segunda-feira, 21 de março de 2016

CLASSIFICAÇÃO DAS SUBSTÂNCIAS GEMOLÓGICAS

          As pedras preciosas compreendem um grande e diversificado grupo de minerais, com mais de cem tipos diferentes apenas no Brasil. Elas fazem parte de um grupo maior, o das gemas, onde são as mais importantes e a grande maioria (quase 90%).  O grupo das gemas, por sua vez, pertence a um grupo ainda maior, que inclui também os metais preciosos e as pedras ornamentais, e que são as substâncias gemológicas.  
           O amplo universo dessas substâncias gemológicas, resumido na tabela vista no final, é, portanto, muito variado, o que contribui para que denominações inadequadas sejam frequentemente usadas.
Sua diversidade está não apenas na origem e composição dessas substâncias, mas também no seu uso.
         Antes de mostrar esses muitos tipos, convém estabelecer o que é uma substância gemológica: é uma substância geralmente natural e inorgânica, utilizada para adorno pessoal ou com fins decorativos.  Poder-se-ia usar como sinônimo material gemológico, mas é preferível não fazê-lo porque alguns autores incluem sob essa denominação apenas os minerais usados para adorno pessoal.
            Quanto à origem, as substâncias gemológicas podem ser divididas em três grupos, já citados:

a)      Gemas (as mais numerosas e mais importantes).
b)      Metais nobres.
c)      Pedras ornamentais.

Gemas
Gema é uma substância gemológica geralmente natural e inorgânica que, por sua raridade, beleza e durabilidade, é usada como adorno pessoal. Minerais de grande beleza, mas que não suportam lapidação ou montagem para uso como adorno pessoal são minerais para coleção, minerais de valor museológico, mas não gemas.
Normalmente a gema é submetida a um processo chamado lapidação, a fim de obter a forma que mais ressalte sua beleza, bem como o máximo de brilho. Assim, uma gema pode ser bruta (no estado natural) ou lapidada. Alguns autores, porém, só consideram gema aquela que sofreu lapidação.
Como foi dito atrás, as gemas são as substâncias gemológicas mais importantes e mais numerosas. Dentre as naturais, 87% aproximadamente são minerais; cerca de 10% são gemas orgânicas e 3% são rochas.
Além das gemas naturais, isto é, aquelas encontradas na natureza e que são divididas em minerais e orgânicas, há mais sete tipos, as gemas artificiais, sintéticas, reconstituídas, tratadas, realçadas, revestidas e compostas.
A pérola cultivada é uma gema orgânica, mas constitui categoria à parte, pois não se enquadra nem na categoria natural nem sintética. Ela é produzida por um processo natural, mas que foi induzido por ação humana.
Gema sintética é aquela produzida em laboratório, mas que existe também na natureza.
Gema artificial é aquela produzida em laboratório, mas sem similar conhecido na natureza.
Gema reconstituída é aquela também produzida em laboratório, por meio da aglomeração ou fusão parcial de fragmentos muito pequenos de uma gema natural.
Gema tratada é o nome dado à gema em que a cor ou outra propriedade foi modificada para lhe dar mais valor. Com relação à cor, o tratamento pode ser para melhorar a cor natural, obter outra cor ou colorir gemas incolores.
Gema realçada é a que teve uma de suas propriedades (geralmente a cor) melhorada artificialmente.
Gema revestida é a denominação dada à gema lapidada sobre cuja superfície se fez depositar uma fina camada, colorida ou não, da mesma substância ou de outro material.  O processo é usado, por exemplo, para esmeraldas.
Chama-se de gema composta aquela formada por duas ou mais partes unidas por cimento ou qualquer outro método artificial. Os componentes podem ser substâncias inorgânicas naturais, sintéticas, ou produtos químicos artificiais. Assim pode-se ter gema sobre gema, gema sobre vidro, gema sobre gema com vidro intercalado, etc.

Metais nobres
Metais nobres é denominação quem se dá ao ouro, à prata e alguns dos metais do grupo da platina (platina, ródio e paládio). São usados como adorno pessoal, sozinhos ou com gemas.
O ouro usado em joias não é ouro puro, mas sim uma liga com 75% ou menos de ouro e 25% ou mais de outros metais (prata, cobre, ferro entre outros), dependendo da cor desejada. 
O ródio normalmente é usado apenas para revestir outro metal.

