sábado, 9 de maio de 2015

A SERRA DO RIO DO RASTRO, UMA ATRAÇÃO GEOTURÍSTICA


Assim como a praia da Joaquina, em Florianópolis e as praias de Torres, no Rio Grande do Sul, a serra do Rio do Rastro é uma notável atração geoturística.
Ela era antigamente chamada de Serra do Doze e fica entre as cidades catarinenses de Lauro Müller e Bom Jardim da Serra (após a qual vem São Joaquim), sendo acessada pela SC-438.
Apesar de ser muito conhecida como atração turística, poucos sabem, excetuando os geólogos,  que ela tem uma enorme importância também para a geologia do Brasil, particularmente da região Sul, como veremos a seguir.
Eu nunca havia ouvido falar naquela serra, até o dia em que, morando  no Rio de Janeiro, recebi um postal de lá, enviado pelo meu sogro. Aquela estrada na foto, serpenteando por uma distância enorme, me deixou louco de vontade de conhecê-la e com a firme determinação de ir lá na primeira oportunidade, para ver ao vivo aquela que os catarinenses chamam de a mais bela estrada do Brasil.





                                Fotos: Wikipédia (superior) e Verlei Mariot

Quando voltei residir em Porto Alegre, trabalhando no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, não só pude conhecê-la, em 11.02.1981, como passei por lá passei várias vezes, subindo e descendo, a passeio e a trabalho, feliz e preocupado, com bom e com mau tempo, antes e depois de a rodovia ser pavimentada (mas não depois de ganhar iluminação). 

O turismo

A gente sobe, através da SC-438, nada menos de 1.200 metros em apenas 13 km. Se pavimentar uma estrada destas foi uma grande obra, abri-la foi obra muitíssimo mais grandiosa. A decisão de vencer aquela serra, com dificuldades técnicas muito maiores do que as que enfrentaria hoje, merece o reconhecimento de todos os catarinenses e brasileiros. Em 1903, o governador Vidal Ramos inaugurou uma estrada que devia ser bem estreita. Depois, Irineu Bornhausen a alargou, deixando com jeito de estrada mesmo, e Espiridião Amin a pavimentou.
E é aí que se flagra uma grande injustiça: no topo da serra, foi construído um mirante onde se colocou uma placa em homenagem a Bornhausen e que tinha uma bela frase: Parecia impossível, mas com uma tenacidade incrível, ele rasgou, nas rochas da serra do Rio do Rastro, uma estrada que nos une, nos dá vida e nos espanta de beleza.  
Pois bem: com a conclusão das obras de pavimentação, o governador Espiridião Amin mandou colocar (ou permitiu que colocassem) não um, mas dois monumentos, maiores que o primeiro, assinalando a conclusão dos dois trechos da obra realizada em seu governo. Os monumentos são, reconheço uma homenagem merecida. Só que a placa em homenagem a Irineu Bornhausen foi removida. Com isso, quem passa pelo local fica sabendo que Amin mandou pavimentar a estrada, mas não sabe que foi outro governador que a mandou construir, concluindo assim que a abertura e pavimentação foram obra de um governo só. Mas, lá está a belíssima estrada, hoje inclusive iluminada em todo o trecho da serra, com energia eólica.

                                      Foto Verlei Mariot

Se antes da pavimentação passar por ali exigia grande habilidade ao volante, extrema prudência e muita coragem, hoje ela requer apenas boa habilidade e razoável coragem, mas ainda muita prudência. E se você pretende admirar a belíssima paisagem durante o trajeto de subida ou descida, não dirija. Quem está ao volante não consegue olhar para os lados.
O rio do Rastro nasce lá em cima, como um regato, e  vai engrossando à medida que desce. Numa das várias vezes em que desci a serra, soprava lá no topo, um vento extremamente forte. Tão forte que podia desequilibrar e derrubar uma pessoa. Eu estava bem no bordo do planalto, onde começa a descida, e vi que, em certos momentos, vinha lá de baixo uma neblina que logo se desvanecia, para em seguida voltar de novo. Eu não conseguia entender aquilo, pois o dia estava claro, e só fui descobrir o que era quando finalmente comecei a descer.
O vento, forte como era, levantava as águas do rio do Rastro (naquele ponto, apenas um riacho), suspendendo completamente, por alguns segundos, a sua queda! Quando cessava a lufada de vento, as águas voltavam a cair. Novo pé de vento, e lá se iam as águas para o céu!
Que coisa... Não é sempre que se vê um rio ser vencido pela força do vento!



Menos feliz eu fui na noite em que desci ali sozinho, em meio a um denso nevoeiro. Várias vezes precisei parar e dar marcha-a-ré porque estava indo de encontro à mureta de proteção... Felizmente a estrada tem agora iluminação.
Em 21 de julho de 1981, nevou a madrugada inteira. Eu morava em Criciúma (SC) e no dia seguinte, meus colegas e eu decidimos subir a serra para ver a neve. Quando chegamos ao sopé, dava para ver o topo do planalto pintado de branco. Mal começamos a subir, encontramos colegas de trabalho da CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais) fazendo um furo de sonda. E o engenheiro, um mineiro, usava apenas camisa de manga curta!
Em outra ocasião, eu estava lá em cima e de repente fui envolvido por uma nuvem. Ela passava rente ao chão, mas a 1.400 m de altitude!
Coisas estranhas e belas são vistas naquela serra...



A geologia da serra do Rio do Rastro

Como eu disse, a serra do Rio do Rastro é mais que uma belíssima atração turística.  Ele é uma aula de Geologia. Foi nela que se definiu a coluna estratigráfica da Bacia do Paraná, ou seja, ali é que foram estudadas, descritas e denominadas as rochas da grande sequência de formações geológicas que existe nos estados da região Sul e países vizinhos, e que ocupa mais de 1.200.000 km². Foi trabalho do geólogo norte-americano Israel Charles White, entre 1904 e 1906, daí ser aquela sequência de rochas conhecida também pelos geólogos como Coluna White. 
Não é por acaso, portanto, que unidades estratigráficas como Rio Bonito, Guatá, Passa-Dois, Palermo, Estrada Nova e Rio do Rastro, nomes tão familiares aos geólogos do Sul,  correspondem a topônimos daquela região.



