sábado, 28 de março de 2026

CHUVAS DE PEDRAS PRECIOSAS


Li certa vez que em um satélite de Júpiter chove gasolina. Pode isso?  Eu acho que pode e vejam  por quê.

Na década de 1990, descobriram-se, na atmosfera de Netuno, nuvens estranhas, compostas de um pó muito fino das quais pingam gotas muito  brilhantes. Pesquisa da Universidade da Califórnia mostrou  que essas gotas são simplesmente diamante! A  atmosfera do planeta contém metano e tem 21.000 km de espessura (a da terra tem apenas 100 km), gerando uma pressão  tão alta que transforma o carbono numa chuva de diamante.  O fenômeno ocorre também no planeta Urano.

Anos antes, cientistas da Universidade de Chicago encontraram minúsculos  diamantes em meteoritos. Eles podem ser as partículas mais antigas já  descobertas, anteriores mesmo ao próprio sistema solar. Quando eu digo minúsculo, quero dizer MUITO minúsculos. Segundo aqueles cientistas,  são tão pequenos que trilhões deles caberiam  na cabeça de um alfinete! 

Para Roy Lewis, físico daquela universidade,  isso mostra que a poeira de diamante é relativamente comum no espaço interestelar. Ele acredita que os diamantes se formaram na atmosfera de  uma estrela que estava na fase final de evolução, antes da formação do nosso sistema solar, ou seja há mais de 4,5 bilhões de anos. Quando a estrela explodiu, formando uma nova ou supernova, os diamantes microscópicos se espalharam pelo espaço, mas parte deles permaneceu nos fragmentos da estrela e acabaram caindo aqui na Terra.

              Outra descoberta desse tipo surpreendente teve a participação de brasileiros. Em 1991, o astrônomo Kepler Oliveira Filho, chefe do Departamento de Astronomia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e seus alunos Antônio Kanaan e  Odilon Giovannini,  descobriram uma estrela quando faziam observações com o telescópio do Laboratório Nacional de Astrofísica, em Brasópolis (MG). A estrela, batizada de BPM 37093, chamou a atenção  por pertencer ao grupo das anãs brancas variáveis, estrelas que já consumiram todo seu combustível e implodiram. Elas são pequenas e muito densas, de um tamanho semelhante ao da Terra, mas com uma densidade de 4 toneladas por centímetro cúbico!

A BPM 37093 passou a ser acompanhada por uma associação de astrônomos de treze países da qual Oliveira era presidente.  Em 1997, essa equipe encontrou indícios fortes e que ela poderia, durante sua violenta implosão, ter se transformado em um único cristal de carbono, ou seja, um cristal de diamante.  Esse processo já era discutido desde o início da década de 1960, mas nunca comprovado na prática.  Oliveira disse que era a primeira vez que se observava esse fenômeno em uma estrela do tipo variável.   

Entre 16 de abril e 4 de maio de 1998,  astrônomos do Brasil, Chile, África do Sul, Austrália e Nova Zelândia observaram a estrela durante 24 h por dia, se revezando. Também o telescópio espacial Hubble  foi acionado, quatro vezes, para medir radiações ultravioletas emanadas pela estrela. Não sei o resultado da pesquisa, mas a estrela se mostrava tão maciça e tão fria que acreditavam que 90% deviam estar cristalizados. Antes de implodir, ela era dez vezes maior que o Sol. Hoje, tem apenas o tamanho da Terra, mas pode ser um baita diamante...

Entretanto, o diamante não é a única gema existente no espaço interestelar. Em 2011, astrofísicos da NASA e da Universidade de Toledo, em Ohio, flagraram um tipo de chuva cósmica  formada por cristais  ao redor de uma estrela em formação, a HOPS-68, localizada a 1.350 anos-luz de distância da Terra, na constelação de Órion. A surpresa é que esses cristais são de olivina, um mineral ferromagnesiano usado como gema, comum em rochas vulcânicas. A novidade foi saber que ela se encontra ao redor de estrelas em formação. A olivina exige uma temperatura de 700 °C para se formar, mas foi encontrada ao redor de um astro com temperatura máxima de 170 °C negativos. Os pesquisadores acreditam que ela se formou num local próximo à estrela e hoje se encontra mais afastada. A descoberta ajuda a entender como a olivina pode estar presente em cometas,  que são frios e não possuem atividade vulcânica.

No planeta chamado HAT-P-7b, a mais de 1.100 anos-luz de distância do nosso sistema solar, também chovem pedras preciosas, mas lá são safiras e rubis. Na sua atmosfera, predomina o óxido de alumínio, e as temperaturas podem chegar até 2.000 ºC. Os cientistas afirmam que isso, combinado com ventos intensos, permite que o fenômeno aconteça.

 

Fontes:

WERB, Elton. Um diamante do tamanho da Terra.  Porto Alegre, Zero Hora, 04.05.1978.  p. 4-5.

METEORITOS provam que há diamante no espaço.  R. Janeiro, Jornal do Brasil, 1987.

TESOURO estelar.  S. Paulo, Veja, 14.04.1993. p. 43.

EM Netuno, o ar vira pedra preciosa.  S. Paulo, Superinteressante, jan. 2006, p. 10.

VILICIC, Filipe.  Chuva de cristal nas estrelas.  S. Paulo, Veja, 08.06.2011.  p. 140.

