sábado, 23 de março de 2013

O SUCESSO DE UM SERVIÇO DE UTILIDADE PÚBLICA




          Uma dos trabalhos mais gratificantes que desenvolvi em minha vida profissional foi decorrência de duas decisões tomadas antes mesmo de concluir o curso universitário.

A primeira foi trabalhar na CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais), empresa onde atuei durante 35 dos primeiros 36 anos de minha vida de geólogo. Eu queria trabalhar naquela empresa, mas a demora em me chamarem me levou inicialmente para outra. O chamado da CPRM veio uma semana depois de eu assumir nesta outra, mas aí preferi ficar ali, só saindo treze meses  depois.

A CPRM era uma empresa de economia mista recém-criada e ninguém sabia ao certo como seria seu futuro. Aliás, seu surgimento foi recebido com críticas de vários brasileiros ilustres, como Roberto Campos e Glycon de Paiva (que era geólogo). Por que então meu entusiasmo e interesse por ela? É que a empresa atuaria em todo o país e em todas as áreas da pesquisa mineral, com exceção de petróleo (que era monopólio da Petrobras) e minerais nucleares (monopólio da Nuclebras).  Essa diversidade de atuação me atraía e, de fato, ela me permitiu trabalhar com mapeamento geológico no Nordeste, com pesquisa de carvão e de gemas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina e com supervisão de projetos no Rio de Janeiro.

      A outra decisão foi falar sobre Geologia com quem era leigo no assunto sempre de um modo acessível, de fácil entendimento, pois era uma ciência, na época da minha formação universitária, muito desconhecida. De certo modo ainda é, mas hoje bem menos.

Esse interesse em divulgar a Geologia e a diversidade de atuação da CPRM me fizeram ver, em 1998, quando já estava nela havia 16 anos, que nenhuma empresa brasileira estava mais capacitada que ela para esclarecer dúvidas do grande público sobre Geologia, fossem jornalistas, professores, alunos ou o cidadão comum. E aí me veio a ideia de propor que a companhia se dispusesse a fazer isso, e num serviço gratuito, já que era uma empresa controlada pelo governo federal.

Em 11 de maio de 1998, atuando na Superintendência Regional de Porto Alegre, depois de haver trabalhado em Salvador, Rio de Janeiro e Criciúma (SC), elaborei um documento propondo a criação do serviço Pergunte a Um Geólogo (PUG). Através dele, a CPRM, mais precisamente a nossa superintendência regional se disporia a responder qualquer consulta técnica sobre Geologia que fosse feita à sua equipe de geólogos e engenheiros. 

Três dias depois, submeti a proposta ao superintendente regional, Cladis Presotto, que a achou “excepcional”. No dia 19 daquele mês, porém, quando ela foi apresentada em uma reunião com todos os gerentes e supervisores (eu era um dos supervisores), a aprovação se deu com algum receio e nenhum entusiasmo.

No início de mês seguinte, divulguei o Pergunte a Um Geólogo em toda a empresa, através de correspondência interna e no dia 24 daquele mês, foi impresso um pequeno folder com mesma finalidade.

Em 3 de julho, o superintendente regional falou sobre a iniciativa numa reunião realizada na sede nacional da empresa, e contou, na volta a Porto Alegre, que a apresentação da ideia fora um sucesso.

O PUG ganha o mundo

Mas, até aí, o PUG andava devagar. Era pouco conhecido e, portanto, pouco utilizado.

Quatro dias depois, entretanto, em 7 de julho de 1998, ele passou a estar disponível na internet, no site da companhia. E aí tudo mudou. Os usuários não precisavam mais mandar suas perguntas por carta, podendo simplesmente usar um e-mail.

Com isso, já no dia seguinte, recebi cinco perguntas e no dia 9, mais duas. E no dia 10, o presidente da CPRM, Carlos Oiti Berbert, reconhecendo a importância da iniciativa, pediu que todas as superintendências regionais (eram umas nove) implantassem o Pergunte a Um Geólogo.

E as perguntas continuaram chegando.

