quarta-feira, 17 de março de 2021

A SURPREENDENTE ÁGATA

               Considero a ágata surpreendente por vários motivos, mas principalmente porque é infinita sua capacidade de nos surpreender com seu arranjos de formas e cores.  Se um colecionador de minerais quiser colecionar só ágatas, ele poderá formar uma grande coleção. Se quiser manter um blog como este escrevendo apenas sobre ela, provavelmente irá conseguir, pelo menos por um bom tempo.

A ágata surpreende também por sua origem, mas, não vou falar sobre isso. Primeiro porque conheço menos sobre esse assunto do que gostaria de conhecer. Segundo porque, como disse Prashnowsky, em 1990, seu processo de formação “é um dos mais fascinantes problemas”.  Mas, se algum leitor tiver boas informações sobre o tema, por favor me mande.

      Entre as muitas variedades de quartzo, há um grupo que reúne as variedades criptocristalinas, aquelas que formam cristais invisíveis a olho nu. Estão nesse grupo o ônix, a cornalina e a ágata.

O que caracteriza esta última gema é sua formação em camadas plano-paralelas ou concêntricas que se traduzem, quando ela é serrada, em faixas de cores ou tons variados, formando desenhos muito diversificados, a ponto de se poder dizer que não há duas ágatas que sejam iguais.

Ela se forma normalmente preenchendo cavidades de rochas, principalmente nas vulcânicas, e sua forma externa traduz a forma da cavidade em que se originou.  

Os padrões de preenchimento

    Os tipos de preenchimento são outro aspecto muito diversificado dessa gema. 

    Para início de conversa, o preenchimento da cavidade da rocha pode ser total ou parcial; pode ser todo com camadas plano-paralelas, todo em camadas concêntricas ou ambos os tipos, com uma camadas concêntricas na parte externa e plano-paralelas no centro.

Vejam um exemplo de preenchimento quase 100% plano-paralelo.


 

Se o preenchimento não é total, fica um espaço vazio (às vezes mais de um), que pode conter ametista, quartzo incolor, calcita, zeólitas ou outros minerais. 

Às vezes o preenchimento começa a se dar por camadas concêntricas, mas lá pelas tantas, além de elas passarem a ser plano-paralelas, destroem parcialmente o arranjo original.

              A superfície externa da ágata é arredondada, mas ela pode ter forma muito diferente da esférica, sendo frequentemente bem alongada. E pode ser bem irregular, como a da foto a seguir.



               É normal haver ágata na arte externa do geodo e quartzo incolor na porção mais interna; mas pode acontecer o contrário e até mesmo ocorrer uma alternância de várias camadas de ágata e de quartzo incolor.           

As cores

            As ágatas do Rio Grande do Sul – o estado que mais a produz no mundo – são muitas vezes cinza a cinza-azuladas, a chamada ágata Umbu. Mas, podem ter cores quentes, como vermelho, laranja, marrom e amarelo (ágata do campo). E podem mostrar cores brancas e preta. 

              As muitas ágatas de cores rosa, verde, azul ou roxa vistas no mercado são obtidas por tingimento (mas, em Queensland, na Austrália, há uma ágata azul que é única no mundo). Como ela é porosa, quando suas cores são pouco atraentes pode ser tingida, obtendo-se assim resultados às vezes muito bons. Para isso, a ágata é imersa, depois de lapidada, em uma solução corante, onde fica por várias semanas, absorvendo o corante, que colore apenas uma porção de alguns milímetros de espessura da sua parte externa. Se o tingimento for feito aquecendo a solução, o processo se torna mais rápido, mas a cor obtida pode não ser estável.

              É importante destacar que esse tingimento, praticado desde o século XIX, não é uma fraude. É um tratamento de gema bem conhecido e que os produtores não escondem. E é tão comum, que a gema tingida tem o mesmo preço de mercado que a de cores naturais.

              Cerca de 90% das ágatas são tingidas, mas, no Rio Grande do Sul, essa porcentagem chega a apenas 40%, já que as belas cores naturais das gemas daqui dispensam o tingimento.  