Pedras ornamentais
As pedras ornamentais são rochas - menos frequentemente minerais - usadas para decoração de interiores ou acabamentos arquitetônicos. Dividem-se em minerais decorativos e rochas ornamentais.
Os minerais decorativos são aqueles utilizados para decoração de interiores (como vasos, cinzeiros, mesas, pesos de papel, estatuetas e incontáveis outras aplicações). Alguns deles são usados também como gema, ou seja, para adorno pessoal. Ex.: sodalita, quartzo rosa, prata, malaquita, lápis-lazúli e ágata.
As rochas ornamentais são representadas principalmente pelos mármores e granitos. O que se chama de granito no comércio e na indústria desses materiais pode ser realmente granito, mas muitas vezes são outras rochas silicáticas, como granodiorito, riolito, tonalito, sienito, etc. Do mesmo modo, o termo mármore pode designar, nesses setores, também calcário, mármore dolomítico e dolomito, todas elas rochas carbonáticas.
Rochas ornamentais são usadas em acabamentos arquitetônicos, cortadas em lajotas, frisos e blocos, regulares ou não, para pisos, colunas, paredes, escadarias, monumentos, etc. como revestimento ou não.
Muitos geólogos talvez não aprovem a denominação pedra ornamental, mas, como ela inclui tanto minerais quanto rochas, é válido chamar assim.  Além disso, em Gemologia o uso da palavra pedra é muito comum.
Como se pode ver, nessa ampla classificação das substâncias gemológicas não aparece nenhuma vez a denominação pedra semipreciosa. A distinção pedra preciosa / semipreciosa é confusa, arbitrária e sem fundamento cientifico ou econômico. Como já está consagrada a denominação pedra preciosa, admite-se seu emprego para designar as gemas em geral, com exceção da pérola cultivada e das gemas orgânicas. Mas, pedra semipreciosa é denominação a abandonar, o que, aliás, já aconteceu na maioria dos países.

CLASSIFICAÇÃO DAS SUBSTÂNCIAS GEMOLÓGICAS


SUBSTÂNCIA

USO
EXEMPLOS TÍPICOS
Gemas
Gemas Naturais
Minerais
Adorno


pessoal
Esmeralda, diamante, tumalinas, granadas, safira, ametista, rubi, etc.
Orgânicas
Coral, âmbar, pérola,
marfim, etc.

Pérolas Cultivadas
Pérolas Biwa, Mabe,
South Sea,  e Taiti,
Gemas Sintéticas
Esmeralda sintética, rubi sintético, diamante sintético, etc.
Gemas Artificiais
Zircônia cúbica, YAG, GGG, fabulita..
Gemas Reconstituídas
Turquesa reconstituída, lápis-lazúli reconstituído, âmbar reconstituído.
Gemas Tratadas
Topázio irradiado, citrino obtido por tratamento de ametista, etc.
Gemas Realçadas
Esmeralda tratada com óleos

Gemas Revestidas

Esmeralda revestida
Gemas Compostas
Gema + gema, gema + vidro, etc.

Metais nobres

Ouro
Ouro 18 K (Ouro 750 ), Ouro 14 K
Prata
Prata 950 (Prata 95), 
Prata 900 (Prata 90)
Grupo da platina
Platina, paládio e ródio.
Pedras ornamentais
Minerais
Decorativos
Decoração
de interiores
Ágata, sodalita, quartzo rosa, prata, malaquita, alabastro, etc.
Rochas ornamentais
Acabamentos arquitetônicos

Mármores, granitos, ardósias, quartzitos, etc.

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

É OURO OU NÃO É ?



Nunca acreditei que o material mostrado na foto e vendido como ouro, nessas garrafinhas com um líquido incolor, fosse mesmo ouro. Este metal tem uma densidade enorme e não flutuaria como se vê, no líquido do vidrinho. 