O volume sempre crescente de consultas acabou exigindo uma reunião do superintendente de Porto Alegre com sua secretária, o gerente de Relações Institucionais e Desenvolvimento (Geride) e eu para acertarmos o modo como seriam controladas as respostas enviadas.

Em 27 de julho, uma surpresa: chegou o primeiro pedido procedente do Exterior, mais especificamente do Canadá. Estava indo longe nosso serviço, graças, é claro, ao imenso alcance da internet. 

Problemas

Pela descrição que fiz até aqui, tudo corria às mil maravilhas. Mas, não era assim.

Perguntas relacionadas com minerais, pedras preciosas e alguns outros assuntos eu mesmo respondia. Mas, quando chegavam questões ligadas a áreas que exigiam outros especialistas, era preciso repassar a consulta a eles. E aí começou a haver pequenos problemas.  O Pergunte a Um Geólogo era um trabalho voluntário e sem equipe própria, que dependia da boa vontade dos técnicos da empresa. Só que, compreensivelmente, nem todos estava dispostos a assumir uma tarefa extra, principalmente algo que alguém de outra gerência havia inventado...

O PUG não era um serviço da Geride, nem mesmo da nossa superintendência apenas. Ele devia estar disponível em todas as unidades regionais da CPRM, conforme decidira o presidente. Mas, a boa vontade não era a mesma em todos os setores, e foi preciso ter jogo de cintura para levar a ideia adiante.

Felizmente, veio de cima uma decisão que me tranquilizou: em 27 de julho recebemos memorando dando conta que, a partir daquela data, o Pergunte a Um Geólogo passava a ser um serviço de âmbito nacional, centralizado no Rio de Janeiro. Uma coordenação lá criada receberia as perguntas e as distribuiria entre os membros de uma equipe de voluntários.

Isso me deixou mais tranquilo, mas também com uma sensação desagradável de perda. Era algo como ver um filho tornar-se adulto e partir, assumindo sua própria vida, escapando ao nosso controle. Era bom, era natural e era necessário, mas foi inevitável um pouco de tristeza também.

Surpreendentemente, porém, continuamos recebendo muitas consultas enviadas diretamente a Porto Alegre, reflexo talvez da grande divulgação que aqui fazíamos do serviço.

Dois anos após a criação do PUG, em 9 de abril de 2000, sua coordenadora nacional, Tania Freire, criou, no site da CPRM, uma página do tipo FAQ (frequently asked questions), reunindo as respostas às perguntas feitas com mais frequência. Com isso, os usuários eram aconselhados a consultar aquela página antes de enviar sua consulta, pois a resposta desejada podia já estar lá.


      O sucesso do Pergunte a Um Geólogo continuou crescendo, e, em 20 de outubro de 2006, a revista Planeta incluiu-o na seção Sites que Valem Ouro, mantida pela revista.

Laços que não se rompem. O Canal Escola.

    Em julho de 2007, desliguei-me da CPRM e, fazendo isso, pensava estar me desligando também do serviço de utilidade pública que eu criara nove anos antes. Ledo engano...  A empresa continuou pedindo minha colaboração, enviando-me consultas relacionadas com minerais e gemas, principalmente. Embora já sem vínculo trabalhista com a companhia, o amor à camiseta não me permitiu negar o apoio.

     E um ano depois, em 7 de agosto de 2008, recebi uma proposta surpreendente. Surpreendente e irrecusável. A CPRM propôs me contratar por três meses para revisar e ampliar o FAQ do Pergunte a Um Geólogo, escrevendo artigos de divulgação científica para uma página que seria criada no site da empresa e que se chamaria Canal Escola. A remuneração era boa e o trabalho agradável. Além disso, me permitiria suprir uma deficiência que eu sabia existir: o Pergunte a Um Geólogo, fora sempre uma de muitas atividades que eu desenvolvia na empresa e, por isso, eu só conseguia responder as perguntas de modo bastante resumido. Eram textos curtos, restritos ao que o cliente perguntava. Com o Canal Escola, eu poderia ampliá-los e dar informações adicionais relevantes sobre o assunto.

Esse novo trabalho de divulgação cientifica começou em outubro e, decorridos os três meses do contrato, havia resultado em 22 artigos (ver relação no final). Isso me deixou satisfeito, pois se estava oferecendo agora aos internautas algo bem mais consistente em termos de informação científica.