              Abaixo, duas ágatas de cores naturais, procedentes do Rio Grande do Sul.




              Outro belo exemplar, este do acervo do Museu de Geologia da CPRM.

 


 

              As seguintes são peças tingidas, também do RS.



              Mas, devo lembrar que existe a lindíssima ágata-íris, que mostra as belas cores do arco-íris (foto obtida na internet, sem autoria e sem procedência da ágata).

 


 

Dimensões

              Uma maneira fácil e eficiente de exibir as cores dessa gema é cortá-la em fatias, com serra diamantada e a seguir dar-lhe polimento. Isso mostra muito bem os padrões de preenchimento e as cores. Essas chapas podem medir desde 4-5 cm de diâmetro até em torno de 1 m, estas encontradas também aqui no Rio Grande do Sul. As da foto abaixo estavam à venda, anos atrás, na Exposol, em Soledade (RS). Para ter ideia melhor do tamanho, saibam que o moço simpático da foto mede 1,80 m de altura.

 


     

 A foto a seguir mostra a maior ágata da minha coleção. Ela tem 47 x 17 cm.



 Preenchimentos exóticos

               Muitas vezes a beleza da ágata está nos arranjos exóticos que forma. Algumas são simplesmente incríveis, como as das fotos abaixo. Na primeira foto, uma das peças preferidas de minha coleção: uma chapa de ágata de 22 x 24 cm que lembra um útero e as duas trompas e que tiveram o bom gosto de tingir com cor rosa. 


Vejam que belíssimo exemplo de preenchimento bem ritmado (As três próximas fotos foram obtidas na internet, sem autoria e sem procedência da ágata).


 

 

 Uma curiosa variedade de ágata é a ágata paisagem, cujos desenhos parecem mostrar um panorama natural. Gosto muito desta, embora já tenha visto outras mais impressionantes (foto também da internet sem autoria e sem procedência).

 


 

              A ágata abaixo é incrível. O material que reveste o “pássaro” pode até ser artificial, mas o interior sem dúvida é uma ágata em forma de pássaro (Facebook, sem procedência).


 

              Esta outra pode não primar pela beleza, mas sim pela complexidade de seu preenchimento, um belo desafio a que estuda o assunto.



 E o que dizer das carinhas sorridentes deste vídeo? O geodo foi encontrado no Rio Grande do Sul e soube que está à venda por 10.000 dólares. Os olhos não são pintados, como pode parecer, mas cavidades no geodo.  (Video obtido na internet, sem autoria). 

 



Os objetos decorativos de ágata

    As chapas polidas de que falamos são boas para mostrar as cores e arranjos, mas são uma maneira muito simples de aproveitar a ágata. Ela se presta muitíssimo bem à obtenção de objetos decorativos como pirâmides, apoios para livros (úteis e bonitos, mas que aproveitam mal a gema), caixas, alianças, maçanetas, cabos de talheres, etc. uma variedade de usos cujo único limite é a criatividade de quem os faz.




 

 As ágatas poliédricas

               Em 1982, ganhei da proprietária de uma loja de joias e gemas de Porto Alegre uma intrigante chapa de ágata com limites retos, formando um triângulo.  Ela achou aquilo mera curiosidade e me deu a peça de presente.

Tempos depois, adquiri uma ágata do mesmo tipo, em forma de losango, e continuei mais intrigado do que nunca com o processo de formação daquela gema. Eu supunha, na falta de explicação melhor, que ela se formara no espaço delimitado por um conjunto de fraturas na rocha.

 


 A dúvida persistiu até eu ler artigo do Prof. Jacques Pierre Cassedane, intitulado Les agates du Sítio Garguelo – Municipe de Cachoeira dos Índios – Paraíba, publicado em 1984.  Nele, o Prof.  Cassedane analisou nada menos de oito possíveis origens, propostas por outros pesquisadores, descartando todas elas. Uma das origens preconizadas era aquela que eu imaginava, espaço vazio entre várias fraturas na rocha.

Não vou expor aqui sua teoria, mas quero dizer que ele reconhece ser uma histoire géologique compliquée e passível de ser retomada e completada no futuro.

