quarta-feira, 25 de março de 2026

UM TEMPLO DA GEMOLOGIA

            Em dezembro de 2024, depois de 42 anos residindo em Porto Alegre (RS), mudei de endereço, passando a morar em outra cidade. Além disso, passei os últimos vinte meses me dedicando a um livro que comecei a escrever naquele ano. Por tudo isso, parei de escrever aqui há mais de um ano.  Mas, o livro foi publicado e estou de volta.

A primeira coisa importante a relatar é que em junho do 2025 passei quarenta dias em San Diego, na Califórnia (EUA), e aproveitei para ir a Carlsbad, cidade que fica a 20 min dali.  Em Carlsbad, está o que eu considero  um templo da Gemologia: a sede central do Gemological Institute of América (GIA), a mais importante instituição do mundo na área da Gemologia. O GIA tem onze sedes espalhadas por muitos países, mas aquela é a sede central e a única aberta à visitação. Foi nele que se criou a mundialmente conhecida Regra dos 4 Cs, que resume as características usadas para determinar o valor de uma gema lapidada: color (cor), carat (quilate, ou seja peso), clarity (pureza) e cut (lapidação). 

O GIA oferece diversos cursos de formação para gemólogos e joalheiros e mantém laboratórios de excelente qualidade, onde são feitos trabalhos de identificação e classificação de pedras preciosas procedentes de todo mundo. Os cursos podem ser feitos à distância, mas alguns, com o que dá o título de gemólogo, exigem que o aluno preste exames, no final,  em uma das sedes do Instituto.

         O GIA de Carlsbad tem uma atração que é muito interessante, mesmo para quem não é gemólogo nem se interesse muito por gemas: seu museu. Ele tem algumas peças excepcionais, que justificam plenamente a visita. 

O ingresso é gratuito, mas é preciso agendar a visita. No dia e horário da visita que fiz, havia apenas mais dois visitantes, além de mim e minha mulher. Isso mostra que talvez o agendamento seja exigido não tanto por uma questão de grande fluxo de visitantes, mas para poderem deixar um guia à disposição das visitantes.  E quem nos guiou foi Júlia, que, além de muito simpática, conhece bem as gemas ali expostas.

Em frente ao prédio, há uma bela obra de arte de Bernd Munsteiner, escultor de nome internacional, esculpida em um quartzito com dumortierita procedente da Bahia (Brasil). 





Na fachada da sede do GIA, no alto, há espécie de urna com um tetraedro representando um diamante. Dentro dele, outro sólido, este em forma de brilhante, mostra como é obtido esse tipo de gema lapidada a partir de um cristal de diamante de oito faces.  Um conjunto simples, mas muito significativo.



 Gostei de ver que eles valorizam bastante as gemas brasileiras e que estão muito bem-informados sobre elas.  Nada mais natural, portanto, que exibam ágatas do Rio Grande do Sul, pois são consideradas as mais bonitas do mundo. Mesmo assim, foi com muita emoção que vi ali expostas estas seis placas polidas enormes, medindo cerca de um metro,  provenientes de Soledade (RS). Eu já havia visto placas semelhantes, destas mesmas dimensões, naquela cidade, anos atrás. Mesmo assim, porém, foi emocionante vê-las expostas naquele templo mundial da Gemologia.  O geodo original, descoberto em 2014,  tinha dois metros de comprimento e o GIA obteve dele dezesseis placas como estas. Levaram doze dias para serrar cada uma delas e mais de um ano para polir todas. 



     O olho de tigre que se vê no comércio brasileiro são geralmente peças polidas de formato irregular ou pequenos fragmentos no estado bruto. Mas, o museu do GTA expõe uma placa polida que mede mais de 3,00 m de comprimento por 0,50 m de largura, procedente da região de Pilbara, na Austrália Ocidental.   



Quando vi esta peça, a vários metros de distância, não tive dúvida de que era uma obra de arte feita em vidro. Mas, para meu espanto, quando me aproximei vi que se tratava de um cristal de quartzo com uns 80 cm de altura e 193 kg, com inclusões de rutilo!  E  procedente da Bahia!


                A bela, rara e cara tanzanita:



            O Museu do GIA tem uma belíssima coleção de opalas. Lembrando do preço que se paga por uma lasca desta gema nos garimpos de Pedro II (PI), fiquei tentando imaginar valor comercial destas...