Passado um tempo, em 2010 tive outra boa surpresa: a CPRM renovou a proposta e fui contratado por mais três meses com a mesma finalidade, e escrevi para o Canal Escola, por coincidência, outros 22 artigos, estes, porém, totalmente inéditos.

Mas, as boas surpresas trazidas pelo Canal Escola não haviam acabado. Ele passou a ser usado não apenas por estudantes e professores, como se esperava, mas também por editoras de livros didáticos. E muitas vezes elas procuraram – e continuam procurando – a CPRM, solicitando autorização para reproduzirem em suas obras, textos existentes no Canal Escola. A empresa tem deixado essa decisão sempre comigo e eu, é claro, sempre concordo. Não fosse assim, eu estaria traindo os objetivos e princípios que levaram à criação do Canal Escola e traindo também os milhares de estudantes que visitaram o Museu de Geologia da empresa quando eu era seu coordenador e que continuam indo lá em busca de conhecimento sobre Geologia. 
Em 2013, deveremos fazer uma revisão, atualização e ampliação do conteúdo hoje existente, tornando ainda melhor essa fonte de divulgação científica da Geologia. 

Uma história semelhante

Sem saber da história do Pergunte a Um Geólogo, ou conhecendo-a apenas superficialmente, meu filho, Daniel de Moraes Branco, criou um serviço muito semelhante, o Medicínia.    
Trata-se de um site (medicinia.com.br) em que uma equipe de mais de cem médicos responde a dúvidas dos internautas sobre saúde, sem  prescrever tratamento. 
Ao contrário do PUG, desde o início foi organizado em bases muito profissionais, embora o atendimento seja também gratuito. Já o usei duas vezes e me surpreendi com a rapidez e a qualidade das respostas recebidas.




ARTIGOS ESCRITOS PARA O CANAL ESCOLA 
DISPONÍVEIS EM WWW.CPRM.GOV.BR



A Terra em números

Os terremotos

O que são e como se forma os fósseis?

Como identificar os minerais

Mineral, rocha ou pedra?

Os metais preciosos

Como sabemos a idade das rochas

O geólogo e a Geologia

Pedras preciosas, metais nobres e pedras ornamentais

Os minerais e os colecionadores

Coisas que você deve saber sobre a água

Os meteoritos

O real tamanho do nosso planeta

Os dinossauros

Breve história da Terra

Não existem pedras semipreciosas
Fatores que determinam o preço das gemas

As rochas

Os vulcões

A identificação de pedras preciosas lapidadas

Forças que atuam na superfície da Terra

A diversidade das gemas brasileiras

O petróleo

Os minerais argilosos

O âmbar – uma gema com registro de vida

Os elementos que caracterizam o clima

Os pigmentos minerais

A estrutura interna da Terra

Como ser dono de uma mina

Nossos vizinhos do sistema solar

Os desertos

As gemas tratadas

Espeleologia, o estudo das cavernas

Os sistemas cristalinos

O diamante, uma gema singular

O petróleo do pré-sal

As águas minerais

A produção mineral brasileira

Os muitos usos do diatomito

Os corais

A fluorescência dos minerais

O intemperismo e a erosão

Algumas gemas clássicas

A utilidade dos minerais




terça-feira, 1 de janeiro de 2013

UM MINERAL-SÍMBOLO PARA O RIO GRANDE DO SUL

 
            O Rio Grande do Sul tem vários símbolos reconhecidos oficialmente. Sua flor-símbolo é o brinco-de-princesa (Fuchsia regia), cuja escolha esteve envolvida em certa polêmica. Seu animal-símbolo é o cavalo crioulo, tão presente na história e no cotidiano dos gaúchos. A planta-símbolo é a macela (Achyrocline satureioide), ave-símbolo é o quero-quero (Vanellus chilensis), que não é típico do Estado (existe em toda a América do Sul e até na América Central), mas pelo qual os gaúchos têm um carinho muito especial; a bebida é o chimarrão; instrumento musical é a gaita; árvore é a erva-mate (Ilex paraguaiensis) e prato típico é o churrasco, todos aprovados oficialmente por decreto (brinco-de-princesa) ou leis.
            Se escolheu esses vários símbolos oficiais, pode muito bem o Estado escolher também seu mineral-símbolo. Isso não seria nenhuma novidade; o lápis-lazúli, por exemplo, é a pedra-símbolo do Chile e a rodocrosita, da Argentina.
Mas, qual seria o mineral-símbolo do Rio Grande do Sul? Para mim, sem dúvida, a escolha deve contemplar um mineral abundante no Estado, a ponto de poder ser considerado característico dele, e que se destaque pela beleza ou valor econômico. Assim sendo, não vejo outros candidatos que não sejam a ágata e a ametista.
 
