segunda-feira, 20 de junho de 2011

UMA ATRAÇÃO GEOLÓGICA QUE OS PORTO-ALEGRENSES NÃO VEEM



Em um dos logradouros públicos mais frequentados de Porto Alegre, o Parque Farroupilha, há uma atração geológica que pouquíssima gente vê. E não vê porque a administração municipal insiste em não mostrar. Trata-se de um belo tronco de árvore fossilizado que está exposto junto ao lago (foto abaixo), perto do Café. Ele fica junto também a um dos principais caminhos do parque.


Como a estrutura e a textura da madeira estão bem preservadas, apesar de a peça ter 200 milhões de anos de idade, e como não há nada que identifique o fóssil, quem passa pensa que se trata de um tronco atual, resto de uma árvore que morreu ali mesmo.
A algumas dezenas de metros do local, outro fragmento de tronco fóssil, bem menor, igualmente sem identificação. jaz semiencoberto pela vegetação, bem em frente à sede da administração do parque.



Inconformado com o descaso com que vinham sendo tratados os dois fósseis, em 22 de maio de 2003 sugeri a Marcelo Barbosa, jornalista da Zero Hora, que fizesse uma reportagem sobre o assunto. Ele ficou interessado, disse que faria a matéria, entrevistou-me  no dia 6 de junho, mas nada foi publicado. Procurei, tempos depois, outro grande jornal da capital, mas também ignoraram minha sugestão de pauta. Dia 16 de março de 2007, escrevi a Marcela Donini, também da Zero Hora, sugerindo reportagem sobre os troncos fósseis no caderno Bom Fim, mas não tive nenhum retorno.,  Mais tarde, falei sobre isso com um vereador; não sei se ele tomou alguma iniciativa, mas o fato é que os troncos continuaram lá do mesmo jeito, solenemente ignorados.
Lá por 2004, quando eu era coordenador do Museu de Geologia da CPRM, recebemos convite da Prefeitura para participar das atividades da Semana de Ciência e Tecnologia. É um evento anual que, em Porto Alegre, era coordenado por ela, tendo à frente a Secretaria Municipal da Indústria e Comércio (Smic). Aceitamos o convite e participamos de diversas reuniões preparatórias, na primeira das quais a Smic pediu sugestões de atividades a serem desenvolvidas durante o evento. Falei então sobre os troncos sem identificação e propus uma parceria: o Museu de Geologia criaria uma placa de identificação para as duas peças, ou pelo menos para a maior delas, com o nome do fóssil, idade e outras informações, e a Prefeitura se encarregaria de mandar confeccioná-la. Na Semana de Ciência e Tecnologia, se faria a sua instalação, com a presença de representantes da CPRM e da administração municipal.
Nessa época, o tronco menor estava jogado no chão, em meio a outros fragmentos de rocha, como uma pedra qualquer, o que me levava a crer que nem mesmo a Prefeitura sabia que se tratava de fósseis. Narrei aos presentes as minhas fracassadas tentativas de divulgar aquela atração geológica e o representante da Smic me disse que eu devia era procurar a administração do Parque Farroupilha, não a imprensa ou vereadores. Deu-me o nome do engenheiro responsável pelo Parque Farroupilha e fui falar com ele, levando em mãos ofício formalizando a proposta de parceria.
O engenheiro não estava no seu escritório (que fica no próprio parque), mas expus o assunto à funcionária que me atendeu. Como eu esperava, ela ficou muito surpresa e quis saber onde estavam os tais troncos fósseis. Mostrei o menor, que jazia abandonado bem em frente ao escritório em que nos encontrávamos. O outro ela não quis ir ver, embora estivesse perto dali.
O administrador do parque nunca enviou resposta à nossa proposta. Só o que fizeram foi ajeitar melhor o tronco menor, hoje isolado das rochas comuns, embora ainda escondido pela vegetação.
Por que a Prefeitura se recusa a identificar os dois troncos fósseis, duas atrações tão interessantes do Parque Farroupilha ? Não sei responder. A única explicação que encontro é o temor que curiosos comecem a tirar pedaços deles. Se for esse o motivo, acho que deveriam se preocupar menos. Em primeiro lugar porque não é nada fácil quebrar um tronco de sílica maciça. Em segundo porque martelar aquilo vai fazer um barulho facilmente ouvido na sede da administração do parque. Terceiro porque troncos fósseis exatamente como aqueles, mas muito maiores, que existem no acostamento da estrada federal que liga Mata a São Pedro do Sul, no centro do estado, estão há anos expostos ali, junto ao asfalto, inclusive com uma placa que convida os viajantes a visitá-los, e nunca foram depredados, nem mesmo pichados.
Mas, vamos supor que alguém de fato pegue uma marreta e tire algumas lascas do tronco maior, danificando-o seriamente. Tenho certeza que o Museu Guido Borgomanero, de Mata, há de fornecer outro para substituí-lo. Eles doaram uma peça bem maior ao Museu de Geologia e várias outras menores ao Museu Geológico e Cartográfico de Osório. E madeira fóssil é o que não falta naquela região do Estado.
O que falta, sim, é bom senso e disposição à Secretaria Municipal do meio Ambiente, responsável pelo parque, para dar aos fósseis que ali estão o destaque que merecem.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

GEMAS ABUNDANTES E DE GRAÇA!