                                          Charles White -  Foto: Wikipédia

Essas rochas encontradas no sul do Brasil aparecem também na África, pois formaram-se antes da separação dos dois continentes. Os basaltos, o final da sequência, começaram a se formar justamente quando teve início essa separação.
Na década de 1980, o DNPM identificou as formações geológicas da coluna estratigráfica com dezessete marcos de concreto fixados junto à estrada (será que ainda existem?). O marco 1 foi colocado na cidade de Lauro Müller, a 200 m de altitude. O marco 17, lá em cima, 17 km adiante, no topo dos derrames basálticos, a 1.400 m de altitude.
No meio desse trecho, havia até um Museu Geológico, que uma chuvarada destruiu e que não foi reconstruído.
O ponto onde a estrada passa de rodovia muito sinuosa para a categoria de pirambeira, tornando-se muito mais íngreme, marca o início do intervalo de basaltos, rochas vulcânicas que, por serem mais resistentes à erosão, deixam o perfil da serra muito mais escarpado. Esses basaltos continuam aflorando até terminar a subida.
Este é o trecho onde é mais difícil dirigir. Mas, em compensação, é o que pode fazer a alegria dos colecionadores de minerais.
Ele é composto por uma sucessão de derrames de lava e cada um desses derrames tem na sua parte superior, uma associação de minerais muito interessantes para coleção.
Para a pavimentação, a estrada precisou ser alargada em vários pontos e, com isso, em muitos lugares podiam-se obter amostras muito boas de minerais variados. Tive o privilégio de passar por ali em 1981, logo depois de a estrada ser pavimentada e vivi uma das minhas melhores experiências de colecionador. Foi bom demais!
Vi um derrame que continha cristais de ametista, heulandita, calcita e escolecita. Logo adiante, outro derrame, este com quartzo enfumaçado, heulandita, calcita, laumontita, ametista, cristal de rocha e obsidiana.  Após mais 1,7 km de estrada, escolecita, estilbita e laumontita.
Eu estava sozinho e queria muito compartilhar aquelas descobertas. Mas, como e com quem?  O jeito que achei foi pegar uma lata de tinta spray que tinha no carro e escrever, abreviadamente, na mureta da estrada, os minerais que encontrava em cada ponto (HEU para heulandita, EST para estilbita, etc.). Por serem abreviaturas, eu sabia que das pessoas que viessem a ler, talvez só os geólogos entendessem. Mas, foi a maneira que achei de compartilhar a emoção das descobertas. Foi também minha única atuação como pichador em toda a minha vida.  E não me arrependo, porque a causa era nobre.
Outra vez, encontrei naquela estrada uma drusa de ametista e fiquei na dúvida se a trazia ou não, pois os cristais eram bonitos, mas o conjunto, bem pesado. Acabei deixando lá, mas marquei bem o lugar para achá-la se viesse a me arrepender. Arrependi-me mesmo, mas alguns meses depois subi a serra, num dia horrível, frio e com chuvisco. Quando cheguei àquele local, desci e encontrei a drusa exatamente onde a deixara. Em menos de um minuto, eu estava de volta ao carro com ela.

Assim é a serra do Rio do Rastro, cheia de surpresas, encantamento, descobertas e emoção.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

GEOLOGIA NAS PRAIAS DE TORRES (RS)

       Assim como a praia da Joaquina, em Florianópolis, sobre a qual falamos em texto aqui publicado dia 9 de janeiro deste ano, as praias gaúchas de Torres são uma aula de Geologia a céu aberto.
            Também ali são duas as rochas que afloram, só que diferentes daquelas da Joaquina. Lá, a gente vê granito e diabásio; aqui, a gente vê basalto e arenito.

O arenito

            O arenito é uma rocha sedimentar formada pela deposição e compactação de areia (grãos de minerais medindo 0,125 mm a 2 mm de diâmetro). O arenito de Torres tem cor marrom-clara a rosada (foto abaixo) e, como a imensa maioria dos arenitos é formado por grãos de quartzo.  



             A areia que se deposita e depois se torna um arenito pode ser transportada por um rio, pelo mar ou pelo vento. O arenito de Torres é daqueles cuja areia veio trazida pelo vento (arenito eólico). Como se sabe isso? Pela maneira como se distribuem suas camadas. Elas têm certa inclinação num ponto, mas logo acima a inclinação é outra, e para os lados também mostra inclinação (que os geólogos chamam de mergulho) e direção variáveis (próxima foto). Essas mudanças caracterizam a chamada estratificação cruzada e são consequência das mudanças na direção do vento à época da deposição da areia. Se a areia tivesse sido depositada por um rio, também mostraria estratificação cruzada, mas ela seria bem diferente (estratificação cruzada acanalada).
             


             Além disso, os grãos de quartzo do arenito eólico não têm brilho porque o atrito de uns contra os outros, no ambiente desértico, sem água, os deixa foscos.
          Torres faz parte de uma grande porção da América do Sul que era um vasto deserto nos períodos Triássico (251 a 200 milhões de anos atrás), Jurássico e início do Cretáceo (145,5 até 65,5 milhões de anos atrás). E deserto bem típico: arenoso, quente, seco e sem vida. O arenito que ali se vê é chamado pelos geólogos de Formação Botucatu ou Arenito Botucatu, porque foi descrito pela primeira vez no município desse nome, em São Paulo.
            A compactação das areias do antigo deserto formou uma rocha muito porosa e permeável. Por isso, ela absorve muita água, água esta que, através de poços tubulares, pode ser aproveitada facilmente.
Rochas assim, que armazenam e fornecem água com facilidade, chamam-se aquíferos. Já ouviram falar no Aquífero Guarani, a vasta reserva de água subterrânea existente na América do Sul, principalmente no sul do Brasil?  Pois apraz-me me informar-lhes que o Arenito Botucatu é a principal rocha desse famoso aquífero, que é o maior e melhor do Brasil.
Um furo de sonda feito pela CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais) 2,5 km ao norte da cidade mostrou esse arenito com 40 metros de espessura.

