terça-feira, 16 de novembro de 2010

O JORNAL DO BRASIL E EU

Em 1968 e 1969, morei na pensão da Dª Lica, aqui em Porto Alegre, e que foi demolida para dar lugar a mais um estacionamento. Morava ali também o Renato, um estudante de Direito mais velho que eu, e que costumava ler o Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro. Não lembro se eu lia o jornal dele de vez em quando, mas lembro bem que o Renato gostava muito daquela leitura e elogiava bastante o JB, em especial o Caderno B (que foi o primeiro no Brasil criado só para divulgar artes, espetáculos e cultura em geral).

Acho que comecei a ler e a admirar o Jornal do Brasil em 1971, comprando a edição dominical, em busca de emprego. Eu acabara de me formar e o mercado para geólogo no Rio Grande do Sul era muito restrito.

Acabei indo trabalhar na Bahia, onde fiquei três anos. Em 1974, recebi convite para me transferir para o Rio de Janeiro, aceitei, mas a transferência só se efetivou um ano depois. Enquanto não me mudava, saboreava já as vantagens que a vida no Rio traria: muitos passeios turísticos, mil opções culturais, proximidade de parentes, meio caminho andado para a sonhada volta ao Rio Grande do Sul e a possibilidade de ler o Jornal do Brasil todos os dias pelo mesmo preço que eu pagava pelos jornais pobrezinhos lá de Salvador. Foi assim que passei a ser seu leitor fiel. Ele já era então um dos três ou quatro mais importantes jornais do país, se não o maior, junto com O Globo, a Folha de S. Paulo e o Estado de S. Paulo.

Nunca fui assinante, mas comprava meu exemplar quase todos os dias numa mesma sinaleira, a caminho do trabalho, onde era vendido por um guri de uns 10 anos de idade. Quando finalmente voltei a Porto Alegre, em 1980, lamentei perder a facilidade que tinha de comprar o Jornal do Brasil, o preço baixo que eu pagava por ele e o encontro diário com aquele garoto. Na véspera da viagem, comprei o jornal como fazia sempre, mas lhe dei um valor equivalente, eu acho, a uns 10 exemplares pelo menos, explicando que eu estava indo embora e queria lhe dar um presente. Num primeiro momento, ele não entendeu. O senhor vai embora, é ? perguntou ele, enquanto procurava o troco. Respondi que sim, mas aí a ficha caiu e ele entendeu que eu estava lhe dando todo o dinheiro, como um presente. O sinal já estava aberto, mas deu tempo ainda de ver seu largo sorriso me agradecendo e me desejando boa viagem.

Em Porto Alegre, não comprei mais o jornal de que tanto gostava porque só umas poucas e distantes bancas o vendiam. Não fiz uma assinatura porque, por melhor que ele fosse, não substituía um jornal local e dois jornais diários é algo que eu simplesmente não tenho tempo para ler.

Em 1985, quando eu não era mais assinante do JB, pois já morava em Porto Alegre, o Jornal do Brasil lançou o Concurso Classicarinho de Desenho Infantil Amigo Índio. Era um concurso de desenho do suplemento infantil do jornal, que tinha como tema o índio.

Falei sobre o concurso aos meus filhos e os dois concordaram em participar. Fizeram seus desenhos, enviei-os à redação do jornal e no Dia da Criança, em 12 de outubro, saiu o resultado. Os trabalhos do Daniel e da Bianca estavam entre os classificados e foram reproduzidos numa edição especial do suplemento infantil .

Contei essas histórias todas porque este ano, em julho, o glorioso Jornal do Brasil, fundado no século XIX, deixou de circular... Ele continua existindo na verdade, mas apenas em versão digital, só para assinantes e só de setembro para cá. Mas, não mais nas bancas. Não mais nas mãos do Renato, que sabe lá Deus por onde anda. Não mais nas esquinas da Cidade Maravilhosa. Não mais nas mãos de um garoto de 10 anos, parado numa sinaleira do Rio de Janeiro. Que pena !

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