       Os copos com água têm o objetivo de manter o ambiente sempre úmido, impedindo a desidratação das opalas.




Belíssimos topázios brasileiros...


Curiosa coleção de miniaturas de instrumentos musicais feitas com gemas e ouro 14 quilates. O autor é Lothar Hermann, de Idar-Oberstein (Alemanha). 



                Além do Brasil, também o Paquistão está representado por lindas gemas, como esta água-marinha. 



A extrema raridade dos diamantes coloridos é bem  mostrada neste expositor.




            Nenhuma das sedes do GIA fica no Brasil. Mas, fiquei sabendo que ele pretende abrir uma unidade aqui para divulgar as gemas entre os estudantes (em Carlsbad, eles têm uma sala exclusiva para receber crianças).  E nossa guia Júlia confirmou isso. Espero que esse projeto se concretize logo. O Brasil está precisando. 

domingo, 2 de fevereiro de 2025

MINERAIS NÃO DESCARTÁVEIS

Em razão de minha mudança para outra cidade, tive que encaixotar minha coleção de minerais. Não foi uma tarefa que propiciasse recordações intensamente emocionantes como organizar fotos familiares e de viagens, mas também me trouxe reminiscências que emocionam.

Procurei eliminar algumas peças da coleção, até porque minerais pesam bastante. Mas, foi difícil achar alguma coisa para descartar, mesmo consciente da necessidade de praticar o desapego.

Areia nunca foi material que eu gostasse de colecionar, mas como descartar um vidrinho com areia de Cancún que me foi trazida pela minha amiga Lisete Jardim ? Como descartar areia de Roma trazida pela não menos querida amiga Francesca Ducceschi, que, como a Lisete, hoje cata areia em praias do mundo espiritual para amigos mais merecedores delas do que eu?

Minha irmã Mariza, ainda está entre nós mas já não tanto....  Seja como for, como descartar o pedacinho do Coliseu e uma pedrinha que ela coletou na Via Appia, ambas em Roma, quando eu era ainda estudante de Geologia?

Um seixo rolado de calcário dificilmente teria beleza e importância geológica para figurar numa coleção onde predominam as pedras preciosas. Mas, o que eu tenho foi trazido para mim de Ibiza (Espanha), pela querida prima Márcia Gobbato.  Tem que ficar na coleção, não é?

Minha sobrinha Jéssica de Moraes Branco Tavares me surpreendeu o dia em que me deu de presente vários fosseis muito bem preservados que ela mesma coletou em uma praia da Inglaterra quando lá morava.  Estes têm, além do valor estimativo, bom valor paleontológico.

O irmão dela, Pedro Heliodoro, trouxe um valioso presente que não é rocha, nem mineral, mas um pedaço de concreto. Ele sempre ocupou lugar de destaque na minha coleção, primeiro porque foi trazido a meu pedido da Alemanha quando o Guno lá residia; segundo, porque tem um enorme valor histórico: trata-se de um pedaço do muro de Berlim. 

E guardo, por fim, com muito carinho, um seixo rolado que minha amada Jane trouxe de El Calafate, na Patagônia argentina, quando lá esteve, numa das raras viagens a passeio que não fizemos juntos (eu preferi passear em garimpos de Minas Gerais, por sinal uma decisão que se mostrou bem infeliz).

Mais de mil peças da coleção passaram das estantes para cerca de trinta caixas. Mas, lembranças como essas ficarão sempre bem guardadas não só nelas, mas também cá dentro do coração... 


sexta-feira, 1 de novembro de 2024

AS MARAVILHOSAS PEDRAS PRECIOSAS DA SMITHSONIAN INSTITUTION

 

Em Washington, capital dos Estados Unidos, há uma quantidade enorme de museus, como o Museu de Arte das Américas, o Museu do FBI e o Museu do Povo Palestino por exemplo. Todos os museus públicos da cidade oferecem ingresso gratuito e pode-se fotografar livremente o acervo.

No universo museológico da capital americana, destaca-se muito a Smithsonian Institution, um complexo de nada menos de dezenove museus!   Só consegui visitar poucos deles, mas o Museu de História Natural visitei três vezes. Destaco nele a coleção de meteoritos (acho que é a maior do mundo) e uma impressionante coleção de pedras preciosas, brutas e lapidadas.  Algumas delas vou mostrar a seguir.  