O basalto

      O basalto é uma rocha vulcânica, formada pelo resfriamento e solidificação de lava e é composto basicamente de cristais de piroxênio e plagioclásio.       
     Lava é o magma que chegou à superfície. Nessas condições, ele resfria muito depressa, por isso os grãos desses minerais são muito pequenos, invisíveis a olho nu, ao contrário dos cristais de feldspato e quartzo que formam o granito da praia da Joaquina. O granito provém de magma que resfriou no interior da costa terrestre, lentamente, a quilômetros de profundidade. 
            O basalto tem a mesma composição do diabásio que se vê na Joaquina, mas as duas rochas diferem no ambiente de formação: ambas são rochas ígneas, mas o diabásio formou-se por resfriamento e consolidação de magma dentro da crosta, não na superfície como o basalto. O basalto é, portanto, uma rocha ígnea extrusiva e o diabásio, rocha ígnea intrusiva.
            Este basalto, chamado pelos geólogos de Formação Serra Geral, ocupa toda a metade norte do Rio Grande do Sul, mais de metade do Estado de Santa Catarina, uns 50% do Paraná, partes de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás, Uruguai, Paraguai e Argentina. Estende-se por nada menos de 1,2 milhão de quilômetros quadrados, uma das maiores, se não a maior extensão de basalto continental do mundo todo. Ele começou a formar-se há 120 milhões de anos, no período Cretáceo, quando a América do Sul e a África começaram a se separar. Houve a fragmentação de um protocontinente que reunia todas as massas continentais do planeta, de nome Pangeia, cercado por um único mar, chamado Pantalassa. O vulcanismo cessou há 100 milhões de anos, mas essa separação continua ocorrendo ainda hoje, alguns centímetros por ano.
            Na fragmentação do antigo continente único, formaram-se grandes fendas, por onde saía a lava basáltica. O basalto é assim, ele não extravasa através de cones vulcânicos, mas sim de grandes fendas, chamadas pelos geólogos de geóclases. A cicatriz de uma dessas grandes fendas ainda é visível e passa exatamente por Torres, estendendo-se até Posadas, na Argentina. Ela é chamada pelos geólogos de Lineamento Torres-Posadas. 

O contato arenito / basalto

            O interessante na praia de Torres não é a simples presença das duas rochas, mas o fato de elas estarem em contato direto uma sobre a outra. Isso pode ser visto na praia da Guarita, na Torre Sul e na parte sul da Torre do Centro.
Havia como foi dito, um vasto deserto arenoso. A lava veio e se espalhou sobre a areia. Por isso, é possível ver, na zona de contato, alterações no arenito, promovidas pelo calor da lava. A foto abaixo mostra o arenito rosado sob o basalto cinza. Os pedaços de rocha menores são de basalto também. 


  
Nas fotos a seguir, o arenito, devido ao calor da lava, mostra-se mais compacto e mais difícil de quebrar e com cor também algo diferente.
  





  A próxima foto mostra também o arenito Botucatu (parte inferior) em contato com rochas vulcânicas da Formação Serra Geral, mas em outro contexto. São lajotas de uma calçada existente ao lado do Supermercado Zaffari Higienópolis, em Porto Alegre.



   Nos fundos do mesmo supermercado, pode-se ver o arenito num muro e na calçada, nesta com cor mais escura, devida à sujeira acumulada ao longo do tempo. 



 Como o ambiente desértico persistiu ainda durante um tempo após o início do vulcanismo, e como a lava basáltica se depositava em derrames que se sucediam com intervalos de duração variável, pode-se ver, em vários pontos do estado, camadas de arenito entre duas massas de basalto.  
            As fotos aqui exibidas foram tiradas na praia da Guarita, dentro do Parque Estadual da Guarita. Pode-se observar, na imagem abaixo (esta da Wikipédia), que os basaltos mostram fraturas na direção vertical.

                       

      Isso é comum na parte central e mais espessa de um derrame de basalto e a tendência, por isso, é blocos se soltarem e caírem. Aliás, a foto a seguir mostra exatamente isto: um bloco de basalto caído sobre o arenito da base da torre da Guarita.



              Este basalto que se vê em Torres é a rocha da qual se extrai enorme quantidade de ágata e de ametista no Rio Grande do Sul, a ponto de tornar esse estado o maior produtor mundial das duas pedras preciosas. Infelizmente, ali, nas praias de Torres, elas não são vistas.

O outro lado de Torres

            Se juntarmos o mapa da América do Sul com o da África, veremos que eles se encaixam de modo surpreendente. Segundo o pesquisador Ruy Rubem Ruschel, o ponto onde hoje é Torres estava unido ao atual cabo Cruz, na Namíbia, que ele chamava de o outro lado de Torres.  E assim como Torres é o único ponto do litoral brasileiro aonde os basaltos chegam até à praia, cabo Cruz, afirma ele, é o único ponto do litoral africano onde isso ocorre.
     Na Namíbia, o basalto é chamado de Formação Drakensberg e o arenito, de Arenito Cave.
Os mapas abaixo mostram a enorme semelhança da costa brasileira com a costa ocidental africana. No mapa da direita, uma ampliação do outro, Torres fica onde aparece o nome da pequena (3.800 habitantes) cidade de Karibib, no mapa da Namíbia. 