Flutuar não é bem o termo, porque ele não fica na superfície do líquido; quando agitado, espalha-se nele e só aos poucos vai para o fundo.
O líquido é, claro, pode não ser água, mas mesmo que seja uma substância de densidade bem alta, como é o bromofórmio, acho difícil que o ouro não fique sempre no fundo.
Em janeiro, porém, vi esse material à venda na Smithsonian Institution, em Washington, como ouro, por 8 dólares. Não só dizem que é ouro como dão gratuitamente um cartãozinho descrevendo a história e usos do precioso metal. 
A Smithsonian é muito séria. Daí minha dúvida: será este ouro na verdade uma liga, com ouro, sim, mas em pequena proporção? O líquido não é água, me informaram lá.
            Resolvi expor minha dúvida em vários grupos do Facebook que reúnem colecionadores de minerais. Os comentários postados mostram que a dúvida não é só minha, mas de muita gente.
            Alessandra Silva contou que já teve um vidrinho assim, mas jogou fora, certamente por achar que não tinha valor.  William Campos disse: “Qualquer idiota sabe que não é ouro, mas não informou de onde vem sua convicção.”
Sergio Klein foi mais lúcido e ponderado na sua opinião: “acho que o líquido é glicerina, que é viscosa, e assim os flocos levam mais tempo para se deslocarem. Existem vidros com prata e com cobre, do mesmo jeito. Viscosidade e densidade são coisas bem diferentes, e as pessoas costumam confundir. Creio que o líquido viscoso seja glicerina.”
            Klein traz duas informações importantes: o líquido talvez não seja muito denso, mas sim muito viscoso, o que não me havia ocorrido. E conta que são vendidos vidrinhos também com cobre ou prata, que eu nunca vi.
            Meu amigo gemólogo Rogério Viana Leite conta que no Museu de Gemas que havia no mezanino da Torre de TV em Brasília, onde ele trabalhou, eram vendidos esses vidros com folhas de ouro. Eles inclusive forneciam um certificado de autenticidade. Mas, conta que ele ainda possui dois vidros desses e que em um deles as folhas oxidaram completamente e no outro houve oxidação parcial. E ambos os vidros perderam os líquidos.
            Isso confirma minha suspeita de que se trata de uma liga de ouro, mas com porcentagem muito baixa desse metal, daí a oxidação. E uma pessoa ligada aos distribuidores disse ao Rogério que se trata, sim, de uma liga de ouro de baixa qualidade.
            Rogério informa também que o líquido pode evaporar, informação importante para quem adquire o produto.
            Julio Cesar Bortoluzzi também vende os potes com ouro, no seu museu A Mina, em Gramado (RS). Eles dizem sempre aos clientes que se trata de metal com banho de ouro, banho este que deve ser bem leve até pelo preço de venda dos potes. Julio Cesar postou também que vai entrar em contato com o fabricante, que é de Minas Gerais, para saber a natureza do líquido e para confirmar a qualidade do banho de ouro. E informou que hoje a China produz muito esse produto.
Bortoluzzi chama atenção para o fato de que banho de ouro é uma técnica muito barata.  Um banho tipo flash ou eletroplate, diz ele, levaria essas folhas a custar em torno de R$ 1,00. “Mesmo um banho com 5 milésimos de ouro, que é o banho de bijuterias baratas, seria em torno de R$ 2,00 Então um pote desses com folhas banhadas a ouro é barato mesmo. Pode se importar da China por menos de 1 dólar”, escreveu ele.
            Gabriel Gonçalves não duvida que as folhas sejam banhadas, mas como o ouro é altamente maleável, “talvez a massa total de ouro necessária para fazer as folhas dentro de um potinho seja tão pequena que até valha a pena usar ouro mesmo”, diz ele. Gabriel calcula que um potinho com folhas de 10 micrômetros de espessura e 5 cm² contém aproximadamente 0,1 g de ouro. Como o grama deste metal custa hoje aproximadamente R$ 150,00, cada pote custaria algo em torno de R$ 15,00, logo, pode ser ouro mesmo e não apenas um banho. E acrescenta: “Não sei como isso é fabricado, mas o fato de ele ‘flutuar’ na verdade tem mais a ver com a resistência do fluido causada pela grande área da folha em relação a sua massa. Da mesma forma que uma folha de papel demora mais para ‘afundar’ no ar do que uma bola de boliche, a relação entre a massa da folha, sua área superficial, a densidade e principalmente a viscosidade do líquido fazem com que ela afunde mais devagar.”
            Mauricio Fenilli lembra que “se o líquido for um óleo com alto índice de refração, as folhas parecerão ainda maiores e mais espessas do que realmente são”.
            O geólogo José Eduardo Amaral conta que, no Japão, viu “vodca de batata, também chamada de saquê de batata, com finíssimas folhas de ouro em suspensão. E são folhas de ouro, sim. Quando em repouso, aos poucos vão para o fundo da garrafa, lentamente.  A relação área/massa das folhas de ouro é favorável a isso. “ Confirma, pois, o que pensa Gabriel Gonçalves.  Alex Ribeiro conta que leu sobre “uma cerveja belga, Golden Queen Bee, em que flocos de ouro flutuam no interior. E indica um vídeo sobre isso: www.youtube.com/watch?v=f044levfMQw “.
            Outro comentário foi feito por Van Van e reforça as explicações de Amaral e Gabriel Gonçalves. “El oro es tan maleable que puede trabajarse mediantes golpes para dejar uma lámina tan fina que su espessor llega a unas pocas micras. El oro cuando se encontra em tan  finas láminas pude flotar em agua, aunque ele liquido que acompanha al oro em estes frascos suele ser alcohol que evita que essas delgadas láminas se pegoteen.”
             O geólogo Rodrigo Dal Olmo Sato também acredita que é ouro mesmo. “Tenho essas folhas de ouro, são folhas de ouro utilizadas em restauros de esculturas e molduras douradas. São compradas em lojas especializadas. É ouro, sim.”     