Muitas das gemas fantásticas que lá existem foram encontradas no Brasil. Seria muito bom, é claro, se elas estivessem em exibição aqui e não lá. Mas, saber que estão num museu como aquele nos dá garantia de que serão muito bem preservadas e, mais do que isso, nos mostra o real valor das peças brasileiras. Se estivessem em exposição aqui, acharíamos todas surpreendentes, mas lá, ao lado de gemas do mundo inteiro, é que se tem a real importância de que se revestem no cenário museológico internacional. 

A seleção aqui apresentada não foi feita priorizando as gemas do nosso país, mas simplesmente as maiores e/ou mais bonitas.

           O símbolo ct significa quilate e equivale a 200 mg (0,2 g).

  

 Blue Hope  - Famosíssimo diamante, tido como o maior do mundo com cor azul. Esta foto reproduz a que está no mouse pad que uso todos os dias, e que comprei lá naquele museu. O Blue Hope pesa  45,52 ct e foi encontrado na Índia. Tem uma longa história, que começa em 1666, quando foi comprado pelo francês Jean-Baptiste Tavernier. Teve vários donos, o último dos quais, o joalheiro Harry Winston, o doou à Smithsonian Institution em 1958. 

 


 Esfera de quartzo –esfera absolutamente límpida, sem nenhum defeito. É a maior do mundo com essa qualidade. Mede 32,7 cm de diâmetro e pesa nada menos de 48,5 kg.  Olhando-a, me parecia impossível pesar tanto. Mas, usei a fórmula para cálculo do volume de uma esfera e a densidade do quartzo e fiz as contas. O peso é exatamente aquele. Ela provém provavelmente de Myanmar, mas foi lapidada na China entre 1923 e 1924.

 

 Esfera facetada de topázio – esta outra esfera é de topázio, procedente do Brasil. Pesa 12.555 quilates (2,5 kg) e foi lapidada em Idar-Obersteim, na Alemanha, cidade historicamente famosa pela lapidação de gemas.

 

 Esmeralda Chalk – esmeralda de 27,8 ct, procedente da Colômbia, país que produz as melhores esmeraldas do mundo.

 

Heliodoro brasileiro – maravilhoso heliodoro (variedade de berilo, como a esmeralda e a água-marinha), de 2.054 ct, procedente de Itinga, MG. A qualidade da foto é muito ruim porque, além de a gema estar dentro de um expositor fechado, foi fotografada em 2006, com uma máquina fotográfica digital, avançada para a época mas muito inferior à dos celulares de hoje.

  

American Golden Topaz – topázio brasileiro considerado uma das maiores gemas lapidadas do mundo. Pesa 22.892 ct (4,6 kg!), tem 172 facetas e foi encontrado em Minas Gerais. No estado bruto, pesava 11,8 kg (é normal com a lapidação o peso de uma gema ficar reduzido à metade aproximadamente). O trabalho de lapidação, executado por Leon Agee, durou dois anos (o topázio tem uma direção de clivagem perfeita, o que torna sua lapidação uma operação delicada).

 

 Diamantes - o diamante bruto amarelo da esquerda, é o Oppenheimer, de 253,7 ct (a maioria dos diamantes brutos comerciais pesa 0,3 a 1,0 ct). O outro é um diamante português lapidado de 127,01 ct. É o maior diamante lapidado da Smithsonian (pelo menos era em 2006).

  

Quartzo com rutilo – grande bloco de quartzo no estado bruto contendo agulhas de rutilo, procedente de Diamantina (MG). Mede 35 cm x 22 cm x 10 cm.

 


 Rubi Carmen Lúcia - gema lapidada de 23,1 ct, de cor belíssima, procedente de Myanmar. Ela foi doada ao Museu de História Natural pelo Dr. Peter Buck, em memória de sua esposa, a brasileira Carmen Lúcia Buck.  (Foto: Smithsonian Institution) 

 

Safira Logan – gema lapidada de 423 ct, procedente do Sri Lanka. É uma das maiores safiras azuis lapidadas do mundo. Doada à Smithsonian por Rebecca Logan. (Foto: Wikipedia)

  

Tanzanitas – a tanzanita é uma gema muito rara até hoje encontrada apenas na Tanzânia. Elas pesam no total 15 ct e estão circundadas por diamantes que totalizam 24 ct. 

 

Topázio amarelo bruto. Cristal de 50,4 kg, descoberto em Minas Gerais.