CHUVA de diamantes: o que é e onde ela ocorre?  Olhar Digital, https://olhardigital.com.br/2020/06/29/ciencia-e-espaco/cientistas-explicam-chuva-de-diamantes-em-netuno/, acessado em 28.03.2026.

 


quarta-feira, 25 de março de 2026

UM TEMPLO DA GEMOLOGIA

            Em dezembro de 2024, depois de 42 anos residindo em Porto Alegre (RS), mudei de endereço, passando a morar em outra cidade. Além disso, passei os últimos vinte meses me dedicando a um livro que comecei a escrever naquele ano. Por tudo isso, parei de escrever aqui há mais de um ano.  Mas, o livro foi publicado e estou de volta.

A primeira coisa importante a relatar é que em junho do 2025 passei quarenta dias em San Diego, na Califórnia (EUA), e aproveitei para ir a Carlsbad, cidade que fica a 20 min dali.  Em Carlsbad, está o que eu considero  um templo da Gemologia: a sede central do Gemological Institute of América (GIA), a mais importante instituição do mundo na área da Gemologia. O GIA tem onze sedes espalhadas por muitos países, mas aquela é a sede central e a única aberta à visitação. Foi nele que se criou a mundialmente conhecida Regra dos 4 Cs, que resume as características usadas para determinar o valor de uma gema lapidada: color (cor), carat (quilate, ou seja peso), clarity (pureza) e cut (lapidação). 

O GIA oferece diversos cursos de formação para gemólogos e joalheiros e mantém laboratórios de excelente qualidade, onde são feitos trabalhos de identificação e classificação de pedras preciosas procedentes de todo mundo. Os cursos podem ser feitos à distância, mas alguns, com o que dá o título de gemólogo, exigem que o aluno preste exames, no final,  em uma das sedes do Instituto.

         O GIA de Carlsbad tem uma atração que é muito interessante, mesmo para quem não é gemólogo nem se interesse muito por gemas: seu museu. Ele tem algumas peças excepcionais, que justificam plenamente a visita. 

O ingresso é gratuito, mas é preciso agendar a visita. No dia e horário da visita que fiz, havia apenas mais dois visitantes, além de mim e minha mulher. Isso mostra que talvez o agendamento seja exigido não tanto por uma questão de grande fluxo de visitantes, mas para poderem deixar um guia à disposição das visitantes.  E quem nos guiou foi Júlia, que, além de muito simpática, conhece bem as gemas ali expostas.

Em frente ao prédio, há uma bela obra de arte de Bernd Munsteiner, escultor de nome internacional, esculpida em um quartzito com dumortierita procedente da Bahia (Brasil). 





Na fachada da sede do GIA, no alto, há espécie de urna com um octaedro representando um diamante. Dentro dele, outro sólido, este em forma de brilhante, mostra como é obtido esse tipo de gema lapidada a partir de um cristal de diamante de oito faces.  Um conjunto simples, mas muito significativo.



 Gostei de ver que eles valorizam bastante as gemas brasileiras e que estão muito bem-informados sobre elas.  Nada mais natural, portanto, que exibam ágatas do Rio Grande do Sul, pois são consideradas as mais bonitas do mundo. Mesmo assim, foi com muita emoção que vi ali expostas estas seis placas polidas enormes, medindo cerca de um metro,  provenientes de Soledade (RS). Eu já havia visto placas semelhantes, destas mesmas dimensões, naquela cidade, anos atrás. Mesmo assim, porém, foi emocionante vê-las expostas naquele templo mundial da Gemologia.  O geodo original, descoberto em 2014,  tinha dois metros de comprimento e o GIA obteve dele dezesseis placas como estas. Levaram doze dias para serrar cada uma delas e mais de um ano para polir todas. 



     O olho de tigre que se vê no comércio brasileiro são geralmente peças polidas de formato irregular ou pequenos fragmentos no estado bruto. Mas, o museu do GTA expõe uma placa polida que mede mais de 3,00 m de comprimento por 0,50 m de largura, procedente da região de Pilbara, na Austrália Ocidental.   



Quando vi esta peça, a vários metros de distância, não tive dúvida de que era uma obra de arte feita em vidro. Mas, para meu espanto, quando me aproximei vi que se tratava de um cristal de quartzo com uns 80 cm de altura e 193 kg, com inclusões de rutilo!  E  procedente da Bahia!


                A bela, rara e cara tanzanita:



            O Museu do GIA tem uma belíssima coleção de opalas. Lembrando do preço que se paga por uma lasca desta gema nos garimpos de Pedro II (PI), fiquei tentando imaginar valor comercial destas...

       Os copos com água têm o objetivo de manter o ambiente sempre úmido, impedindo a desidratação das opalas.




Belíssimos topázios brasileiros...


Curiosa coleção de miniaturas de instrumentos musicais feitas com gemas e ouro 14 quilates. O autor é Lothar Hermann, de Idar-Oberstein (Alemanha). 



                Além do Brasil, também o Paquistão está representado por lindas gemas, como esta água-marinha. 



A extrema raridade dos diamantes coloridos é bem  mostrada neste expositor.




            Nenhuma das sedes do GIA fica no Brasil. Mas, fiquei sabendo que ele pretende abrir uma unidade aqui para divulgar as gemas entre os estudantes (em Carlsbad, eles têm uma sala exclusiva para receber crianças).  E nossa guia Júlia confirmou isso. Espero que esse projeto se concretize logo. O Brasil está precisando.