 
O Rio Grande do Sul tem as maiores reservas de carvão mineral do Brasil e, com Santa Catarina, é responsável pela quase totalidade da produção brasileira. Mas, apesar do nome, carvão não é mineral e não pode se candidatar a esse título.
Temos então apenas as duas pedras preciosas concorrendo. Só que escolher uma das duas não é nada fácil...
            Em termos de valor econômico, são gemas que não se situam entre as mais caras do mercado, mas a ametista é claramente superior em preço à ágata. Ponto, portanto, para a ametista.
            Em termos de abundância no Estado, podemos encontrar tanto uma quanto a outra na metade norte do Rio Grande do Sul, mais precisamente nas rochas vulcânicas de idade mesozoica, sobretudo nos basaltos. Mas, nessa metade do Estado a ágata é bem mais abundante e mais amplamente distribuída que a ametista, podendo, portanto, ser considerada mais representativa do Estado. Ponto para a ágata.
            Em termos de produção, tanto a ágata quanto a ametista são produzidas em grande quantidade pelo Rio Grande do Sul e mais de 90% dessa produção vão para outros países. O Estado é o maior produtor brasileiro das duas pedras preciosas, que o colocam, junto com o citrino obtido por tratamento térmico da ametista, em segundo lugar entre os maiores produtores brasileiros de gemas, atrás apenas de Minas Gerais. Ponto para as duas, portanto.
            Até aqui, os critérios se aplicam com relativa facilidade. Só que determinam um empate. E quando se começa a falar de beleza, a escolha fica muitíssimo mais complicada. Ágata e ametista são tão diferentes que, simplesmente não dá para confrontá-las. Podemos avaliar a beleza de uma e a beleza de outra, mas sem fazer comparações.
            A ametista tem uma cor violeta que não é das mais comuns no mundo das gemas e pode ser perfeitamente límpida e transparente depois de lapidada. A ágata nunca será transparente (no máximo translúcida), mas as múltiplas cores numa mesma peça e o modo infinitamente variado como elas se distribuem e se combinam tornam cada ágata única, sendo impossível encontrar outra igual a ela. E nesse aspecto as ágatas gaúchas têm fama mundial, não sendo raro encontrarem-se fotografias delas em livros de Gemologia. Em termos de beleza, portanto, elas empatam e o placar fica em 3x3.

