteve envolvida ação humana.

domingo, 25 de setembro de 2016

MISTÉRIOS DO NOSSO UNIVERSO

             A Geologia oferece a nós, geólogos, fascinantes mistérios e desafios, e o universo, como era de se esperar, mostra-nos mistérios muito mais numerosos e mais misteriosos. Estes, porém, felizmente não cabe a nós decifrar; já temos suficientes interrogações à nossa volta. Como, porém, nossa amada Terra está imersa nesse universo, é bom saber um pouco sobre as dúvidas que fazem parte do trabalho de físicos, astrofísicos e astrônomos.
            Para mim, o primeiro e maior desses mistérios é a origem do universo. A teoria mais aceita é a do Big Bang, criada no final da década de 1920 pelo belga Georges Lemaître, um padre católico que era astrônomo, cosmólogo e físico. Ele a chamou de Hipótese do Átomo Primordial (o nome Big Bang foi dado por outro astrônomo, o britânico Fred Hoyle, em 1949).
            Segundo essa teoria, tudo o que chamamos de universo estava originalmente concentrado em um pequeníssimo ponto. Vocês conseguem imaginar isso? Eu não, mesmo que esse tudo fosse apenas energia e não matéria. Mas, a descoberta da chamada radiação cósmica de fundo, em 1964, veio dar grande suporte a essa teoria.
Houve então, entre 13,3 e 13,9 bilhões de anos atrás, uma súbita expansão (não explosão) daquele ponto inicial (o átomo primordial de Lemaître), dando início à formação do universo que conhecemos hoje. O que provocou essa súbita expansão? Não se sabe. Deus, talvez.
É preciso, porém, esclarecer que a teoria do Big Bang explica o início de tudo, mas não diz como se chegou àquela condição inicial. O que havia antes do Big Bang?  Dizem os cientistas que foi só com o inicio do universo que surgiu o tempo. Antes, não havia tempo, portanto não existiu um período antes do Big Bang.  Conseguem imaginar isso?  Eu também não.
No comecinho da grande expansão, havia apenas subpartículas atômicas (neutrinos, mésons, bósons e outras), viajando à velocidade da luz. Não havia ainda matéria. Foi o físico britânico Peter Higgs, em 1964, quem previu que deveria haver um bóson o qual, a partir de determinado instante, deu massa a outras subpartículas, como os quarks, ao entrar em contato com elas. A existência desse bóson foi comprovada, mas só muito recentemente, em 2012.
Aprendi, décadas atrás, que a velocidade da expansão do universo era decrescente, o que parecia óbvio: a grande expansão deveria estar perdendo força cada vez mais, e assim seguiria até tudo parar de se mover. Aí, pela ação gravitacional, os corpos celestes passariam a se atrair e se voltaria à condição inicial, quando ocorreu o Big Bang. Acontece, porém, que hoje se sabe que isso não é verdade. O que está havendo é uma velocidade de expansão cada vez maior!  Vocês conseguem entender nisso? Eu não. Mas não sou só eu: os cientistas também não sabem ainda por que isso acontece.
A explicação talvez esteja na chamada energia escura. Toda a matéria visível no universo conhecido (a soma de satélites, planetas, estrelas, seres vivos, etc.) mais a energia que se pode perceber representam apenas 4% da massa do universo! Ou seja, os outros 96%, a chamada matéria escura ou energia escura, a gente não vê e não percebe! Isso é ou não é, uma coisa assustadora?!  E não é preocupante que se busque em um mistério a explicação para outro?
A expansão cada vez mais rápida do universo visível era, para mim, uma coisa angustiante. Não tenho nenhuma culpa ou responsabilidade sobre isso, mas um universo em expansão cada vez mais acelerada não cabia na minha limitada compreensão e me deixava muito inquieto. Felizmente, fiquei sabendo, dias atrás, de uma teoria que me deixou mais tranquilo. Roger Penrose, importante físico da Universidade de Oxford, acha que o universo vai continuar se expandindo até que suas partículas percam massa. Surgirá então uma espécie de vácuo, em que o tempo irá parar e o universo morrerá, para se transformar em outro universo, por meio de novo Big Bang. Isso seria uma resposta à minha angustiante dúvida. Só que poucos cientistas acreditam nisso...
Falei aqui em universo que conhecemos e em universo visível. Pois saibam que os cientistas admitem também que existam outros universos além deste! A expansão a partir do Big Bang não teria sido uniforme; algumas porções do espaço teriam se expandido também, mas em outros momentos, diz Marcelo Gleiser, outro físico renomado. Haveria então outros universos, além do nosso, separados por espaços gigantescos, acrescenta ele.

            Isso tudo é mistério demais para este pobre geólogo. E olhem que eu nem falei nos possíveis habitantes desses outros mundos...