            A cidade de Torres está no paralelo 29º 20’, que passa pelo extremo sul da Namíbia, fronteira com a África do Sul. Isso mostra que, supondo que a África tenha permanecido imóvel, a América do Sul, ao se separar dela, teria feito um movimento para Sudoeste, girando no sentido horário. Dados atuais mostram que hoje o deslocamento do nosso continente é para Oeste (4 mm/ano) e, sobretudo, para o Norte (14 mm/ano). 
            A propósito, em 2001 a artista plástica sul-africana Georgia Papageorge realizou uma instalação em que, uma série de bandeiras enfileiradas instaladas na praia em Torres continuava com bandeiras iguais instaladas na África, no ponto outrora unido ao daqui. Nesse projeto, chamado Africa Rifting – Lines of Fire. Namibia/Brazil, as bandeiras de Torres foram instaladas no dia 11 de setembro de 2001 (sem saber, conta ela, que, naquela dia, os Estados Unidos sofriam os tristemente famosos ataques da Al Qaeda). 
Abaixo, as bandeiras de Georgia na costa africana. A foto mostra apenas as areias do deserto da Namíbia, na costa do Esqueleto. Nada dos basaltos citados por Ruschel. Quem está certo, ele ou Georgia?  Troquei e-mails com Georgia Papageorge em 2001 e 2002, mas não a conheço. Já Ruy Ruben Ruschel conheci bem e até escrevemos um artigo de História juntos. Por isso, em princípio acredito nele.




Torres hoje

            Cessado o vulcanismo, Torres e todo o litoral gaúcho foram palco de vários avanços (transgressões) e recuos (regressões) do mar. Atualmente, estamos numa fase de regressão marinha, iniciada há 2.000 anos. Essa é a razão de haver tantas lagoas no litoral do Rio Grande do Sul, inclusive dentro da cidade de Torres.


            Finalizando, convido os amigos a dar uma olhada mais cuidadosa nas rochas de Torres quando forem tomar um banho de mar naquela cidade. E lembrem: a distante África já esteve coladinha à mais bela praia gaúcha. 

domingo, 1 de fevereiro de 2015

SOBRE O ARTIGO “E A ENERGIA DOS CRISTAIS? MOTIVOS PARA CRER E DUVIDAR”.

                                   Análise recebida de meu amigo e colega GEÓL. MARIO FARINA, em 01.02.2015, e aqui reproduzida (com sua autorização) por ser extensa demais para aparecer na seção de comentários de um blog como este. 

            Li e reli atentamente o artigo. Depois consultei meus alfarrábios e procurei algo novo na Internet, sedimentando minhas ideias sobre o tema.
            O assunto é fascinante o que me motiva a opinar, apesar de eu não considerar-me um especialista no ramo.
            Tratando-se de “energia” cabe inicialmente distinguir os diversos tipos de energia dos cristais e os efeitos correspondentes produzidos em cada caso. Eis, sumariamente, os principais:
            - Cristais de minerais radioativos possuem energia pertinente à radioatividade;
            - Cristais de quartzo apresentam piezoeletricidade, podendo gerar efeito de corrente elétrica. Têm, pois, energia piezoelétrica;
            - Cristais de minerais magnéticos têm energia magnética, denotando força de atração especialmente sobre objetos de ferro;
            - Cristais de minerais fluorescentes (tais como flourita, scheelita e opala) quando devidamente estimulados por luz ultravioleta, raio-X, ou luz infravermelha emitem energia luminescente; e
            - Todo e qualquer cristal por ser constituído de átomos e diversas partículas subatômicas possui energia, denotada principalmente pelos movimentos constantes de tais partículas. Isto é uma fenomenologia implícita da própria matéria. Em circunstâncias especiais surgem a energia nuclear, a quântica, etc.
            Em todos esses casos os cristais têm energia, sendo, pois, evidentemente energéticos, mas seguramente não exercem efeitos sobre a saúde e o comportamento humano.
            Agora vamos discutir se os cristais possuem outra energia que atuando sobre os corpos humanos física ou mentalmente e também sobre os ambientes em que as pessoas convivem, possam provocar alterações, exercendo efeitos benéficos na saúde, nos comportamentos e até mesmo em variada gama de acontecimentos futuros. Isto seria o que alguns denominam de “poder dos cristais”.Há sérias duvidas se esta energia existe ou seja mera especulação. Veremos!
            Os crentes ou aficionados de tais benefícios costumam alinhar imensa e variada gama de males em que a energia dos cristais atua e beneficia, tais como: cálculos nos rins e na vesícula, enxaqueca, dores de coluna, artrite, reumatismo, gota, bronquite, diabetes, prisão de ventre, insônia, alergias, afecções oculares, esgotamento nervoso e amigdalite – e deve ter mais – caracterizando autêntica panaceia, ou seja, remédio para todos os males.
            Os mesmos adeptos são pródigos em atestar benefícios dessa mesma energia dos cristais em inúmeros e variados casos, com destaque para: incremento da autoestima, acréscimo da energia positiva nos relacionamentos interpessoais, promoção da autoconfiança, da gentileza e da simpatia, atração de riqueza e amor, harmonização de ambientes, combate a tristeza, proteção contra ladrões (!), aceleração da evolução espiritual e acentuação das sensibilidades e percepções intuitivas.
            Quanto às metodologias recomendadas para utilização dos cristais, destacam-se: colocação dos cristais sobre os órgãos afetados, manter os cristais nos bolsos das vestes, beber a água onde os cristais devem ser previamente mergulhados (denominado elixir de cristais), usar cristais em formas de pirâmides, e colocação sob travesseiros.
            Vejamos agora as circunstâncias envolvidas no trato com as propaladas energias dos cristais e seus anunciados poderes em beneficiar os humanos.
            - Agentes dos procedimentos:
a) Bastantes frequentes: mágicos, curandeiros, magos e xamãs.
b) Esporádicos: charlatões, embusteiros e espertalhões.
c) Raros: curiosos e experimentadores
d) Muito raros: cientistas
            Sendo este ranking verdadeiro, e tudo indica que seja, ele não indica favorabilidade para a crença para que os cristais possam operar beneficamente para a saúde e para o comportamento humano.
            - Locais dos procedimentos – As instalações dos curandeiros, magos e xamãs representam as mais frequentes. Em alguns casos são utilizados palcos para shows e raramente domicílios particulares.
Interessante observar que em hospitais e laboratórios de saúde não existem instalações para tratamentos por cristais – nem no Brasil nem no exterior. Este fato contribui para a descrença na efetividade da denominada cristaloterapia.
            Cristais utilizados – A lista das espécies minerais é grande e variada, mas algumas parecem ser preferidas, tais como: quartzo (cristal de rocha, ametista e citrino), calcita e opala. São geralmente escolhidos cristais bem formados e com tamanhos razoáveis. É intrigante constatar que rochas, como regra, não são utilizadas, apesar de conterem os mesmos minerais habituais na cristaloterapia. Não são conhecidos usos, por exemplo, de riolitos que contêm diminutos cristais de feldspato, nem tão pouco de basaltos que contêm pequeninos cristais de piroxênio. Então, as amostras escolhidas para uso parecem que necessitam bem impressionar aos olhos, independentemente de suas constituições mineralógicas.
            Ao consultarem-se na Internet as listas de minerais recomendados acompanhados de seus significados e de seus pretensos poderes constata-se que em vários casos não há coincidências nos tipos de benefícios atribuídos ao mesmo mineral. Isto faz lembrar as previsões de horóscopos que as vezes diferem de jornal para jornal ou de astrólogo para astrólogo. Esta diferença do prometido beneficio para o mesmo mineral é fator de descrença na validade da cristaloterapia.
             - Depoimentos – Ignoramos depoimentos de instituições cientificas ou medicas, atestando poderes terapêuticos aos cristais. Algumas pessoas, no entanto, se dizem beneficiadas ou mesmo curadas de certos males. Isto efetivamente pode ocorrer, mas em função apenas de reações naturais dos organismos ou até mesmo como fruto de expectativas otimistas, baseadas em autossugestão ou pensamento positivo, não necessitando de emanações energéticas de cristais para as curas.
            - Existência de provas cientificas – Provas confiáveis são absolutamente desconhecidas.
            - Contexto espalhafatoso – O espalhafato é relativamente comum aos aficionados dos poderes benéficos dos cristais, como para o caso da ametista, onde é divulgado assim:
            “... seu significado “não bêbado” se devia a suposta faculdade dessa pedra de manter sóbrios os consumidores de vinho mesmo se cometessem excessos. A propósito a bebida era servida em recipientes de ametista, pratica que persistiu até a Idade Média. Como a cor da pedra se confunde com a do vinho tinto seu uso permitia que os consumidores já entrando em estados alterados não percebessem quando o vinho estava sendo aguado ou mesmo substituído por água. Atributos modernos da ametista: munida da cor especifica do chacra coronário, um dos veículos energéticos de contato com outros planos, a ametista é considerada uma pedra de meditação por excelência. No terreno físico é aplicada em casos de alcoolismo, dores de cabeça, enxaquecas, insônia, daltonismo, impurezas no sangue e doenças venéreas, combate também dores de qualquer espécie. No nível psicológico, auxilia a reorganização mental de pacientes e elimina o medo, a raiva e a ansiedade, é eficaz também quanto a distúrbios de polaridade sexual. No nível sutil, proporciona o sentimento de transmutação a graus superiores, incentiva a humanidade, o altruísmo em prol da coletividade. Traz muita proteção, coragem, tranquilidade e felicidade.