E esta história très compliquée me acompanha há 54 anos...

CRÉDITOS: salvo informação em contrário, fotos de Pércio de Moraes Branco, de peças de sua coleção de minerais.

terça-feira, 27 de outubro de 2020

OS FANTÁSTICOS BASALTOS COLUNARES

 

     Já mostrei, neste blog, belas imagens de ametistas e ágatas extraídas de basaltos, principalmente do Rio Grande do Sul. Mostrei também os curiosos, belos e delicados dendritos, depósitos de óxido de manganês formados nos mesmos basaltos. Mas, em alguns lugares é o próprio basalto (às vezes, uma rocha semelhante) que nos encanta com uma feição surpreendente, a disjunção colunar.

A lava de composição basáltica ao se resfriar solidifica, formando o basalto. Nesse processo, podem surgir fraturas horizontais paralelas, que permitem obter lajotas, muito usadas, por exemplo, para pisos e calçadas no sul do Brasil e produzidas em grande escala em municípios como Paraí e Nova Prata (RS). Em certos locais, porém, formaram-se não placas horizontais, mas incríveis colunas verticais, limitadas por faces planas, muitas delas com seção hexagonal quase perfeita. É o que os geólogos chamam de disjunção colunar.

Muitos anos atrás, eu li um artigo que descrevia em detalhe o processo de fraturamento que resulta nessas colunas. A explicação não era simples e confesso que não tive paciência para me deter muito nela.

Um estudo muito mais recente, publicado em 2018(*), mostrou que é quando a lava solidifica em temperaturas entre 90 e 140 oC abaixo da temperatura normal de formação do basalto (980 oC) que surgem as tais colunas.  O estudo foi feito por cientistas da Universidade de Liverpool (Inglaterra), em basaltos do vulcão Eyjafjallajökull, da Islândia. 

As colunas podem ter até 30 metros de altura pelo menos e largura que vai de poucos centímetros a até 3 metros.  Costumam ter cinco ou seis faces, mas algumas chegam a sete, e outras não passam de três.

Muitas vezes, talvez na maioria delas, a rocha é, a rigor, diabásio não basalto.  Os dois têm a mesma composição, com a diferença de que o diabásio é uma rocha subvulcânica, pois se forma por resfriamento do magma dentro da crosta, a uma profundidade relativamente pequena enquanto o basalto é vulcânico (forma-se, como foi dito, por resfriamento na superfície). Como o basalto é muito mais abundante, é normal o diabásio ser chamado também de basalto quando não se exige muito rigor científico, como aqui.

  Alguns afloramentos com estrutura colunar são mundialmente famosos. Um deles (foto abaixo) é a Torre do Diabo (Devils Tower), no estado de Wyoming (EUA), cenário do filme Contatos Imediatos de Terceiro Grau. Só que este é formado por uma rocha vulcânica diferente, o fonolito, que se formou, neste caso, invadindo rochas sedimentares (hoje completamente erodidas).

  

 Outro afloramento conhecido mundialmente é a Calçada dos Gigantes (Giant’s Causeway), em Antrim, na Irlanda do Norte, onde foram contadas 40.000 colunas de basalto!

    Devils Postpile, na Califórnia, é mais um afloramento mundialmente conhecido. Nele, é notável a presença de colunas encurvadas em alguns pontos.

 


                No topo do afloramento, algumas colunas mostram claramente o formato hexagonal da seção transversal, como se vê na foto abaixo. 

 


 A Islândia possui também belíssimos afloramentos desse tipo, mostrados alguns nas cinco fotos seguintes. O afloramento da terceira foto pode não ser tão bonito como os outros, mas é muito interessante por associar a formação de colunas com intenso faturamento horizontal. 

 






                Outro local que eu tenho muita vontade de conhecer é a ilha de Staffa, na Escócia que mostra as belas colunas vulcânicas das três fotos abaixo. 

 




               Fotos como essas me deixavam (e deixam) sempre com uma vontade enorme de ver ao vivo esses lugares.