Muitas pessoas têm sonhos que se repetem com frequência. Alguns são terríveis pesadelos, que apavoram. Mas, outros, felizmente são sonhos bonitos que só dão prazer.

Eu sou uma dessas pessoas que têm um sonho que se repete. Infelizmente, não com a freqüência que eu gostaria, pois é um sonho emocionante. Nele, eu me vejo descobrindo enorme quantidade de minerais lindos, grandes, brilhantes. São tão bonitos que aí vem o lado chato do sonho: eu não consigo me convencer de que estão sendo vistos pela primeira vez. Não é possível, digo para mim mesmo, isso tem que ter dono ! Tantas coisas bonitas num mesmo lugar têm que ser de alguém !

Mas, mesmo assim, mesmo com essa dúvida atroz que me faz hesitar se levo comigo ou não aquelas maravilhas, são sonhos que me fazem feliz e que gosto de ter.

Bem, contei tudo isso para dizer que há sim, na natureza, lugares onde podem ser encontradas pedras preciosas em abundância, fáceis de achar, fáceis de pegar, sem problemas para carregar e, sim, que são de graça ! Mas... – tinha que ter um mas... – são muito pequenininhas...

Falo de areias de praia. As areias de praia são formadas praticamente só de grãos de quartzo incolor. Mas, há alguns locais onde elas mostram manchas escuras, e esses pontos de areias negras são concentrações de minerais mais pesados que o quartzo. A onda traz com ela a areia e, à medida que vai perdendo velocidade, essa areia vai se depositando. Os minerais pesados depositam-se primeiro, e o quartzo que é leve, depois.

Formam-se, assim, concentrações onde podem ser encontrados minerais pretos ou cinza-escuros, como magnetita, ilmenita e schorlita (turmalina preta), junto a outros bem coloridos, como granadas, monazita, epídoto, zircão, espinélio, etc.

Há um desses lugares que eu conheço bem porque colhi amostra da areia negra e mandei analisá-la. É a Praia Vermelha, no Rio de Janeiro (foto da Wikipédia ao lado), ali juntinho ao ponto onde a gente embarca no bondinho que leva ao Pão de Açúcar.

Aquela areia contém várias gemas, como granadas (vermelha e rosa) e turmalina preta.

Como fazer para admirar essas pedras preciosas se são tão pequenas ? A primeira coisa a fazer é coletar a amostra, como eu disse, num ponto onde se concentram minerais escuros. O passo seguinte é lavar essa areia com cuidado para remover o sal da água. Feito isso, deixar a areia secar, ao sol ou num forno. Os grãos ficarão bem soltinhos, facilitando a observação.

Eles podem ser observados a olho nu. As imagens abaixo foram obtidas fotografando a areia sem nenhum equipamento ótico de ampliação. Mas, o ideal é observar com uma lupa binocular. É um aparelho semelhante a um microscópio, mas que aumenta menos e dá uma imagem direta, e não invertida como o microscópio. A imagem aparece bem iluminada e a observação é muito confortável.

Se não conseguir uma lupa dessas, o jeito é usar uma lupa de 10 aumentos, como a usada por geólogos, joalheiros e em laboratórios gemológicos. Aí, a areia terá que estar local bem iluminado e ser mantida bem perto do olho.

Uma coisa é ver os minerais, outra é identificá-los. Como fazer isso ?

A magnetita é fácil. Qualquer ímã comum atrai os grãos do mineral, pois ele é fortemente magnético (do seu nome vem a palavra magnetismo). A primeira coisa a fazer então, após secar a areia lavada, é retirar a magnetita (se houver, claro) com um ímã comum.

Se você não for geólogo ou laboratorista experiente na identificação de minerais em grãos, a separação dos demais é feita em um laboratório de Sedimentologia. Nele, a areia é submetida à ação de um separador eletromagnético.