            Razões para crer – Razões do Percio expostas no seu blog já referido
            Caso 01 – Em 1989 Percio sentiu forte latejamento no dedo e sensação de azedo ao contatar uma zircônia cúbica de um par de brincos. Depois testou novamente os brincos e nada mais sentiu.
            Caso 02 – Locação de uma obsediana no Museu de Geologia dando azar e provocando acontecimentos desastrosos.
            Caso 03 – Uma senhora solicitou ao Percio para que ele indicasse uma drusa para ela comprar e levar de presente para a filha. Ele ouviu uma “vozinha interior”  recomendando-o a escolher uma das cinco drusas disponibilizadas.
            Como explicar estas ocorrências independentemente de pretensas forças energéticas dos cristais?
            Caso 01 – Como o fenômeno não mais se repetiu, para tratar-se de efeito da zircônia ter-se-ia que admitir uma geração descontinua de energia ou uma geração meramente ocasional de energia. Isto porem é inadmissível no âmbito da ciência física.
            O que pode ter acontecido, foi uma extrema sensibilização do Percio, induzindo seu subconsciente e provocando falsas sensações conscientes. Fisicamente nada teria ocorrido, apenas o cérebro passou a admitir que ele sentisse o latejamento e a sensação de azedo. Algo raro, por isso nunca mais se repetiu com ele.
            Caso 02 – Energia de cristal causando azar e, mais que isto, provocando desastres em diversas pessoas não encontra a mínima sustentação racional. A concepção mais simples, lógica e inteligente é a que diz respeito a meras coincidências. Coincidências são por demais frequentes nos diversos campos dos acontecimentos. Às vezes por elas serem surpreendentes deixam de ser consideradas como verdadeiras e buscam-se outras explicações que, no entanto, são fictícias.
            Caso 03 – Para a situação ocorrida devemos colocar em evidência quem é o Percio e o que ele mesmo pensa de si.
            Ora, Percio é um mineralogista de elevada excelência, bastante experiente e reconhecido pela coletividade geológica como um profissional exemplar e dono de um riquíssimo currículo. Apesar de não ser vaidoso, ele mesmo sabe muito bem de seus ótimos predicados.
            Quando a senhora solicitou para o Percio escolher uma das cinco drusas, ele examinou-as atentamente diversas vezes e por serem extremamente semelhantes, ele não encontrou no âmbito de toda sua sabedoria, por mais que procurasse, um critério plausível para a escolha. No fundo de seu raciocínio ele julgou que em hipótese nenhuma ele poderia decepcionar aquela senhora, dizendo para ela levar qualquer uma das drusas, pois ele não sabia diferençá-las.
            Sua personalidade de mineralogista exímio ficou abusivamente atormentada. Houve então uma perturbação mental tamanha que ocasionou a geração de um sentido algo alucinatório que o fez pensar que estava ouvindo uma vozinha – vozinha esta existente tão somente na fértil imaginação do Percio.