 
            Podemos falar também do uso. Com belezas bem diferentes, ágata e ametista são também empregadas de modo bastante diverso. A ágata presta-se maravilhosamente bem para objetos decorativos, aqueles que se usa sobre a mesa, como porta-retratos, cinzeiros, cabos de talheres, pesos de papel, porta-copos ou então como chaveiros, maçanetas, móbiles, etc., numa relação de usos cujos limites são os limites da criatividade de cada pessoa. Pode, é claro, ser usada também em objetos de adorno pessoal, como alianças e pingentes, mas não é esse o uso mais comum.  Já a ametista é mineral usado tipicamente para adorno pessoal, em joias de todos os tipos (anéis, brincos, colares, pulseiras, pingentes, abotoaduras, etc.), não em objetos decorativos, exceto quando o objeto é a própria ametista, nos belos agregados cristalinos chamados geodos (“capelas”) que são produzidos (e exportados) em larga escala no Rio Grande do Sul.
            Alguns poderão considerar o uso em joias mais importante, já que elas são em média mais valiosas que os objetos decorativos citados. Mas, haverão de convir que os objetos decorativos são maiores, têm mais visibilidade e dão muito mais liberdade de criação ao designer. Persiste, portanto, em minha opinião, o empate.
            Por fim, há outro aspecto que não pode ser esquecido e que nada tem a ver com Gemologia, Joalheria ou Decoração de Interiores. Caso sejam superadas as dificuldades apontadas acima e se chegue a um consenso, a escolha do mineral-símbolo deverá ser formalizada em documento legal, como foram as escolhas dos demais símbolos mencionados no início. E aí vem o aspecto político da questão.  A Política, queiram ou não, está presente sempre na nossa vida e não pode ser ignorada também neste caso.  Por quê?
Acontece que a produção de ametista no Rio Grande do Sul vem principalmente do município de Ametista do Sul, na região norte do Estado, secundariamente de outros sete municípios situados na mesma região (Iraí, Frederico Westphalen, Planalto, Trindade do Sul, Gramado dos Loureiros, Rodeio Bonito e Cristal do Sul). Já a produção de ágata provém mais da região central do Estado e não está tão concentrada como a de ametista. Desse modo, qualquer que seja a escolha, uma parcela da população do Estado ficará insatisfeita, e esta parcela provavelmente será maior se o mineral-símbolo escolhido for a ametista.  Esta é, então, outra variável a ser considerada nessa difícil escolha.
E se fosse escolhida ágata com ametista como mineral-símbolo do Rio Grande do Sul? A proposta não seria nenhum absurdo, pois pode-se encontrar na natureza geodos contendo as duas gemas. Só que isso não acontece no Rio Grande do Sul com uma frequência que justifique adotar essa associação como pedra símbolo dos gaúchos.
            Por outro lado, como as duas gemas são variedades de quartzo, não se poderia então adotar o quartzo como pedra-símbolo? Decididamente, não, porque existem muitas outras variedades desse mineral, mesmo considerando apenas aquelas usadas como pedra preciosa (ex.: quartzo enfumaçado, quartzo rosa, quartzo rutilado, jaspe, cornalina, cristal de rocha, ônix, etc.).
            Uma saída salomônica seria escolher não um, mas dois minerais-símbolos do Estado, ágata e ametista, o que é diferente de ágata com ametista.
            Deixo aqui aberto o debate. Eu tenho minha preferência, que é fruto de longas e demoradas ponderações, como este texto permite imaginar. Se for chamado a opinar, eu falarei. Mas, há muita gente em condições de opinar também. Com eles, a palavra.


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

COLEÇÃO DE MINERAIS, UM ASSUNTO SÉRIO




Colecionar coisas faz parte da natureza humana e é normal que a gente colecione alguma coisa ou tenha feito isso em alguma fase da nossa vida, ainda que sem método e sem muita dedicação. Moedas, selos, miniaturas de caros, discos, etc. são algumas das muitas coisas que se coleciona mundo afora.