Muitos minerais são atraídos por um íma, embora não com a mesma facilidade que a magnetita. Então, o que o separador eletromagnético faz é atrair primeiro aqueles mais magnéticos. Depois, aumentando a intensidade da corrente elétrica, ou seja a capacidade de atração do eletroímã, passa-se a amostra de novo e aí ele atrai aqueles um pouco menos magnéticos. Fazem-se novas passagens, sempre aumentando a intensidade da corrente, e outros minerais vão sendo separados, até restar aqueles sem magnetismo.

A areia da Praia Vermelha de que falei mostrou o seguinte comportamento quando submetida a esse processo (e após a separação da magnetita):

a) Minerais atraídos com corrente de 0,3 ampère: ilmenita e granada vermelha.

b) Minerais atraídos com corrente de 0,5 ampère: ilmenita, epídoto e granada rosa;

c) Minerais atraídos com corrente de 0,75 ampère: schorlita.

d) Minerais não atraídos com corrente de 0,75 ampère: estaurolita, monazita, sillimanita, andaluzita, zircão e espinélio.


À esquerda, magnetita separada com íma de mão. À direita, minerais pesados antes da separação, mas já sem a magnetita


Ilmenita e granada vermelha, à esquerda. Ilmenita, epídoto e granada rosa, à direia.


À esquerda, schorlita (turmalina preta). À direita, minerais não atraídos pelo ímã: estaurolita, monazita, sillimanita, andaluzita, zircão e espinélio

Os interessados em fazer uma análise dessas podem procurar, por exemplo, o laboratório do Serviço Geológico do Brasil, em Porto Alegre. A análise custa R$ 180,00.

A ação constante das ondas do mar deixa os grãos de areia tão polidos e tão arredondados que mesmo aqueles de quartzo incolor são muito bonitos quando vistos com dez aumentos ou mais. Quem tiver acesso a uma lupa binocular procure observá-los. Garanto que ficarão surpresos. Aliás, até mesmo prosaicos cristais de sal e de açúcar já surpreendem quando vistos assim.

Nas praias muito abertas, como as do Rio Grande do Sul, onde a ação das ondas é mais enérgica, os grãos costumam ser menores e mais arredondados, pois o desgaste é maior.

O polimento do grão de areia surge em decorrência do atrito dele contra os outros grãos, na presença de água. Nos desertos, esse atrito também existe, mas, por faltar água, os grãos ficam foscos.

Por fim um esclarecimento: a Praia Vermelha tem este nome porque sua areia se mostra avermelhada, mas não pela presença das granadas, e sim pela luz do Sol, no fim do dia.

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Artigo publicado originalmente no Portal das Joias (www.portaldasjoias.com.br).