Em 2013, eu estava dando um curso de Gemologia em Tamanrasset, na Argélia (bem no meio do deserto do Saara) e vi, na Casa do Artesanato, um cartaz mostrando um belo morro da região, o monte Hoggar. Eu já vira fotos do Hoggar em vários outros locais, pois ele é muito bonito.  Um dia, porém, ao passar pelo cartaz citado, tive a impressão de que se tratava de um morro de basalto colunar.  Olhei com mais cuidado, e a impressão ficou muito reforçada.

Em um passeio pelo deserto da região que me proporcionaram dias depois, pedi que me levassem lá e – aleluia! - era um belo afloramento de basalto colunar, o maior que eu vira até então. Não fotografei porque lá tudo é (ou era) proibido fotografar.  Mas aí vai uma bela foto da Wikipédia.



Belos afloramentos desse tipo de rocha podem ser vistos igualmente em Portugal (abaixo) e nas ilhas Canárias.



O afloramento seguinte é espetacular, mas lamento não saber informar onde se situa. 

 

               O Brasil tem uma imensa extensão de seu território coberta por basaltos. Vai do Rio Grande do Sul a São Paulo, estendendo-se pelo Uruguai, Paraguai e Argentina.  Apesar dessa grande área basáltica, não conheço nenhum afloramento espetacular como os mostrados até aqui.  Em vários locais, porém, existem afloramentos similares, apenas pequenos e com colunas não tão bem formadas. 

              O melhor que eu vi foi ao norte da cidade de Vacaria, na BR-116, perto de um posto da Polícia Rodoviária Federal. A rocha forma ali colunas poliédricas de três ou quatro faces, e quando estive no local, há mais de vinte anos, eram extraídas peças de até 1 m de comprimento por até 8 cm de largura aproximadamente.  Esse tipo de rocha é usado para revestimento de paredes, sendo comercializado com o nome de basalto palito. Meu colega geólogo Álvaro Santos informou-me que aquele raro afloramento era usado também para obtenção de moirões, empregados nas propriedades rurais da região.  Isso mostra que peças maiores que as que eu vi eram ali extraídas.


Esse afloramento mereceu breve descrição de Josué Camargo Mendes, no seu ótimo livro Conheça o Solo Brasileiro, onde obtive a foto acima.

              Outro município em que encontrei basalto prismático foi num corte de estrada em Nova Bréscia, também no Rio Grande do Sul.

              Meu colega Sérgio Freitas Borges informa que há basalto desse tipo entre Lages e São Joaquim, em Santa Catarina.

              Outro colega, Antônio Pedro Viero, relata a existência de uma pedreira em atividade nesse tipo de rocha em Santo Antonio da Patrulha (RS). É um afloramento que ele considera sensacional e aonde leva sempre seus alunos da Petrologia Ígnea para atividade de campo. Fica um pouco antes do pedágio de Santo Antonio da Patrulha, na BR-290 (Free Way) indo no sentido de Osório. Se não me falha a memória - informa ele - fica no km 25 da Free Way, a esquerda de quem vai para a praia. É uma pedreira de brita da Sultepa. Dá para vê-la da rodovia.

Como geólogo, lamento muito a destruição desses belos afloramentos para fins industriais. O geólogo Prof. Luiz Fernando Scheibe, sente o mesmo. Certamente movido por esse sentimento, ele comprou algumas colunas do tal basalto palito numa loja de pedras para revestimento e montou esta escultura na sacada da sua casa, à qual deu o nome de “Ode ao Diabásio”.


Para encerrar, mais um maravilhoso basalto colunar, este da República Checa.  Não sei se é efeito do ângulo da foto, mas esta imponente “catedral” de basalto me encanta como poucos afloramento desse tipo conseguem encantar. 

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(*)http://www.geologyin.com/2018/04/new-insight-into-how-giants-causeway.html #l4b0M9UwbMrZiW8l.99

 

Créditos:

-  Várias das fontes onde obtive as fotos aqui apresentadas foram citadas no texto, mas outras não sei informar, porque as fotos foram obtidas no Facebook ou na Wikipédia sem essa informação.