            Eu coleciono minerais. Faço isso há 45 anos, mais precisamente desde março de 1967, quando iniciei o curso de Geologia. Até então, para mim cristais eram substâncias transparentes, com brilho de vidro ou um pouco mais intenso. Quando descobri que existiam também cristais opacos e de brilho metálico, fiquei extremamente surpreso. E decidi: vou colecionar minerais.  Comecei e não parei mais.
            Como eu, acho que muitos estudantes de Geologia começam uma coleção de minerais durante o curso. Mas, poucos continuam fazendo isso quando saem da universidade. Ao longo do período universitário, a beleza e raridade dos cristais nos motivam a colecioná-los, mas, passado esse período, o interesse desaparece ou diminui, permanecendo registrado apenas na posse de algumas poucas peças.
Se são poucos os geólogos que colecionam minerais, mais raros ainda são os colecionadores entre o restante da população. De fato, os brasileiros não valorizam muito esse tipo de coleção, ao contrário do que vê em países como Estados Unidos, Canadá e Itália, por exemplo. Isso é estranho porque o Brasil tem uma fantástica diversidade em temos de pedras preciosas, minerais que se destacam pela beleza e que são avidamente procurados por colecionadores estrangeiros.
Uma consequência negativa disso é a existência de poucos museus de Mineralogia em nosso país. Por isso, acabam indo parar no exterior peças muito valiosas, quando não coleções inteiras, como aconteceu com a excepcional coleção de cristais gigantescos de Ilia Deleff, sobre a qual escrevemos neste blog em julho de 2011.
Em sentido inverso, por haver poucos museus de Mineralogia, não há estímulo para os brasileiros colecionarem minerais, e assim se estabelece um círculo vicioso.
Se pensarmos um pouco, veremos que colecionar minerais tem várias vantagens para nós, geólogos. O manuseio constante dessas substâncias, por exemplo, é a melhor maneira de aprendermos a reconhecê-las macroscopicamente.  A comparação de amostras de um mesmo mineral procedente de diferentes lugares habitua-nos às pequenas variações que a espécie pode exibir no hábito, cor, brilho, etc., o que vai consolidando nosso conhecimento sobre aquele mineral.
Outra vantagem: podemos adquirir peças para nossa coleção sem comprar ou trocar, apenas com nosso próprio trabalho de campo. Além disso, nem sempre dependeremos de um especialista para identificar um mineral adicionado à nossa coleção, ao contrário do que acontece, por exemplo, no mercado de arte, de antiguidades, etc.
Mas, colecionar minerais oferece ainda outras vantagens, seja o colecionador geólogo ou não: pode-se colecionar material procedente do mundo inteiro e até de fora da Terra, como os meteoritos. E é bom lembrar que meteoritos são valiosos não apenas pela raridade, mas também, em certos casos, pela beleza, como é o caso dos pallasitos.
Além disso, minerais são o que pode haver de mais antigo para se colecionar.  Outras coleções podem ter peças com séculos de idade ou mesmo com milhares de anos de existência. Mas, com milhões ou bilhões de anos, só mesmo  minerais, rochas ou fósseis.
Querem mais? Com algumas poucas exceções, os minerais não requerem muito cuidado em sua conservação, ao contrário de obras de arte, selos, etc.

Há, portanto, excelentes motivos para se colecionar minerais, principalmente vivendo no Brasil. Ainda assim, porém, muitas pessoas dirão que, seja como for, colecionar minerais será sempre apenas um passatempo, uma atividade para as horas de lazer. Pois eu respondo: Não necessariamente.

Em 1996, vendi 1.350 peças da minha coleção de minerais (90% do total) para o Museu de Ciências Naturais de uma universidade do Rio Grande do Sul. O professor que intermediou a compra, um geólogo que se tornou, a partir daí, meu amigo, me disse várias vezes que eu vendi barato.  Não concordo muito com ele, mas, mesmo que assim tenha sido, não me importo. O que eu quero dizer é que a venda dessa parte da minha coleção (ela já é grande de novo) me permitiu dar um carro 0 km para minha filha. E ainda sobrou um pouquinho de dinheiro.

 Então, uma coleção bem organizada, com suas peças devidamente catalogadas, pode se tornar bem mais que um passatempo.

Por tudo isso que foi dito até aqui, acho importante que as escolas, a Sociedade Brasileira de Geologia, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia e outras entidades ligadas à Geologia incentivem os estudantes e o público em geral a colecionar minerais.  Quando eu dirigia o Museu de Geologia da CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais), criei um folder intitulado Como Colecionar Minerais, que era amplamente distribuído pelo museu, sobretudo nas exposições por ele promovidas. Nesse folder, ensina-se como organizar a coleção, como obter, guardar e registrar os minerais, como avaliar o acervo, etc.  É uma ferramenta de baixo custo para quem edita e distribui, e muito útil para quem deseja conhecer melhor os minerais e quer ter pelo menos uma pequena coleção.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

VENDO DE PERTO AS ESMERALDAS COLOMBIANAS




                A Colômbia é conhecida como fonte das melhores esmeraldas produzidas atualmente, bem como o país que mais produz essa pedra preciosa (60% da produção mundial). Foi lá também que se encontrou, em 1999, o maior cristal de esmeralda já visto, com 2,5 kg, e que até junho de 2011 pelo menos não havia sido lapidado.    
          Recente viagem a Cartagena, importante cidade turística daquele país, permitiu-me ver de perto essas famosas esmeraldas e comprovar que são, de fato, muito bonitas. Há muitas joalherias espalhadas pela cidade, principalmente na sua parte antiga, e esmeraldas, claro, são a gema que elas mais vendem e exibem, tanto no estado bruto (foto abaixo) quanto lapidado. 