 

 

Topázio rosa bruto Cristal de 31,8 kg, procedente também de Minas Gerias.  O cristal ao fundo é o topázio amarelo da foto anterior.

  

 Topázios brasileiros irradiados – belíssimos topázios cuja cor original foi alterada através de irradiação. O da esquerda pesa 7.033 ct e o da direita, 571,5 ct. Ambos procedem de Minas Gerais.

  

Outros topázios brasileiros - mais dois enormes topázios brasileiros de Minas Gerais, o da esquerda, com sua cor natural e o da direita, após tratamento por irradiação. O de cor natural pesa 7.725 ct e o outro, 2.470 ct.

 

Rosser Reeves - rubi de 138,7 ct, com asterismo, proveniente do Sri Lanka. (Foto: Smithsonian Institution)

 

 


Estrela da Ásia - safira de 330 ct, com asterismo, encontrada em Myanmar. (Foto: Smithsonian Institution)

  

Água-Marinha Dom Pedro – esta incrível água-marinha é a maior do mundo com qualidade gemológica. Pesa cerca de 2 kg (10.000 ct) e tem cerca de 35 cm de altura. Foi encontrada em Pedra Azul (MG), na década de 1980 e pesava, no estado bruto, 45 kg.  Foi lapidada nesta forma de obelisco na Alemanha, por Bernd Münsteiner. (Foto: Smithsonian Institution) 

         Quer ver mais gemas lindas daquele museu?  Acesse o site   https://naturalhistory.si.edu/explore/collections/geogallery


  Fotos: Pércio de Moraes Branco, salvo indicação em contrário. 


terça-feira, 15 de outubro de 2024

PHOTOSHOP DO BEM

            Todos sabemos que o uso de Photoshop para melhorar e/ou modificar fotografias é rotina. Como tantas outras, esta é uma ferramenta que pode ser usada para o bem ou para o mal.

Quando se fotografa uma pedra preciosa ou outro mineral qualquer, o uso de um editor de imagens pode tornar sua aparência bem melhor do que realmente é. Isso, é claro, é ilegal se se pretende com a imagem modificada vender aquela gema.  Mas, às vezes a foto que fazemos não capta bem a beleza do mineral ou gema fotografada.

Eu tive esse problema tentando fotografar alguns cristais para meu Dicionário de Mineralogia e Gemologia.  Fiz várias tentativas, com diferentes iluminações, com diferentes fundos e em ambientes variados, mas o resultado nunca era bom, pois não traduzia a real beleza do mineral.

Lembro bem a luta que foi para obter boas fotos de cristais de pirita.  Sua bela cor e seu intenso brilho metálico (em Mineralogia se chama de poder refletor) nunca eram bem captados. Atribuo isso ao forte brilho, na falta de uma explicação melhor.

Diante do problema insolúvel, tentei usar um editor de imagens para ver se conseguia reproduzir a verdadeira cor dos cristais de pirita que estava fotografando.  Eu sabia que estava adulterando a foto obtida, mas com uma intenção nobre, pois não era para melhorar de modo fraudulento sua beleza, mas sim para reproduzi-la o mais fielmente possível.  E é isso que eu chamo de Photoshop do bem.

Abaixo, fotos de pirita que obtive antes e depois de usar um editor de imagem (que não foi o Photoshop).







                


Recentemente, tive a surpresa de saber que alguns colegas gemólogos muito competentes e absolutamente confiáveis e honestos, também fazem isso com certas gemas.  Sim, usamos bastante pra não deixar pedra laranja parecer amarela, pedra verde parecer azul e vice-versa, afirmou um deles. E acrescentou:  Esmeraldas são danadas pra mudar a cor!

Outro gemólogo disse ter enfrentado o mesmo problema com a turmalina Paraíba, mas não na obtenção da foto e sim na sua impressão. O neon da Paraíba é impossível de ser reproduzido com fidelidade na impressão, pois de acordo com a gráfica que nos atendeu, faltam cores disponíveis de tinta para reproduzir, disse ele. Aquela cor aparece lindamente na tela, mas na impressão o azul néon acaba substituído por tons de azul e verde limitados. Isso comprova mais uma vez como o néon da Paraíba é raro realmente.

E prosseguem meus caros colegas:

Geralmente, usamos o Photoshop em um laudo gemológico para que a imagem nele inserida retrate com maior fidelidade possível a cor da pedra analisada, pois nem sempre esta é captada adequadamente no ato da fotografia.