Há, porém, quem acredite que não há nada de ouro realmente. Katherine De Paula acha que “provavelmente é alumínio pintado com tinta dourada impermeável para não enferrujar” e Cleomar Piovesan tem certeza de que são “pequenas lâminas de alumínio dourado com uma mistura de álcool e vaselina vendida como lenda do ouro”.
Então, como ficamos?
Para mim trata-se de ouro, mas na forma de liga ou talvez, revestimento.  O fato de poder oxidar-se completamente assegura que não é ouro puro.
Estaria a Smithsonian Institution, neste caso, enganando os consumidores ?  Não.  Todos nós falamos em anel de ouro, brinco de ouro, pulseira de ouro, etc. mesmo sendo eles feitos com uma liga que tem no máximo 75% de ouro.  Poderia ser mais transparente, isso sim, informando, em letras miúdas a real natureza do material. Aliás, a Smithsonian deveria fazer isso também com as cianitas que vende na loja do museu. Elas têm um brilho e cores muito atraentes, mas que são frutos de um tratamento que as reveste com um óxido metálico.
E com relação ao líquido?  Pelos depoimentos de Sérgio Klein  e Cleomar Piovesan,  acredito que seja glicerina, talvez com álcool também. Álcool apenas não deve ser, pois não tem a mobilidade que seria de se esperar dessa substância.
Mas, continua aguardando notícias de Julio Cesar Bortoluzzi, que vai pedir informações ao seu fornecedor. 

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O VEIO DE HEMATITA


         Vou contar-lhes uma história que só contei para outros geólogos uns vinte anos depois que ela aconteceu. Depois explico por quê.
Na década de 90, estava eu fazendo cadastro de ocorrências minerais na região de Caçapava do Sul (RS), quando, rodando por numa daquelas estradas de terra do interior, vi, à esquerda, uma pedreira de granito abandonada. Parecia nada ter de importante, mas, precisava ser cadastrada, afinal era um ponto onde houvera produção de um bem mineral.
Deixei o carro na estrada, passei a cerca com meu colega e comecei a examinar o afloramento.
Era, como eu esperava, uma pedreira comum, abandonada havia bastante tempo, onde provavelmente fora extraído granito para produção de brita.
Estava eu ali examinando o afloramento, quando, em dado momento, senti um perfume muito agradável. Minha primeira reação foi atribuí-lo a alguma flor silvestre. Mas, eu estava bem no melo da pedreira e não via nenhuma flor. Bem, pensei, pode ser de alguma planta mais distante, com perfume sendo trazido pelo vento. Só que não soprava a mais mínima brisa.
Intrigado, lembrei que os espíritas e espiritualistas em geral dizem que uma das maneiras pelas quais espíritos do bem se manifestam é através de perfume. Assim, na falta de outra explicação, pensei comigo: Bem, se é um bom espírito a origem desse perfume, ótimo, Estou em boa companhia. E continuei meu trabalho.
Feitas as anotações na caderneta de campo, coletada uma amostra, voltamos, meu colega e eu, para o carro.
Quando estávamos a poucos metros dele e da pedreira, vi um veio de quartzo e hematita que atravessava a estrada em diagonal.  Surpreso, pois eu não vira nada quando passarai por ali rumo á pedreira, parei e o examinei usando o martelo. Era algo diferente, que não havíamos encontrado em nenhum outro local. Tinha apenas uns 10 cm de espessura, o que não lhe dava grande importância econômica, mas era uma ocorrência de minério e fero e, como tal, devia ser cadastrada.
A direção do veio mostrava que ele deveria se estender para dentro da pedreira que acabáramos de examinar. Assim, voltamos para lá, até porque na pedreira ele deveria estar menos alterado e, talvez, com espessura maior.
Começamos a procurá-lo e, por mais que andássemos, não conseguíamos encontrar o bendito veio.  Insisti, porém, pois eu estava convencido de que ele deveria aparecer lá, afinal a distância da estrada até ali era muito pequena.
Foi aí que, em dado momento, lembrei-me do intrigante perfume que eu sentira. Será que havia um espirito amigo me mostrando a local do veio?
Eu lembrava perfeitamente do ponto em que sentira o perfume e fui lá. Não deu outra. Ali estava o veio de hematita. O perfume, portanto, tinha por objetivo não me fazer olhar para os lados em busca de uma flor, muito menos olhar para o céu em busca de uma improvável visão espiritual. O objetivo era me fazer olhar para o chão: eu estava pisando num veio de hematita.
Foi uma experiência única, que eu nunca vivera antes nem vivi de novo depois.
E por que eu demorei tanto para contar isso aos meus colegas geólogos? Ora simplesmente porque eles, e em especial meus chefes, poderiam pensar, preocupados (e com uma boa dose de razão), que eu estava fazendo “geologia espiritual”.