sábado, 16 de abril de 2011

A ESCRAVIDÃO NEGRA E EU


Uma das músicas que eu mais gosto de ouvir é uma canção norte-americana de fundo religioso, Amazing Grace. Ela é conhecida por todos os habitantes dos EUA e eu mesmo já a ouvi em muitos arranjos, inclusive numa emocionante interpretação no encerramento (ou foi na abertura ?) das Olimpíadas de Los Angeles.
Recentemente descobri que há no, You Tube, um vídeo maravilhoso com uma interpretação dessa música. Digo que o vídeo é maravilhoso porque ele traz, antes da música, muitas informações importantes, conectando coisas que eu sabia e acrescentando outras que eu desconhecia. A interpretação, transbordante de emoção, é de Wintley Phipps. E é ele quem, antes de cantar, ensina que os negro spirituals são músicas compostas apenas com as teclas pretas do piano; que Amazing Grace é também um negro spiritual, mas que sua letra foi escrita, vejam só, pelo comandante de um navio negreiro norte-americano ! O autor da melodia é desconhecido, mas Phipps não tem dúvida de que foi algum escravo, tal o tom de lamento que ela tem. Um lamento que ele sente vir da África Ocidental e que busca reproduzir quando a canta.
Não sei se vocês vão ter paciência para ler este texto até ao fim, por isso estão liberados para fazer uma pausa aqui e assistirem agora ao vídeo. Entrem no Google e digitem História do Hino Amazing Grace. Depois voltem aqui.
Na minha infância, como era de se esperar, meu interesse pela escravidão negra foi praticamente nenhum e ligado apenas a alguns fatos isolados. Aprendi que a libertação dos escravos se deu num dia 13 de maio, coisa para mim fácil de lembrar porque eu nasci nesse dia.
Por essa coincidência, eu ouvia, quando criança, que meu pai chegou a pensar em me dar o nome de Negro. Mas, falou mais alto o bom senso, e ele viu que Negro Branco não seria um nome fácil de carregar pela vida a fora (se bem que eu tinha, naqueles tempos, um colega chamado Lírio Natalino, que me parecia conviver muito bem com seu poético nome). Meu pai conhecia vários desses nomes esdrúxulos e não acredito que tenha pensando seriamente em pôr um Negro Branco na família. Deve ter sido tudo só uma brincadeira dele.
Lá pela 4ª ou 5ª séria do curso primário, tive uma colega mulata, chamada Sueli. Nunca me esqueci dela e uma das razões para isso é que ela também aniversariava no dia 13 de maio. Outra razão para lembrar da Sueli foi o fato de ela, alguns anos depois, ter sido escolhida a primeira (e única, pelo que eu sei) Miss Mulata de Lagoa Vermelha, cidade em que nasci.
Os anos passaram, aprendi o que foi a Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários, mas só. Meus conhecimentos sobre a escravidão negra não foram muito além disso.
Lá por 1990, fazendo pesquisa genealógica no Arquivo Público do Estado, deparei-me, em um dos Livros de Notas de Lagoa Vermelha, uma Carta de Liberdade Condicional. Intrigado, fui ler o documento para saber de que se tratava e constatei que era uma declaração pelo qual um dono de escravos dava liberdade a um dos seus cativos, com a condição de que ele continuasse a lhe prestar serviços gratuitos por certo número de anos. Achei aquilo curioso, mas deixei de lado e fui adiante na minha pesquisa.
Para minha surpresa, verifiquei logo que a seguir muitas outras cartas como aquela foram assinadas perante o tabelião naquele ano (era 1884, quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea). Isso me obrigou a aprofundar-me no assunto, fugindo do meu objetivo inicial, que era a Genealogia. Eu precisava entender aquele fenômeno.
Para encurtar a história, aprendi em algumas semanas muito mais sobre a escravidão negra no Brasil do que em todos os meus 43 anos vividos até ali. Descobri, por exemplo, que a Lei do Ventre Livre e a Lei os Sexagenárias não trouxeram aos escravos os benefícios que se imagina.
Tudo o que os historiadores de Lagoa Vermelha haviam publicado sobre esse assunto até então eram esparsos causos de escravos, praticamente só fatos curiosos, e não registros de importância para a história do município. Com minha pesquisa, tive a gratificante oportunidade de resgatar e publicar muitíssimo mais que isso: foram 160 nomes de escravos, com sexo, idade e estado civil, além dos nomes dos respectivos proprietários. Obtive também algumas informações sobre o movimento abolicionista em Lagoa Vermelha e sobre perseguições a escravos fugidos. Alguns anos depois, a pedido da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Vacaria, publiquei resultados de pesquisa idêntica sobre aquele município, vizinho de Lagoa Vermelha, traçando também um paralelo entre os dois com relação ao emprego da mão-de-obra escrava.
Desde então, o interesse pela escravidão negra não mais me abandonou. Em 1994, a convite da historiadora Profa. Véra Lucia Maciel Barroso, pesquisei e publiquei artigo sobre a presença africana na região nordeste do Rio Grande do Sul, mais precisamente nos municípios que se desmembraram de Santo Antônio da Patrulha, chamados pelo historiador Ruy Ruben Ruschel de Quadrante Histórico Patrulhense.
Nessas pesquisas e leituras, fui sendo tomado por um forte sentimento de empatia pela causa dos escravos. A doutrina espírita kardecista explica tantas coisas que, sem ela e sem a crença na reencarnação a vida na terra é, para mim, totalmente injusta e sem sentido. E é a reencarnação que me ajuda a entender essa empatia pela luta e pelo sofrimento dos escravos trazidos para o Brasil. Sinto de modo muito forte que não fui negro, não fui escravo africano nem proprietário de escravos, mas que, de alguma forma vivi bem aquela realidade. Talvez eu tenha sido um padre que viveu aqueles tempos, mas que muito pouco podia fazer contra um regime tão tremendamente desumano (aliás, este é apenas um de vários indícios que me fazem crer que fui padre em outra vida).
Voltando à música negra, tenho dela vagos conhecimentos: sei algo sobre o jazz e só vim a saber o que era de fato o blues no ano passado quando passei uns dias na Argélia. Lá aprendi que esse ritmo foi trazido para a América pelos negros do norte da África. Afora isso, desde minha adolescência ouvia falar em negro spirituals, sem saber muito bem o que o caracterizava, até assistir à “aula” no vídeo de Wintley Phipps. Das poucas composições desse gênero que conheço, acho algumas bem bonitas (olha o ex-padre falando...).
Bem, se você ainda não assistiu ao vídeo que citei lá no início, faça isso agora. Se já assistiu, assista de novo. Vale a pena vê-lo duas, três, muitas vezes.