            Quanto ao vídeo indicado no blog, é claramente uma interessante representação brincalhona.

            Conclusão – Por haver ausência de razões lógicas e de evidências comprovadas, mantenho-me descrente na propalada energia e no pretenso poder dos cristais. Será o futuro capaz de contestar-me?


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

E A ENERGIA DOS CRISTAIS ? - Motivos para crer e para duvidar





           
           Muitas vezes me perguntaram o que eu acho da falada energia dos cristais, do seu poder de cura, etc. Essas indagações tornaram-se particularmente frequentes quando comecei a coordenar exposições do Museu de Geologia em locais de grande circulação de público, principalmente shopping centers.

            Inicialmente, meus colegas e eu dizíamos que nós trabalhávamos com pesquisa mineral e não com energia dos cristais. Portanto, não sabíamos dizer se ela existia e se funcionava em tratamentos de saúde. Há, porém, pessoas que acreditam nisso - e muito - e que não admitem que um geólogo, profissional que tão bem conhece os minerais, nada saiba sobre o assunto ou, o que é pior, não acredite nele.

Como as perguntas eram frequentes nas exposições, passamos a levar alguns folhetos desses que são distribuídos em lojas que vendem os produtos ditos esotéricos. Eram impressos sobre uso energético das principais pedras preciosas, listas das pedras dos signos, das pedras do mês, etc. Como o conteúdo desses folhetos é um tanto variado, cheguei a fazer uma breve compilação de vários deles. Aí, quando alguém nos perguntava algo sobre a energia dos cristais, meus colegas e eu dizíamos: Não trabalhamos com isso, mas dizem que é assim. E mostrávamos nossa compilação.

Bem, isso era então o que eu dizia aos nossos visitantes, uma resposta atenciosa e polida. Mas, ela não me satisfazia. Eu queria poder dizer que eu acreditava ou não acreditava porque estudara o assunto e me convencera disso, não por ouvir falar. Só que eu não havia estudado o assunto.

Inicialmente, eu julgava que tudo se tratava de fantasia. A crença na cura pelos cristais surgira provavelmente do fascínio que suas formas, cores e brilho  exercem sobre todas as pessoas. É algo realmente fascinante e me parecia natural que nossos ancestrais duvidassem que aquilo fosse simplesmente resultado de um processo físico-químico.

Minha formação acadêmica, por outro lado, não me autorizava a crer que cristais pudessem curar, induzir à meditação, relaxar, etc. O que eu aprendera depois de diplomado também não. Eu poderia então, do alto do meu diploma de geólogo, dizer que era tudo misticismo, pois não havia nada provado cientificamente.

Mas, dizer simplesmente que aquilo não tinha fundamento não era uma atitude intelectualmente honesta. Não faltam exemplos, na história da Ciência, de coisas que eram tidas por fantasia, superstição, e que depois se viu terem um fundamento científico. Há terapias muito antigas e que hoje são aceitas inclusive pela Medicina oficial, como a Acupuntura.  A Homeopatia, do mesmo modo, embora ainda contestada por alguns, é amplamente aceita e reconhecida como especialidade médica.

Meu colega Mário Farina, brilhante geólogo, é dos que não acreditam na energia dos cristais. E tem um bom argumento para isso: se houvesse algum fundamento nessa crença, já se saberia alguma coisa, depois de tanto tempo de uso dessa suposta energia.

De qualquer forma, eu queria poder negar por estar convencido disso em razão de minha experiência pessoal, não pelo que os outros diziam. Por isso, tratei de buscar as informações de que precisava para decidir.

E o que eu penso então sobre tudo isso?  Vamos por partes. Mas quero desde já dizer que, se tenho bons motivos para não acreditar na energia dos cristais, pelas razões que mostrarei, devo também reconhecer que vivi algumas experiências no mínimo intrigantes e que não posso ignorar. Essa conversa vai ser longa, mas é preciso que assim seja para que eu exponha com honestidade o que sei e o que não sei. 
 

RAZÕES PARA DUVIDAR

Vejamos primeiro as razões que eu tenho para duvidar do poder dos cristais de curar ou de exercer alguma ação sobre o ser humano, como acalmá-lo, fortalecê-lo, etc.

Minha busca começou pela leitura de livros sobre energia dos cristais e seu poder de cura.  As duas ou três primeiras obras que li não me convenceram. Um dos livros até parecia bem fundamentado na descrição dos métodos usados na Cristaloterapia (tratamento pelos cristais), mas quando começou a descrever as pedras preciosas usadas para cada tipo de problema o autor demostrou tal desconhecimento de Mineralogia que me fez descrer por completo. Você pode saber curar uma doença com cristais, mas se está usando para isso um mineral e ele é na verdade outro, só vai curar por sorte.

Naquela época em que estava nessa busca (era 1989), eu participava de um grupo que se dedicava, em Porto Alegre, à Bioenergia e Projeciologia e que viria a ser o IUPP - Instituto Universalista de Psicobioenergia e Projeciologia. Um dia, a presidente me pediu que eu proferisse uma palestra para os sócios sobre energia dos cristais. Expliquei-lhe que eu não conhecia o assunto e que, pelo contrário, também eu estava querendo conhecê-lo melhor.

Passado um tempo, ela tornou a fazer o mesmo pedido e eu lhe dei a mesma resposta. Ela então pediu-me que eu procurasse alguém que nos brindasse com a tão desejada palestra.