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

OS NOMES DOS MINERAIS

  Quando algum amigo ou parente olha minha coleção de minerais, é normal que pergunte o nome de alguns deles.  E quando informo esses nomes, é   comum dizerem:                                                    
- Que nomes complicados!
Há, de fato, espécies minerais cujos nomes podem ser considerados “complicados”, como zektezerita, radhakrishnaíta, jarosewichita e o mais longo de todos, ferriclinoferro-holmquistita sódica.  Mas há nomes extremamente comuns e simples, como quartzo, ouro, pirita, topázio, etc.
Na verdade, mesmo os nomes de minerais mais difíceis de escrever ou pronunciar são até simples se comparados aos nomes de animais e vegetais.  Nestes dois casos, o nome oficial das espécies, ou seja, o nome científico, é formado sempre por duas palavras e ambas em latim.  A pequena pulga, por exemplo, chama-se Pulex irritans. O simpático e onipresnte pardal é o Passer domesticus. A banal cenoura é Daucus carota. E por aí vai.
É comum que animais e plantas recebam diferentes nomes populares conforme o país ou mesmo conforme a região de um mesmo país.  O simpático quero-quero dos gaúchos é o téu-téu dos baianos, e o jerimum deles e a nossa abóbora aqui no Sul. Daí a necessidade de disciplinar o assunto estabelecendo nomes que sejam aceitos e reconhecidos no mundo todo.  E este nome é o nome científico, de duas palavras latinas. É através deles que os cientistas se entendem. Aliás, não só os cientistas. Uma amiga bióloga que estava morando no exterior havia pouco tempo, quando queria comprar peixe olhava num dicionário de português qual era o nome científico do animal. A seguir, num livro de Biologia que tinha em casa, procurava o nome científico e via como o peixe se chama em inglês.  Aí, estava pronta para ir ao mercado. 
Com os minerais, não sei por que, nunca foi adotada a nomenclatura científica latina. Eles recebem um nome de uma só palavra (com raras exceções), variando apenas a terminação. Usualmente, no português brasileiro e no espanhol eles terminam, em –ita ou –lita; no português europeu, francês e no inglês, teminam em –ite ou -lite.
Isso vale para os nomes mais modernos e para os nomes das espécies novas que vão sendo escritas.  Mas, há nomes muito antigos (a Bíblia tem muitos deles) que não seguem essa regra, como jade, esmeralda, rubi, quartzo, mica, etc.
 E quem determina se um nome está correto ou foi bem escolhido?  Para animais e plantas deve haver organizações científicas encarregadas disso, mas não sei quais são. Para os minerais, existe a Comission on New Minerals Nomenclature and Classification, da International Mineralogical Association.  Ela determina não apenas se o nome proposto para um novo mineral está bem escolhido e se ele já não existe (caso em que a proposta é recusada), mas também se a nova espécie foi adequadamente estudada e descrita.