- Dados sobre disjunção colunar em geral podem ser obtidos em http://volcano.oregonstate.edu/columnar-jointing.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

METEORITO MUITO GRANDE CAIU ENTRE LAGOA VERMELHA E VACARIA (RS)

No início da madrugada do dia 1º de outubro, um meteorito pesando possivelmente sete a dez toneladas, caiu na região entre Lagoa Vermelha e Vacaria, provavelmente no município de Muitos Capões, no nordeste do Rio Grande do Sul.

Ele causou uma explosão tão grande antes de chegar ao solo que impediu de se ver as estrelas no momento em que ela ocorreu. Isso dificultou, num primeiro momento, definir o que se chama de elipse de dispersão dos seus fragmentos. Além disso, não havia dados sobre os ventos na região, e eles afetam bastante a trajetória dos fragmentos menores. Porém, dados coletados pela Rede Brasileira de Observadores de Meteoros permitirão que seja definida sua trajetória. Por enquanto, está sendo considerada elipse de dispersão a área mostrada na imagem de satélite abaixo (Vacaria é a cidade no centro e bem à direita). A provável trajetória dele está na imagem seguinte (ambas fornecidas pela citada rede).  


A busca pelo meteorito começou logo após sua queda, mas até dia 11 de outubro ainda não tínhamos nenhuma notícia de que alguém houvesse encontrado pelo menos um pequeno fragmento dele.

O grande clarão, que várias câmeras captaram, indica que era um  meteoro grande. Mas, há vários fatores que podem estar dificultando a descoberta.  Conheço bem a região Vacaria – Lagoa Vermelha e sei que são numerosas ali as áreas de lavoura, o que dificulta o acesso e a visualização de fragmentos. Além disso, informações que recebi – ainda não confirmadas – dão conta de que havia vento muito forte na hora da queda. Desse modo, o melhor é buscar fragmentos ao longo das estradas.  

  Procurar um meteorito ou mesmo pequenos fragmentos dele é muito importante porque esses corpos rochosos têm um grande valor científico e podem ter também um grande valor de mercado, pois há muita gente que os coleciona e compra. A importância científica advém do fato de eles serem material com a idade da formação do nosso sistema solar (4,6 bilhões de anos).  Assim, cada um que se coletar é um dado a mais no estudo do nosso planeta e dos demais que circundam o Sol.

    É importante que a busca seja iniciada tão logo esteja definida a elipse de dispersão, porque a grande maioria dos meteoritos se altera facilmente por ação do intemperismo (chuva e sol, por exemplo), passando a se assemelhar a uma rocha comum (a menos que caia num deserto).

    Para a ciência, o tamanho dos fragmentos coletados não importa muito, pois os pequenos e os grandes têm a mesma composição. Para colecionadores, sim, quanto maior ele for maior seu valor comercial e museológico. O meteorito de que falamos poderá ser encontrado em fragmentos de até talvez dezenas de quilos, mas deve-se começar procurando aqueles entre dez e oitenta gramas. À medida em que forem sendo encontrados, ficará mais fácil saber onde procurar os maiores.

    A imensa maioria dos meteoros se fragmenta de modo explosivo ao atingir camadas mais baixas da atmosfera. A pressão aerodinâmica sobre eles se torna tão intensa que se rompem,  caindo no solo em incontáveis pedaços (que só então passam a ser chamados de meteoritos). Há poucos casos de meteoros que chegaram até à superfície sem explodir, abrindo crateras no solo.

A Rede Brasileira de Observadores de Meteoros foi criada em 2014 por Carlos Augusto Di Pietro, que mora em São Paulo. Ela reúne 118 operadores, que monitoram 185 estações em 21 estados. Os operadores são as pessoas que instalam as estações e divulgam os dados coletados por sua(s) câmeras(s) de monitoramento ligada(s)a um computador. A rede usa a sigla Bramon (de Brazilian Meteor Observation Network), não tem fins lucrativos e fornece informações gratuitas para todo o Brasil e outros países.