Dispus-me a fazer isso, mas não precisei procurar. Na mesma hora uma colega mencionou uma pessoa que poderia ser o tal palestrante. Tratava-se de um advogado que, dizia ela, tinha grande experiência no assunto.

Em junho de 1989, tive dois encontros com esse advogado, que foi depois meu aluno de Gemologia. Em ambos a conversa foi muito interessante, mas seria muito longo relatá-las aqui.

No segundo encontro, que durou 3h 30min, ele conheceu minha coleção de minerais e instruiu-me sobre o primeiro passo: como sentir a vibração de um cristal.  Recomendou, para esse aprendizado, que eu escolhesse um cristal de minha coleção, o qual não deveria ser tocado por mais ninguém a partir dali. Ensinou-me como segurá-lo e como buscar sentir a sua energia. Fiz alguns poucos testes, não senti nada e larguei o treinamento. Confesso, pois, que me faltou persistência.

Contei-lhe sobre minha descrença a respeito do assunto com base nos três livros que lera e ele dispôs-se a me emprestar duas obras que me convenceriam, uma delas escrita por um médico indiano.  Recebi os livros, com a orientação de ler só depois de haver testado meus cristais, e li com particular interesse aquele do médico.

Eu pensava encontrar nele algo do tipo de um grupo de tantas pessoas com a doença tal, tratei metade dos pacientes com cristais do mineral tal e a outra metade com recursos médico-farmacêuticos convencionais e os cristais mostraram poder de cura significativamente alto.  Para minha decepção, porém, o que o médico relatava era algo do tipo o paciente X, que tinha a doença Y, foi tratado com cristais do mineral Z e ficou curado depois de n dias ou semanas. Ou seja, não havia um grupo de controle para comparação, de modo que a cura poderia ou não ser decorrente do uso dos cristais.

Muito tempo depois, em 10 de julho de 2001, li, num jornal, que haveria uma palestra sobre energia dos cristais.  Pelo anúncio, parecia ser algo mais sério do que vinha encontrando, e resolvi assistir. Naquela noite, desaprendi bastante. Vejam algumas afirmações feitas pelo palestrante:

- Os minerais têm milhares de anos de idade. (O mais correto seria dizer milhões de anos.)

- Ninguém sabe explicar por que o quartzo é claro se ele é formado por silício, que é escuro, e oxigênio (Existem variedades de quartzo de muitas cores, inclusive preto. O silício tem cor acinzentada, e há muitas centenas de minerais com esse elemento químico, tanto claros quanto escuros.)

- O quartzo tem piezoeletricidade e, assim, se forem atritados dois cristais, um contra o outro, acende-se uma luz no interior deles.  (Ter piezoeletricidade significa que sob efeito de uma pressão o cristal gera correntes elétrica e, em sentido inverso, sob efeito de uma corrente elétrica ele vibra. É o princípio do uso do quartzo em relógios digitais. Mas isso nada tem a ver com luminosidade. Talvez o palestrante estivesse querendo falar em triboluminescência.)

- O cristalino do olho tem esse nome porque nele existem microcristais minerais. (O cristalino é formado por finíssimas camadas celulares com estrutura semelhante à da cebola e mede poucos milímetros de espessura - ver Wikipédia.)

- São descobertos 2.000 minerais novos por ano. (Foram 1.048 entre 1987 e 2003, o que dá 65,5 em média por ano.)

- A mica se esfarela porque tem dureza baixa. (Aqui, ele confundiu dureza com tenacidade. Mica tem baixa dureza, mas se esfarela porque tem baixa tenacidade, que é a resistência a fratura, torção e deformação.)

- A ametista perde a cor quando exposta ao Sol, porque o silício é muito sensível à luz. (Como já foi dito, há muitas centenas de minerais com silício e a sensibilidade à luz solar não é uma característica comum a eles.)

- Algumas pedras ficam mais densas depois de lapidadas, mas eu não sei por quê. (Nem poderia saber porque não há nenhuma razão para uma pedra ficar mais densa depois de lapidada, a não ser que sejam removidas porções porosas. Mas, aí a explicação é óbvia.)

- O diamante incolor é extremamente raro. (Segundo Chaves & Chambel, 99,9% dos diamantes são incolores ou levemente amarelados.  A ABNT classifica os diamantes lapidados, quanto à cor, em absolutamente incolores, excepcionalmente incolores, acentuadamente incolores, nitidamente incolores, aparentemente incolores para só então entrar nas categorias aparentemente coloridos, levemente coloridos, etc. Talvez extremamente raros sejam então os diamantes absolutamente incolores. )

O palestrante recomendou os livros ABC dos Cristais e O Caminho das Pedras, de Antônio Duncan. Vindo de quem vinha a recomendação, não li nenhum deles.

Depois disso, ainda li vários artigos sobre a energia dos cristais, mas nada me acrescentaram. Concluindo, pois, tenho boas razões para duvidar que os cristais tenham uma energia que possa nos influenciar de maneira sensível, curando doenças, por exemplo. Mas, como prometido, mostrarei, a seguir, o outro lado desta moeda.
 

RAZÕES PARA CRER

Eu disse, lá atrás, que os testes que fiz para sentir a energia dos cristais não haviam dado resultado.  Não foi bem assim.

Em agosto de 1989, depois de tentar sem êxito perceber a energia do cristal que eu escolhera para ser “o meu”, resolvi testar um par de brincos de zircônia cúbica que uma pessoa da família vinha usando e me assustei.  Senti um forte latejamento no dedo que estava em contato com a gema e uma estranha sensação de azedo. Como assim, azedo? perguntareis. Afinal, azedume se sente pelo paladar, não pelo tato. Pois, é... Por isso falei em estranha sensação.  Não sei explicar: era no dedo, mas me parecia algo azedo. Outras joias não causaram isso.