 
E os autores, em que se baseiam para propor o nome de um mineral novo?  Pesquisa que fiz recentemente mostra, em números redondos, que 40 % dos novos nomes homenageiam uma pessoa, como ruifrancoíta (homenagem ao brasileiro Rui Ribeiro Franco); 30% fazem alusão ao local onde o mineral foi descoberto, como bahianita (de Bahia); 21% referem-se à composição química do mineral, como vanadinita, um vanadato (foto) e 6% fazem alusão a alguma propriedade do mineral, como azurita (por ter a cor azul).  Os 3% restantes têm outras origens.
Entre esses 3% que têm outras origens, há muitos casos curiosos e engraçados.  Mas, isso é conversa para outro dia.



terça-feira, 14 de julho de 2015

CRISTAIS QUE NÃO SÃO CRISTAIS


           Cristal é um corpo caracterizado por uma estrutura interna regular, chamada estrutura cristalina. Isso significa que ele é formado por um arranjo ordenado de átomos, íons ou moléculas, o que não acontece, por exemplo, com madeira, plástico e vidro.


            A estrutura interna regular pode se traduzir externamente em faces planas.  A foto abaixo mostra cristais de topázio totalmente limitados por faces planas.

 


 


Como foi dito, o cristal PODE ter faces planas. O exemplo da foto acima é um cristal euédrico, mas, mesmo com estrutura interna regular, externamente o cristal pode ser totalmente irregular (cristal anédrico) ou possuir algumas faces planas, mas não todas (cristal subédrico). Alguns minerais frequentemente formam cristais euédricos. Outros, raramente.
     Abaixo, cristal subédrico de quartzo enfumaçado e cristal anédrico de bornita.
 


 
 Isso decorre das condições de formação; a falta de espaço pode impedir que o cristal se desenvolva de modo completo.

Muitas vezes se ouve a palavra cristal sendo usado como sinônimo de cristal de rocha, que é o nome dado ao quartzo incolor.  Essa simplificação não está correta e deve se evitada.

Mas, eu quero aqui falar é de materiais que são chamados de cristal e que não o são.

Um deles, bem conhecido, é o cristal da Boêmia. Esse material é chamado de cristal, mas trata-se, na verdade, de um vidro de alta qualidade, rico em chumbo, que é usado em obras de arte, vasos, cálices, etc. Sendo um vidro, não tem estrutura cristalina e, portanto, não deveria ser chamado de cristal.
A foto a seguir mostra peças feitas com esse material. (Fonte: pragaturismo.com).



Outro exemplo de material erroneamente chamado de cristal é o Murano. Murano é um arquipélago de sete ilhas da cidade de Veneza (Itália), famoso pela qualidade das obras de arte em vidro que produz. O vidro de Murano (foto abaixo) não contém chumbo, como o da Boêmia, e sim soda. Por isso, seus produtores enfatizam que ele deve ser chamado de vidro de Murano, porque, além de não ter estrutura cristalina ele não é igual ao chamado cristal da Boêmia.
 



Por fim, há o igualmente famoso cristal Swarovski.  Este nome é uma marca registrada conhecida internacionalmente e que identifica um vidro de alta qualidade criado em 1895 na Áustria, por Daniel Swarovski, para imitar o diamante. A partir de 1976, a empresa, até então apenas fornecedora de matéria-prima, desenvolveu seu próprio design e desde então abriu pelo menos seiscentas lojas em todo o mundo, seis delas no Brasil.
  Ao contrário dos anteriores, muito usados em objetos decorativos, na decoração de interiores, este material é largamente empregado para adorno pessoal. 
Abaixo, exemplo de produtos da Swarovski. (Foto:Wikipédia)



Portanto, os chamados cristais da Boêmia, Swarovski e Murano são todos vidros, ainda que de alta qualidade.
 
 
 
 

 

sábado, 9 de maio de 2015

A SERRA DO RIO DO RASTRO, UMA ATRAÇÃO GEOTURÍSTICA


Assim como a praia da Joaquina, em Florianópolis e as praias de Torres, no Rio Grande do Sul, a serra do Rio do Rastro é uma notável atração geoturística.
Ela era antigamente chamada de Serra do Doze e fica entre as cidades catarinenses de Lauro Müller e Bom Jardim da Serra (após a qual vem São Joaquim), sendo acessada pela SC-438.
Apesar de ser muito conhecida como atração turística, poucos sabem, excetuando os geólogos,  que ela tem uma enorme importância também para a geologia do Brasil, particularmente da região Sul, como veremos a seguir.
Eu nunca havia ouvido falar naquela serra, até o dia em que, morando  no Rio de Janeiro, recebi um postal de lá, enviado pelo meu sogro. Aquela estrada na foto, serpenteando por uma distância enorme, me deixou louco de vontade de conhecê-la e com a firme determinação de ir lá na primeira oportunidade, para ver ao vivo aquela que os catarinenses chamam de a mais bela estrada do Brasil.