Portanto, não pensem que o Photoshop serve apenas para enganar incautos.



terça-feira, 9 de julho de 2024

UMA FRAUDE SURPREENDENTE

A criatividade dos fraudadores não tem limites. Quem trabalha com gemas sabe muito bem disso. Mesmo assim, às vezes a gente ainda se surpreende. 

O video mostra uma gema que eu não teria a menor dúvida em afirmar que é um diamante bruto.  Pois o gemólogo Felipe C. Pereira, que fez o vídeo, analisou-a e descobriu que é uma moissanita.



A moissanita é a melhor imitação de diamante que existe atualmente e é produzida em laboratório. Pois  pegaram uma moissanita e lapidaram de modo a lhe dar a aparência de um diamante bruto!  Já viram isso, lapidar uma gema para que fique parecendo que ela está no estado bruto?

Obrigado, Felipe, por esta aula. 


sábado, 25 de maio de 2024

A OBSIDIANA

             A lava vulcânica, ao resfriar, solidifica e forma uma rocha, ou seja, um agregado de minerais composto de grãos cristalinos de formato e tamanho variáveis.

A rocha assim formada poderá ser basalto, andesito, riolito, etc., dependendo da composição do material em fusão que saiu do interior da crosta terrestre.  O tamanho dos seus grãos por sua vez, dependerá da velocidade de resfriamento da lava. Quanto mais lento ele for, para uma dada pressão, maiores serão os cristais.  

Se o resfriamento for muito rápido, em vez de se formar grãos de minerais, a lava gera um vidro natural, que difere dos cristais fundamentalmente por não ser formado por um arranjo ordenado de átomos, ou seja, por não ter estrutura cristalina.

A obsidiana é um desses vidros naturais, relativamente fácil de ser reconhecida por ter brilho vítreo, uma fratura conchoidal bem pronunciada e cor escura.  Essa cor usualmente é preta, mas pode ser verde, cinza, marrom, amarelada ou vermelha (obsidiana Mahogany)

A composição química da obsidiana corresponde aproximadamente à do riolito, possuindo 66% a 77% de sílica, 13 % a 18% de alumina, além de água e óxidos diversos.

Em razão de seu brilho e translucidez, ela é usada como gema há mais de 5.000 anos, e é hoje empregada na forma de cabuchões, gemas facetadas, camafeus e entalhes.  A obsidiana procedente do México (Querétaro e Hidalgo) é a preferida para isso.

Abaixo, uma obsidiana típica, medindo 9 x 2 x 6,5 cm. 

Outros países produtores são Geórgia, Itália, Estados Unidos, Hungria, Nova Zelândia e Rússia. No Brasil, pode-se encontrar obsidiana preta nos basaltos do Sul do país. No Rio Grande do Sul, já a encontrei, por exemplo, no Itaimbezinho, Nova Bréscia e Barracão. A ocorrência deste último município prolonga-se além do rio Uruguai, ao longo da BR-470 aparecendo também em Campos Novos, no estado de Santa Catarina.

Testes de polimento feitos, a nosso pedido, com material procedente dessa ocorrência mostraram que a obsidiana tem uma boa resistência física, mas não adquire bom brilho por ser porosa. Como os vidros fabricados, a obsidiana não tem dureza alta (5,0 a 5,5), o que também contribui para um brilho pouco intenso. Mas, meu amigo Osvaldino Rosa coletou amostras de obsidiana em Lagoa Vermelha (RS) e mandou-as lapidar, obtendo excelente resultado (uma gema facetada de 15 x 10 x 5 mm e um cabuchão de 17 x 13 x 7 mm).


No Estados Unidos, em Utah, ocorre uma bela obsidiana preta com porções claras de cristobalita. Ela é facilmente encontrada no mercado brasileiro, onde é chamada de obsidiana floco-de-neve e obsidiana nevada. Abaixo, uma amostra dela, com 11 x 11 x 8 cm.



Na Geórgia, são extraídos blocos enormes de obsidiana preta.


Outra bela obsidiana é a Mahogany, com cores avermelhadas, como a que e vê abaixo, com 9 x 8 x 8 cm. A de cor verde, não sei de onde provém. 


Fotos: Pércio M. Branco, exceto a antepenúltima, obtida no Facebook, Lovely Cats.