 
            Mesmo sabendo que se está no país que é o maior produtor do mundo, é natural que se tenha dúvida se aquela pedra linda que nos chamou a atenção tem realmente qualidade acima da média e se o preço que pedem por ela está, de fato, abaixo dos preços médios praticados no mercado internacional.  Tudo nos leva a crer que que estamos vendo esmeraldas lindas e a preço mais baixo do que pagaríamos no Brasil, mas será mesmo assim ?
            O Boletim Referencial de Preços, editado no Brasil, informa o preço de duas categorias de esmeraldas colombianas quanto à qualidade: boa (primeira) e excelente (extra). Mas, como o consumidor leigo no assunto pode saber qual é a boa e qual a extra? E qual a que não chega a ser nem boa?
Em Cartagena, uma das joalherias que visitamos reconhece quatro categorias: verde-escura, verde-clara, verde-azulada e verde-amarelada (da mais valiosa para a menos valiosa). Não sei se esta classificação é amplamente usada lá, mas ela existe e é, sem dúvida, bem mais compreensível para quem não é especialista.
Gosto não se discute, não é?  Pois então deixem-me dizer que, para mim, as esmeraldas verde-claras que vi eram mais bonitas, de cor mais viva, que as verde-escuras, que são mais caras.
            E com relação ao preço? São as gemas vendidas em Cartagena realmente mais baratas que as vendidas no Brasil?  Deve-se lembrar que aquela é uma cidade que vive do turismo, e cidades turísticas costumam ter preços altos. Em se tratando de um produto que sabem ser o melhor do mundo, com mais razão ainda pode-se esperar preços altos.
            Uma esmeralda de 2 ct (dois quilates ou 400 miligramas) muito bonita me foi oferecida lá por 3.400 dólares, ou seja, 1.700 dólares por quilate. Consultando de novo o Boletim Referencial de Preços, vê-se que, no Brasil, uma esmeralda colombiana lapidada de 1-2 ct vale entre 1.500 e 2.300 dólares por quilate se for boa e entre 2.300 e 4.500 dólares se for excelente. Gemas de 2 e 3 ct valem 2.500 a 3.500 dólares se forem boas e 3.500 a 8.000 dólares por quilate se forem excelentes. 
Portanto, dá para dizer, que os preços de Cartagena são, sim, baixos em relação aos praticados no Brasil. Mas recomenda-se pechinchar, porque os vendedores sempre reduzem o valor pedido inicialmente (e, além de pechinchar, peça uma esmeralda bruta de brinde).
E as joias de esmeralda vendidas na Colômbia? Pelo que vi, são bonitas, com um design predominantemente clássico. A montagem é feita sobretudo com ouro, tanto branco quanto amarelo. O conjunto acima, em ouro branco, com peças de 12 mm x 8 mm, pode ser comprado por 680 dólares.
            Das muitas joalherias, recomendamos a Joyería Caribe, que tem anexo um pequeno museu. Nele se podem ver esmeraldas brutas  classificadas pela cor, pequena réplica de uma mina subterrânea, cristais brutos belíssimos, como o da foto abaixo (com cerca de 3 cm), soltos ou na rocha, e outras coisas, além de observar ao vivo lapidadores trabalhando.

 

 
 


 


 

 
As esmeraldas colombianas ocorrem em veios com calcita, quartzo e pirita (foto abaixo). Elas provêm de várias minas, algumas das quais já produziam quando os espanhóis chegaram à América do Sul.


 As mais famosas são Muzo, El Chivor e Somondoco, mas há também Coscuez, Maripi, Peña Blanca e La Pita. A zona produtora fica na cordilheira dos Andes e ocupa uma área de 50 km x 250 km. Perguntei se era possível visitar essas minas, mas me disseram que não é uma viagem segura, mesmo para os colombianos. Mas, já foi muito bom ver o que vi em Cartagena.