                                Fotos: Wikipédia (superior) e Verlei Mariot

Quando voltei residir em Porto Alegre, trabalhando no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, não só pude conhecê-la, em 11.02.1981, como passei por lá passei várias vezes, subindo e descendo, a passeio e a trabalho, feliz e preocupado, com bom e com mau tempo, antes e depois de a rodovia ser pavimentada (mas não depois de ganhar iluminação). 

O turismo

A gente sobe, através da SC-438, nada menos de 1.200 metros em apenas 13 km. Se pavimentar uma estrada destas foi uma grande obra, abri-la foi obra muitíssimo mais grandiosa. A decisão de vencer aquela serra, com dificuldades técnicas muito maiores do que as que enfrentaria hoje, merece o reconhecimento de todos os catarinenses e brasileiros. Em 1903, o governador Vidal Ramos inaugurou uma estrada que devia ser bem estreita. Depois, Irineu Bornhausen a alargou, deixando com jeito de estrada mesmo, e Espiridião Amin a pavimentou.
E é aí que se flagra uma grande injustiça: no topo da serra, foi construído um mirante onde se colocou uma placa em homenagem a Bornhausen e que tinha uma bela frase: Parecia impossível, mas com uma tenacidade incrível, ele rasgou, nas rochas da serra do Rio do Rastro, uma estrada que nos une, nos dá vida e nos espanta de beleza.  
Pois bem: com a conclusão das obras de pavimentação, o governador Espiridião Amin mandou colocar (ou permitiu que colocassem) não um, mas dois monumentos, maiores que o primeiro, assinalando a conclusão dos dois trechos da obra realizada em seu governo. Os monumentos são, reconheço uma homenagem merecida. Só que a placa em homenagem a Irineu Bornhausen foi removida. Com isso, quem passa pelo local fica sabendo que Amin mandou pavimentar a estrada, mas não sabe que foi outro governador que a mandou construir, concluindo assim que a abertura e pavimentação foram obra de um governo só. Mas, lá está a belíssima estrada, hoje inclusive iluminada em todo o trecho da serra, com energia eólica.

                                      Foto Verlei Mariot

Se antes da pavimentação passar por ali exigia grande habilidade ao volante, extrema prudência e muita coragem, hoje ela requer apenas boa habilidade e razoável coragem, mas ainda muita prudência. E se você pretende admirar a belíssima paisagem durante o trajeto de subida ou descida, não dirija. Quem está ao volante não consegue olhar para os lados.
O rio do Rastro nasce lá em cima, como um regato, e  vai engrossando à medida que desce. Numa das várias vezes em que desci a serra, soprava lá no topo, um vento extremamente forte. Tão forte que podia desequilibrar e derrubar uma pessoa. Eu estava bem no bordo do planalto, onde começa a descida, e vi que, em certos momentos, vinha lá de baixo uma neblina que logo se desvanecia, para em seguida voltar de novo. Eu não conseguia entender aquilo, pois o dia estava claro, e só fui descobrir o que era quando finalmente comecei a descer.
O vento, forte como era, levantava as águas do rio do Rastro (naquele ponto, apenas um riacho), suspendendo completamente, por alguns segundos, a sua queda! Quando cessava a lufada de vento, as águas voltavam a cair. Novo pé de vento, e lá se iam as águas para o céu!
Que coisa... Não é sempre que se vê um rio ser vencido pela força do vento!



Menos feliz eu fui na noite em que desci ali sozinho, em meio a um denso nevoeiro. Várias vezes precisei parar e dar marcha-a-ré porque estava indo de encontro à mureta de proteção... Felizmente a estrada tem agora iluminação.
Em 21 de julho de 1981, nevou a madrugada inteira. Eu morava em Criciúma (SC) e no dia seguinte, meus colegas e eu decidimos subir a serra para ver a neve. Quando chegamos ao sopé, dava para ver o topo do planalto pintado de branco. Mal começamos a subir, encontramos colegas de trabalho da CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais) fazendo um furo de sonda. E o engenheiro, um mineiro, usava apenas camisa de manga curta!
Em outra ocasião, eu estava lá em cima e de repente fui envolvido por uma nuvem. Ela passava rente ao chão, mas a 1.400 m de altitude!
Coisas estranhas e belas são vistas naquela serra...