Geralmente um operador da rede possui uma só câmera. Mas, alguns possuem até dez equipamentos desses, como Carlos Fernando Jung, de Taquara (RS), que possui doze dessas câmeras, cobrindo todo o céu.

A instalação de uma estação é simples e custa entre R$ 300,00 e R$ 1.000,00, informa Carlos Di Pietro. A Bramon conta com pessoal que orienta sobre como fazer isso. A estação pode ser instalada, inclusive por quem mora em apartamento.

Com os dados de duas dessas câmeras, desde que afastadas pelo menos 100 km uma da outra, já dá para traçar a trajetória do meteoro e definir o local de sua queda.

Quem quiser procurar fragmentos de um meteorito caído recentemente, deve buscar pedaços de rocha como os da foto abaixo. 




 Eles são escuros na superfície, com depressões (chamadas regmaglitos) semelhantes às que se formam quando se pressiona uma argila com os dedos. No interior, porém, costumam ser semelhantes a um pedaço de cimento. Deve-se procurar fragmentos pequenos, pois, embora sejam mais difíceis de serem visualizados, para cada fragmento de 500 gramas deve haver uns mil menores. 

O melhor lugar para procura, na elipse de dispersão, são as estradas. Se choveu depois da queda, olhar com cuidado as valetas por onde escorre a água da chuva.

Quem encontrar um fragmento de possível meteorito deve fotografá-lo e enviar a foto ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, onde trabalha astrônoma Maria Elizabeth Zucolotto, a maior especialista em meteoritos do Brasil. O Museu possui um dos poucos laboratórios do mundo capazes de identificar e atestar a autenticidade desse material. Se ela achar que pode ser de fato um meteorito, recomenda-se enviar um fragmento que deve ter pelo menos 30 gramas, já que 5  a 10 gramas são usados para análise e 20 gramas devem ficar depositados no Museu.

Os meteoritos recebem sempre o nome da localidade onde foram encontrados. Assim, talvez eu tenha em breve a satisfação de saber que foi encontrado o meteorito Lagoa Vermelha, nome da cidade em que eu nasci.

 

 


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

MINERAIS EXTRAFÍSICOS - 2

              Este texto é uma continuação daquele que publiquei neste blog em junho de 2014. Quem quiser pode ler primeiro aquele, mas isso não será necessário para entender o que vou expor, pois reproduzo a seguir o início daquela postagem.

 

No início de maio [2014], tive um sonho muito interessante e intrigante.

Eu cheguei a um local onde estava exposto um material muito diferente. Era uma placa em que havia um núcleo mais ou menos circular, formado por um mineral preto, parcialmente envolvido por outro mineral, este dourado.

A partir daquele núcleo saíam, em todas as direções, hastes meio irregulares do mesmo mineral preto.

Era um conjunto estranho e ao mesmo tempo muito interessante. Nunca vi algo similar e não sei se isso existe na natureza, mas, é claro, não se pode duvidar disso.

Não sei também se o local onde a peça estava exposta era loja ou exposição. Mas, sei que ela estava à venda e que, paradoxalmente, não me interessei em comprar, supondo, eu acho, que seria muito cara.

Junto a ela, dois professores universitários, geólogos, admiravam o material. Eram um homem e uma mulher, e foi o homem que, vendo meu interesse, disse o nome do mineral dourado. Era um nome complicado, que não entendi bem e que, ao despertar, não consegui lembrar.

- Este preto eu não sei o que é, acrescentou ele.

Acordei intrigado com aquilo e por vários dias lembrei-me do sonho, recordando nitidamente como eram os minerais. Para que eu não viesse a ser traído pela memória no futuro, depois de uma semana mais ou menos desenhei o que eu havia visto numa folha de papel, como se vê abaixo.

 


               Em maio de 2018, fui aos Estados Unidos visitar a família do meu filho.  Ao entrar na casa deles, ainda com a mala na mão,  tive uma grande surpresa, ou melhor, um susto: na parede da sala, estava exposto o desenho abaixo, feito pelo Lorenzo, meu neto de oito anos. É inegável a semelhança do que ele desenhou com o mineral que eu vi no meu sonho.