A dona da joia vinha tendo problemas de saúde, mas três dias depois falei com o advogado que mencionei, e ele disse que o latejamento não devia ser devido aos problemas de saúde dela, já que eles persistiam mesmo sem ela usar os brincos. Recomendou-me fazer uma descarga energética pisando na terra descalço. Mas, preferi testar os brincos de novo e não mais senti o latejamento. Teriam descarregado espontaneamente por não terem sido mais usados?

= X =

Numa das exposições de que o Museu de Geologia participou com outras entidades, uma colega de trabalho ganhou de presente de uma empresa expositora um pequeno saquinho plástico, com fragmentos de cristais.  Ela veio me mostrar o presente muito impressionada:

- Pércio, sinta só a energia destes cristais!

Olhei para o saquinho e vi que eram fragmentos irregulares de quartzo, alguns deles com claros indícios de terem sido tingidos artificialmente. Pensei comigo, antes de pegá-lo: devem ter dito a ela alguma coisa relacionada aos cristais que a deixou impressionada. Pois, para minha surpresa, ao tocar nos cristais senti sabem o quê?  O mesmo latejamento que sentira tocando no cristal de zircônia cúbica! Não havia dúvida, não era impressão minha. Aliás, como eu disse, eu estava achando que ela é que estava impressionada. Pois os tais cristais me deram a mesma estranha sensação que eu sentira antes. 

O que eles tinham em comum ?  A zircônia cúbica é um material artificial e alguns dos cristais de minha colega haviam sido tingidos artificialmente.  Mera coincidência?

= X =

            Certo dia, quando eu estava trabalhando no Museu de Geologia, um colega de trabalho da gerência administrativa, veio falar comigo meio encabulado, cheio de rodeios, e perguntou se era possível mudar de lugar um determinado mineral. Era uma obsidiana que estava exposta perto da porta de entrada da sua sala de trabalho.

            Eu respondi que podia, sim, mas quis saber a razão do inusitado pedido.

            - É que – disse ele, sempre constrangido – o pessoal está dizendo que desde que essa pedra veio para cá está dando azar.  Contou que uma colega caíra e quebrara o braço; um colega perdera o emprego e um terceiro tivera também um problema sério.

            Eu não tinha razões para acreditar que as desgraças fossem culpa da obsidiana, mas, para tranquilizar o colega, pedi ao estagiário que estava trabalhando comigo que a mudasse de lugar e indiquei um expositor bem afastado dali para seu novo destino.

            Isto foi numa sexta-feira. Na segunda-feira seguinte, o estagiário me contou que, naquele fim de semana, sofrera um acidente de carro...

= X =

            Mas a história mais impressionante aconteceu comigo em São Paulo, em 1991.

            Eu estava participando, com geólogos da CPRM vindos de vários estados, de um treinamento em Geologia Ambiental em Atibaia e fazíamos uma viagem de estudos a Ribeirão Preto. Um dia, por ser domingo, estávamos de folga e saímos a caminhar pela cidade. 

            Acabamos passando por uma feira ao ar livre em que eram vendidos artesanato, roupas, e varias outras coisas. Uma das bancas chamou minha atenção por vender cristais.  Eram cinco drusas de quartzo incolor de uns 15 a 18 cm cada uma.

            Olhei-as e me pareceram todas pouco interessantes. Eram obviamente diferentes umas das outras, mas muito semelhantes, de modo que eu não saberia dizer qual a melhor ou a menos valiosa delas. Deixei-as e segui adiante.

Alguns metros depois, uma senhora veio falar comigo e perguntou se eu podia lhe prestar um grande favor. Disse-me que sua filha lhe pedira que levasse um presente, e ela decidira escolher um das tais drusas de quartzo.  Só que ela não conhecia minerais e não sabia qual devia escolher e, orientada por um colega do grupo, viera falar comigo para saber se eu poderia escolher os cristais por ela.

Concordei, é claro. Não me custava nada fazer aquilo. Mas, enquanto nos dirigíamos para a banca, fui pensando comigo mesmo que critério eu usaria para escolher uma das cinco drusas, pois, como eu disse, elas eram muito semelhantes.

Chegando lá, olhei a primeira drusa e não vi nada de especial; olhei a segunda, e também não me impressionou; olhei a terceira e... surpresa !

Sabem aquela vozinha interior que às vezes fala com a gente ? Pois ela me disse: É essa aí!

Como esta aqui? perguntei a mim mesmo. Ela não tinha nada de especial. Era como as outras todas.

- É essa aí, repetiu a voz interior.    

Ainda sem acreditar muito no que estava acontecendo, olhei a quarta drusa e a quinta e elas nada mostraram de especial. Voltei a olhar para a terceira e de novo me veio a indicação de que ela devia ser a escolhida.

Como eu não tinha mesmo nenhum critério que me permitisse definir qual a melhor das cinco, fiquei com a terceira que alguém me dizia ser a melhor.

Peguei-a, entreguei-a à senhora e lhe disse:

- Não sei por que, mas estão me dizendo que a senhora deve levar esta.

Ela ficou imensamente agradecida e afastou-se muito feliz.

 Bem, dirão vocês que me leram até aqui, este caso nada tem a ver com energia dos cristais; foi uma experiência espiritual.

Tudo bem, pode ter sido um espírito que me disse para escolher aquela drusa e não ela que se mostrou a melhor. Mas, aí eu pergunto: por que foi aquela a escolhida pelo espírito e não qualquer uma das outras?

= X =

            Por fim, convido os caros amigos que tiveram paciência de ler este depoimento até aqui que vejam o vídeo a seguir. Acreditando ou não, vocês hão de ficar, como eu fiquei, impressionado com a segurança e a convicção do guri quando fala respeito da ação dos cristais sobre nosso planeta e o universo: https://www.youtube.com/watch?v=EjKSRVFII_E

            No vídeo, a legenda menciona diamante. Trata-se de erro de tradução; o guri queria dizer losango.

= X =

            Para encerrar: o que, afinal, eu concluo a partir do que vi, ouvi, li e senti?  Existe a tal energia dos cristais?  Pois com toda a convicção e segurança lhes digo: Não sei!