A geologia da serra do Rio do Rastro

Como eu disse, a serra do Rio do Rastro é mais que uma belíssima atração turística.  Ele é uma aula de Geologia. Foi nela que se definiu a coluna estratigráfica da Bacia do Paraná, ou seja, ali é que foram estudadas, descritas e denominadas as rochas da grande sequência de formações geológicas que existe nos estados da região Sul e países vizinhos, e que ocupa mais de 1.200.000 km². Foi trabalho do geólogo norte-americano Israel Charles White, entre 1904 e 1906, daí ser aquela sequência de rochas conhecida também pelos geólogos como Coluna White
Não é por acaso, portanto, que unidades estratigráficas como Rio Bonito, Guatá, Passa-Dois, Palermo, Estrada Nova e Rio do Rastro, nomes tão familiares aos geólogos do Sul,  correspondem a topônimos daquela região.



                                          Charles White -  Foto: Wikipédia

Essas rochas encontradas no sul do Brasil aparecem também na África, pois formaram-se antes da separação dos dois continentes. Os basaltos, o final da sequência, começaram a se formar justamente quando teve início essa separação.
Na década de 1980, o DNPM identificou as formações geológicas da coluna estratigráfica com dezessete marcos de concreto fixados junto à estrada (será que ainda existem?). O marco 1 foi colocado na cidade de Lauro Müller, a 200 m de altitude. O marco 17, lá em cima, 17 km adiante, no topo dos derrames basálticos, a 1.400 m de altitude.
No meio desse trecho, havia até um Museu Geológico, que uma chuvarada destruiu e que não foi reconstruído.
O ponto onde a estrada passa de rodovia muito sinuosa para a categoria de pirambeira, tornando-se muito mais íngreme, marca o início do intervalo de basaltos, rochas vulcânicas que, por serem mais resistentes à erosão, deixam o perfil da serra muito mais escarpado. Esses basaltos continuam aflorando até terminar a subida.
Este é o trecho onde é mais difícil dirigir. Mas, em compensação, é o que pode fazer a alegria dos colecionadores de minerais.
Ele é composto por uma sucessão de derrames de lava e cada um desses derrames tem na sua parte superior, uma associação de minerais muito interessantes para coleção.
Para a pavimentação, a estrada precisou ser alargada em vários pontos e, com isso, em muitos lugares podiam-se obter amostras muito boas de minerais variados. Tive o privilégio de passar por ali em 1981, logo depois de a estrada ser pavimentada e vivi uma das minhas melhores experiências de colecionador. Foi bom demais!
Vi um derrame que continha cristais de ametista, heulandita, calcita e escolecita. Logo adiante, outro derrame, este com quartzo enfumaçado, heulandita, calcita, laumontita, ametista, cristal de rocha e obsidiana.  Após mais 1,7 km de estrada, escolecita, estilbita e laumontita.
Eu estava sozinho e queria muito compartilhar aquelas descobertas. Mas, como e com quem?  O jeito que achei foi pegar uma lata de tinta spray que tinha no carro e escrever, abreviadamente, na mureta da estrada, os minerais que encontrava em cada ponto (HEU para heulandita, EST para estilbita, etc.). Por serem abreviaturas, eu sabia que das pessoas que viessem a ler, talvez só os geólogos entendessem. Mas, foi a maneira que achei de compartilhar a emoção das descobertas. Foi também minha única atuação como pichador em toda a minha vida.  E não me arrependo, porque a causa era nobre.
Outra vez, encontrei naquela estrada uma drusa de ametista e fiquei na dúvida se a trazia ou não, pois os cristais eram bonitos, mas o conjunto, bem pesado. Acabei deixando lá, mas marquei bem o lugar para achá-la se viesse a me arrepender. Arrependi-me mesmo, mas alguns meses depois subi a serra, num dia horrível, frio e com chuvisco. Quando cheguei àquele local, desci e encontrei a drusa exatamente onde a deixara. Em menos de um minuto, eu estava de volta ao carro com ela.

Assim é a serra do Rio do Rastro, cheia de surpresas, encantamento, descobertas e emoção.