Peças da Coleção Percio M. Branco, exceto a última, que pertence ao acervo do Museu de Geologia da CPRM.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

AS SURPREENDENTES E INTRIGANTES ÁGATAS POLIÉDRICAS

     Há muitos tempo, em 1982, ganhei de Carmen Rocha uma estranha ágata que vi em sua loja, em Porto Alegre. Era uma peça pequena (7 cm), mas com uma característica inusitada: tinha forma triangular, com bordos retos, e não curvos como em todas as ágatas. Foi justamente por meu espanto e interesse que ela me deu aquela peça.

     Passei muitos anos tentando entender como aquela ágata havia se formado. A única explicação que encontrei foi que deveria ter havido deposição de sílica num espaço vazio entre paredes de rocha fraturada.

    Anos depois, encontrei à venda, acho que na Feira de Pedras Preciosas de Soledade, outras ágatas como aquela, muitas maiores e mais bonitas. Comprei então uma peça em forma de losango, de 3 cm. 




    
A origem da ágata poliédrica continuou a ser um mistério para mim. E, se eu soubesse o quanto ela era rara, teria comprado outras. Hoje, isso está bem mais difícil.





(As fotos que ilustram este artigo, com exceção das duas primeiras, recebi do meu amigo e colecionador de minerais Alessandro Takeda, sem créditos de autoria).

 Foi somente alguns anos atrás que passei a conhecer melhor a ágata poliédrica, através do excelente artigo Les agates du Sitio Garguelo (Municipe de Cachoeira dos Índios – Paraíba), do Prof. Jacques Pierre Cassedane (Anais da Academia Brasileira de Ciências, 56(2),1984).  Cassedane nos deixou excelentes trabalhos de pesquisa sobre a geologia de gemas brasileiras e este foi um deles.

Em seu trabalho, em que ele chama as peças de ágata de nódulos, não geodos, o mestre informa que eles ocorrem em uma sequência de rochas de idade pré-cambriana, incluindo filitos, xistos, gnaisses, quartzitos, leptinitos e calcário cristalino. A ágata está encaixada em uma rocha vítrea, com estrutura fluidal, que passa irregularmente a uma brecha fina. (Peço desculpas aos leitores, mas este texto terá inevitavelmente muitos termos técnicos.)






As ágatas foram ali extraídas esporadicamente e de forma artesanal entre 1972 e 1978 pelo dono da fazenda, que as enviava para o sul do país. Para isso, foram abertas escavações de até 3 m de profundidade. Os nódulos obtidos tinham dimensões que variavam de alguns centímetros até quase um metro. Eram em geral decimétricos, alongados e com três a cinco faces. As ágatas tinham externamente cores cinza a preta, formando leitos de espessura variável. 

O preenchimento das cavidades por ágata nem sempre foi total. Nestes casos, a superfície interna é mamelonar, feição que nunca aparece na superfície externa. A ausência de qualquer simetria nos nódulos mostra que eles não correspondem a nenhum mineral ou pseudomorfo conhecido. Do mesmo modo, as reentrâncias não correspondem a maclas.






Descritas as ágatas e o ambiente geológico em que elas se formaram, Cassedane procurou explicar o modo como elas surgiram.  Para isso, antes descreveu nada menos de sete possíveis explicações, dadas por diferentes autores, concluindo que nenhuma delas explicava a gênese das ágatas do Sítio Garguelo. Citou também jazimentos semelhantes, em pegmatitos de Minas Gerais, basaltos do Rio Grande do Sul, dolomitos do Paraná e tactitos do Rio Grande do Norte. Uma dessas hipóteses se assemelha à única explicação que me ocorrera: preenchimento de espaços vazios entre colunas de basalto. Mas, ela não se sustenta porque as encaixantes das ágatas da Paraíba são completamente diferentes.

Descartadas as sete hipóteses de formação descritas, Cassedane expôs uma oitava – a sua – sobre como as ágatas poliédricas teriam se formado. Ele descreveu quatro fases na complexa origem dos nódulos.  E, no final de sua hipótese, ele admitiu, vejam só, que essa história geológica complicada talvez deva ser retocada e completada no futuro. Isso deixa clara a extrema complexidade envolvida no processo que nos brindou com essas inusitadas ágatas poliédricas.

Não vou expor aqui sua explicação por ser extensa e muito técnica. Mas, proponho-me a enviar aos interessados o artigo, com ela e muitas outras informações.