  


               Eu não havia contado meu sonho ao Lorenzo nem aos seus pais ou a sua irmã. Aliás, quem sempre demonstrou  muito interesse pelos minerais foi sua irmã, não ele.   

Quando lhe perguntei o que era aquela figura ele disse que era uma flor, mas continuei impressionado do mesmo jeito.

Bem, como eu disse na minha  postagem de 2014, eu nunca vira um mineral semelhante àquele do sonho ou do desenho do Lorenzo. Mas, meses atrás, novo susto/surpresa: encontrei no Facebook a foto abaixo.

São dois minerais. Eu não sabia quais, mas minha cara colega geóloga Andrea Sander me informou que são coríndon (hexagonal, rosado, no centro)  e rutilo (agulhas escuras), procedentes de Eifel (Alemanha). Os cristais devem medir alguns milímetros apenas.  

  

             Foto: Fred Kruijen

 Em junho, nova surpresa. Também no Facebook encontrei a foto abaixo. Trata-se de brochantita, um sulfato básico de cobre, procedente da Austrália.

  

 

 Acho o mineral da segunda foto mais bonito, mas  a associação dos dois primeiros  me parece muito mais misteriosa e mexe mais comigo. Deve ter mais a ver com o mineral do meu sonho. 

De qualquer modo, ambos me mostram que provavelmente em algum lugar do planeta a natureza criou aquilo que eu só vi dormindo.


sexta-feira, 12 de junho de 2020

SOBRE A FORMA DA TERRA


              No Curso Ginasial (últimas séries do atual Ensino Fundamental), a gente aprendia as provas de que a Terra era esférica. A mais clássica delas era a do navio que se aproxima ou se afasta do porto. Quando se aproxima, a gente vê primeiro o mastro depois o casco; quando se afasta, desaparece primeiro o casco, depois o mastro. Outra prova era a sombra de Terra projetada na Lua nos eclipses lunares. E havia ainda uma evidência indireta: se todos os demais planetas do nosso sistema solar são esféricos, por que ela não seria?
Aprendia-se também que nosso planeta não era perfeitamente esférico. “A Terra é achatada nos polos e dilatada no equador”, diziam os livros e os professores. De fato, o diâmetro mede 12.756 km na direção Este-Oeste e 12.714 km na direção Norte-Sul, o que dá uma diferença de 42 km. (O que não me ensinaram é que o raio do polo Norte é 45 m maior que o do polo Sul.)
Mas tarde, aprendi que a forma não é bem esférica, mas sim um tanto parecida com a de uma pera, levemente mais larga no hemisfério Sul do que no Norte.
Por fim, no curso de Geologia, me ensinaram que a forma é bem menos regular e que o mais adequado era chamá-la de geoide (geo=Terra + oide=forma), uma forma que só ela tem.
Em 2011, o satélite Goce, da Agência Espacial Europeia, mostrou uma imagem diferente da forma do nosso planeta, obtida a partir da variação da força de gravidade.  Essa força varia de um local para outro na superfície terrestre, sendo influenciada por grandes massas como as montanhas, e essas diferenças, numa escala exagerada, são visíveis na figura abaixo.


 As cores vermelha a amarela mostram as regiões onde a gravidade é mais forte e as cores azul a violeta, onde ela é mais fraca.
O resultado parece mostrar que o nosso planeta tem a forma de uma batata. Mas, como foi dito, a escala está exagerada. Ele está longe de ser tão irregular assim.
Suponho que a Terra talvez fosse mais esférica do que é se não tivesse sofrido, quando ainda estava em formação, o enorme impacto de um asteroide que lhe arrancou um grande pedaço, que é hoje a nossa Lua. Mas, posso estar errado.
Por fim, para não passar por desinformado, quero deixar claro que sei, sim que há gente por aí dizendo que a Terra é plana.  Mas, não tenho nada a dizer a eles. Meu recado é para aqueles que contestam isso dizendo que  “a Terra não é plana, é redonda”.  Ora, gente, um CD e uma pizza são planos, mas também são redondos. Digam, então, que "a Terra não é plana, é esférica". Ou quase.